Tenho hoje a companhia impiedosa dos meus fantasmas, dos
meus medos, da minha solidão, das minhas lágrimas - mas recompensa-me, de manhã,
a chegada do carteiro, com todas aquelas cartas, remetidas dos mais remotos
cantos do mundo, que vêm, às vezes muito cerimoniosas, pedir licença a mim, a
namorada, la fiancée, la nobia, o direito de compartilhar a enorme saudade
dele. Teve dias em que chegaram duzentas cartas, até mais. Ora, que o amor de
vocês seja um bálsamo para a minha alma ferida.
Uma noite dessas, eu me detive numa frase, escrita por uma
dessas amigas que nem conheço: "A eternidade não cabe em nossas frágeis
concepções de espaço e tempo".
Poderia ser um salmo da Bíblia, a palavra anotada pela mão
divina no livro sagrado que, assim como ele fazia, às vésperas de
corrida, leio hoje todas as noites, em busca de uma compreensão que
ultrapasse o meu desespero. Estou fraca. Mas sinto que não estou sozinha.

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