Piloto danifica equipamento
do fotógrafo e grita 'vai procurar sua turma'
Folha de São Paulo
01 de maio de 1993
O tricampeão mundial de Fórmula
1 Ayrton Senna agrediu ontem à noite o repórter Otavio Cabral, 21, do jornal “Notícias
Populares” e danificou o equipamento do fotografo Sérgio Andrade da “Folha da
Tarde”.
Senna saia do cinema Liberts
na avenida Paulista, às 21h45 depois de assistir o filme “Herói por Acidente”,
acompanhado da modelo Adriane Galisteu, da agência Elite.
Ao se deparar com os
jornalistas, Senna reclamou que os jornalistas estavam invadindo sua
privacidade. O repórter perguntou se eram verdadeiros os rumores de que a