segunda-feira, 16 de março de 2015

A Paralisia Facial de Ayrton Senna em 1984 EM CONSTRUÇÃO

Em novembro de 1984, o piloto sofreu um drama: acordou com o lado direito do rosto paralisado. Pensaram ser um AVC, mas era apenas uma paralisia facial 
Gil Passarelli/Folhapress

Era para ser um Natal de muita tranqüilidade. Contrato assinado com a Lotus e um delicioso verão brasileiro pela frente. Mas Ayrton começou a perceber que o canto direito de sua boca não mexia. Ele também não conseguia encher as duas bochechas de ar. Pior: o olho direito ficava pequeno e ardia muito quando exposto à luz e ao vento. A pálpebra não obedecia. Sem domínio completo dos músculos, cada vez que ele tentava sorrir, o resultado era constrangedor. Mais parecia uma vítima de derrame cerebral. Senna tinha uma paralisia facial periférica, resultado de uma mastoidite, inflamação do nervo mastóide, responsável pelos comandos do cérebro à musculatura facial.

Reginaldo Leme foi uma testemunha do efeito devastador da doença: "Aquilo acabou com ele. Ayrton pareceu interpretar o que aconteceu como um sinal e se fechou. Não saía, não falava com ninguém.”

No auge da preocupação, de acordo com o amigo PQP, Ayrton chegou a atribuir a paralisia à sua movimentada vida sexual em Portugal. Mas não era algo que se transmitisse necessariamente pelo contato sexual. A doença, de origem virótica, exigia um tratamento à base de doses elevadas de cortisona. Senna, sensível ao medicamento e com medo de efeitos colaterais nos rins, fígado e estômago, parou com o remédio e chegou a experimentar um tratamento alternativo com o médico Haruo Nishimura, famoso por cuidar, na época, do general presidente João Figueiredo. Teve uma recaída. E foi obrigado a retomar o tratamento com cortisona, porque tinha compromissos com a Lotus na Inglaterra. Resolveu, então, preparar Peter Warr para a surpresa que o novo chefe teria quando o visse pessoalmente:

- Peter, tenho um problema. Não é sério, mas você vai perceber a diferença. É um problema no meu rosto, uma paralisia que não vai afetar a minha pilotagem.

Não adiantou. Warr ficou chocado com o semblante torto de seu novo piloto. Principalmente porque Ayrton precisava sorrir nas fotos que seriam feitas para uso publicitário e divulgação para a imprensa. Mas Senna não queria sorrir:

- Não posso fotografar, Peter.

- Como não pode? Nós temos de fotografar de qualquer maneira. Ayrton cedeu. As fotos foram feitas e não esconderam que havia algo de errado no rosto do novo piloto da Lotus. Bob Dance, o chefe dos mecânicos, ficou preocupado. Chris Dinnage, que trabalharia diretamente no carro de Senna, mais ainda: "Estávamos com medo de que ele não pudesse treinar.”

Tinha razão. Temendo o agravamento que era sempre provocado pelas trocas de temperatura, Senna cancelou sua participação nos testes da equipe no circuito francês de Paul Ricard. Na volta ao Brasil, a doença já era notícia. Nas palavras de dona Neyde, "jorrou solidariedade".

Reginaldo Leme, que recebera fax de fãs com sugestões de tratamento que incluíam receitas, simpatias e nomes de remédios, decidiu juntar uma pilha deles e entregar para Armando Botelho. A reação de Ayrton, Armando revelou depois, foi péssima:

- Ele não quis nem ler.

Quando o medo de seqüelas aumentou, Ayrton chegou a receber orações de benzedeiras indicadas pela família ou por amigos. Mas o que prevaleceu foram a orientação à distância de Sid Watkins e o tratamento em São Paulo, a cargo do médico Paulo Dauar.

O efeito da paralisia facial se fez sentir também no programa de preparação física de Ayrton. Ele parou de treinar, ficou cerca de dez dias sem sequer aparecer na pista do clube Pinheiros. Preocupado, Nuno Cobra foi buscá-lo em casa e, sem que Senna percebesse, acabou estacionando o carro junto à pista de treinamento. Tomou uma bronca:

- Olha o que você fez! Você me trouxe aqui. Eu não queria. Nem sei como você conseguiu. Não quero mais saber de nada. Estou de saco cheio. Não consigo nem falar!

Nuno viu Ayrton no fundo do poço, irritado, deprimido e falando em "desistir de tudo". Para tentar reverter a situação, iniciou um lento e gradual programa de exercícios temperados com muita conversa sobre feitos olímpicos e superação física e psicológica. Foram necessários cinco meses, entre o final de 1984 e o início de 1985, para resgatar Senna daquele quadro de desânimo.

Nuno percebeu que Ayrton ficava fascinado com histórias de superação como a do atleta norte-americano Bob Beamon, que, em 1968, chegara aos oito metros no salto a distância, quebrando um paradigma. Por isso, convidou, para acompanhar os exercícios, o tenista César Kist, um dos poucos brasileiros que chegaram às quadras de Wimbledon. César deixava Senna impressionado, ao dar 40 voltas na pista do clube sem sequer mudar o ritmo da respiração. Na verdade, Kist, a pedido de Nuno Cobra, estava passeando, em um ritmo bem abaixo do seu limite, para que Ayrton não se sentisse desmoralizado em sua lenta recuperação.

Nuno não queria "quebrar a coluna" de Ayrton, então às voltas com as dificuldades do lábio paralisado e tendo às vezes de enfrentar situações embaraçosas diante de repórteres e curiosos. O momento máximo do mal estar: um jornalista registrou, durante uma conversa, na hora do treinamento, que a água que Ayrton bebia estava escorrendo pelo canto da boca.

Em vários momentos, o trabalho de preparação feito ao longo de 1984 pareceu ter sido inútil. E Nuno chegou mesmo a acreditar que Ayrton fosse desistir de tudo. Por isso, até escondeu algumas planilhas cujos resultados eram perigosamente desanimadores. A recuperação só começou quando Nuno propôs que, em vez de quatro quilômetros, Ayrton corresse seis. A reação foi de surpresa:

- Mas você está ficando louco?

- E além de seis quilômetros, quero que sua freqüência cardíaca não ultrapasse 120 batimentos por minuto.

Ayrton levou a sério o desafio e fez exatamente o que Nuno Cobra pediu. Ele já tinha trabalhado, correndo grandes distâncias carregando peso, sem que a freqüência cardíaca aumentasse. Para Nuno, a nova postura de Ayrton foi o início da recuperação.

Até o boné do Banco Nacional, que no futuro se tornaria o objeto mais cobiçado pelos fã-clubes de Ayrton, foi uma espécie de conseqüência da paralisia facial: na véspera do anúncio oficial do patrocínio do banco, no hotel Rio Palace, no Rio, a paralisia ainda era evidente. Para disfarçar, um dos integrantes da equipe de marketing do banco sugeriu que Ayrton usasse o boné o tempo todo. E ele aceitou a sugestão, embora não houvesse cláusula alguma no contrato.


O humor de Ayrton começou a melhorar quando seu medo maior se dissipou: o de que a paralisia fosse decorrente de problema neurológico causado por alguma pancada na pista. A essa altura, Galvão Bueno sentiu-se até à vontade para debochar das caretas involuntárias de Senna e criou para ele um apelido temporário que foi recebido com humor: "boca de sandália". Para dona Neyde, porém, o rosto do filho jamais foi o mesmo: "O Beco ficou com seqüelas. Meu olho de mãe percebia isso. Bastava ele estar preocupado ou mesmo um pouco cansado que o olho ficava menor.”
Em seu começo de carreira na F1, após assinar com uma equipe de ponta, a Lotus, Ayrton Senna passa por um problema de saúde que quase fez ele desistir de tudo.
 Globo Esporte - 16 de janeiro de 1985: Ainda se recuperando de paralisia facial, Ayrton Senna vai testar Lotus

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Senna fala sobre a paralisia facial
Veja 1985

VEJA - Como você enfrentou o problema da paralisia facial que o afetou no início do ano?



SENNA - Foi bom para sentir o quanto somos insignificantes. Por mais que você programe sua vida, a qualquer momento tudo pode mudar. Na época eu tinha acabado de assinar contrato com a Lotus, o passo mais importante da minha carreira, e de repente senti minha profissão acabada. Eu mesmo, como pessoa, me senti balançar.

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Isto é - edição 242 - 29/03/2004

No final do ano, um dos maiores sustos de sua carreira: no dia 5 de novembro, acordou com o lado direito do rosto paralisado. Achou que era um derrame, mas foi diagnosticada uma paralisia facial, provocada pela inflamação da mastóide (osso do rosto). Fez massagens e usou remédios à base de cortisona, mas, sensível ao medicamento, ficou com o rosto deformado e só veio a se recuperar totalmente em fevereiro de 1985. “Foi bom para sentir o quanto somos insignificantes. Tinha acabado de assinar o contrato com a Lotus e de repente senti a profissão acabada. Eu mesmo, como pessoa, me senti balançar”, analisou o piloto.

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No início de 1985, Ayrton Senna quase abandonou a fórmula 1. 


Após ficar em quarto lugar na sua primeira temporada, então pela Toleman, o piloto acordou com uma paralisia facial durante suas férias e temeu que sua carreira estivesse em risco. 



Já assinado com a Lótus, Senna se submeteu a um tratamento de dois meses até voltar a mexer o lado direito do rosto. 



A estréia do piloto pela Lótus foi no GP do Brasil, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Largou em quarto lugar, mas devido a problemas técnicos, abandonou a corrida na 48ª volta. 


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Revista Placar - 18 de janeiro 1985



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Revista Placar - 01 de março 1985





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Revista Placar - 13 de janeiro 1986





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O Estado de São Paulo - 11 de dezembro 1984



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A represália da Toleman


Magoada com a saída de Ayrton Senna pra a Lótus, a equipe Toleman, sua equipe de então, deu como pretexto a doença para veta-lo do grande prêmio da Itália de 1984. Após o veto na Itália, mesmo com a paralisia, Senna participou das corridas seguintes, GP da Europa e GP de Portugal, nessa ultima ele deu um show, fechando com chave de ouro sua primeira temporada de F1 e a passagem pela equipe inglesa.

Grande Prêmio da Itália – 1984

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As duas semanas que antecederam o Grande Prêmio da Itália foram de incertezas sobre a presença de Ayrton Senna na prova.

Como já tinha firmado um contrato com a Lotus, a Toleman decidiu suspender o piloto brasileiro naquela corrida. O motivo dado à imprensa, a paralisia facial virótica, contada até hoje como o motivo da ausência de Ayrton Senna na prova, não impediria sua participação.

Para o lugar de Ayrton Senna, a Toleman chamou o piloto italiano Pierluigi Martini. Martini, no entanto, não conseguiu se classificar para a corrida, marcando um tempo 9 segundos mais lento do que o pole position.


Grande Prêmio da Europa – 1984
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A paralisia facial não impediu Ayrton Senna de participar das corridas. Mas, obviamente, ele não estava na sua melhor condição física quando chegou a Nürburgring.

Desta vez, não reclamou da 12ª posição obtida para o grid porque – como brincou – estava quase à passeio naquele Grande Prêmio.

Sua participação naquela corrida acabou praticamente aí, sobrando então o passeio pela aprazível floresta negra germânica.

Largou bem e ganhou três posições logo no início, mas foi um dos sete pilotos envolvidos num múltiplo acidente logo na terceira curva e voltou mais cedo para os boxes com Keke Rosberg (Williams), Gerhard Berger (ATS) e Marc Surer (Arrows).

Ayrton Senna passou a se preparar a partir de então para a sua última corrida pela Toleman.

Grande Prêmio da Portugal – 1984


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Ayrton Senna já estava acertado com a Lotus e o fim de semana foi o seu último compromisso com a Toleman. Ele, no entanto, queria se despedir em grande estilo. Fechar esta importante passagem pela equipe, a sua primeira na Fórmula 1, com chave de ouro.

Por isso, dedicou-se muito nos treinos livres para conseguir uma boa posição de largada. Acertou o carro, foi para a pista, pisou fundo e obteve o surpreendente terceiro lugar, atrás apenas da Brabham de Nelson Piquet e da McLaren de Alain Prost.

Na corrida, foi novamente muito bem, superando Michele Alboreto (Ferrari) na disputa pelo terceiro lugar na última volta, fechando assim sua biografia na Toleman com mais um pódio.

No final do Grande Prêmio, Ayrton Senna recebeu uma terna homenagem dos mecânicos da sua equipe com um cartaz profético: “A Toleman nunca será a mesma sem Senna”.

Os 13 pontos de Ayrton Senna conquistados com a equipe em 1984 foram a metade de todos os conquistados pela Toleman em sua existência na Fórmula 1, entre 1981 e 1985.

Em 1985, a equipe foi vendida e passou a se chamar Benetton. E Ayrton Senna começou a brilhar em sua nova equipe, conquistando as suas primeiras vitórias na Fórmula 1.

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FONTES PESQUISADAS

Disponível em: <http://esporte.uol.com.br/f1/album/2014/04/21/20-anos-sem-ayrton-senna-100-imagens-do-campeao.htm#fotoNav=17>. Acesso em: 23 de fevereiro 2015.


Macacão da estréia de Senna pela Lótus vai a leilão no interior de São Paulo. Disponível em: <http://www.sistemamega.com/noticias/23307/macac%C3%A3o-da-estr%C3%A9ia-de-senna-pela-l%C3%B3tus-vai-a-leil%C3%A3o-no-interior-de-s%C3%A3o-paulo.html>. Acesso em: 23 de fevereiro 2015.

Grande Prêmio da Itália – 1984. Disponível em: <http://www.ayrtonsenna.com.br/historias/dentro-das-pistas/formula-1/temporada-1984/grande-premio-da-italia-1984/>. Acesso em: 23 de fevereiro 2015.


Grande Prêmio da Europa – 1984. Disponível em: <http://www.ayrtonsenna.com.br/historias/dentro-das-pistas/formula-1/temporada-1984/grande-premio-da-europa-1984/>. Acesso em: 01 de fevereiro 2015.

Grande Prêmio de Portugal – 1984. Disponível em: <http://www.ayrtonsenna.com.br/historias/dentro-das-pistas/formula-1/temporada-1984/grande-premio-de-portugal-1984/>. Acesso em: 24 de fevereiro 2015.

Lotus. Placar, São Paulo, edição nº 771, p. 56 – 57, 01 de março 1985.

Enfim na Lotus. Placar, São Paulo, edição nº 765, p. 51, 18 de janeiro de 1985.

As frases de 1985. Placar, São Paulo, edição nº 816, p. 36, 13 de janeiro de 1986.


O duelo brasileiro. Placar, São Paulo, edição nº 774, p. 56, 22 de março de 1985.

O ESTADO DE SÃO PAULO – Senna quase recuperado. O Estado de S. Paulo, 11 de dezembro de 1984, Geral, página 24.


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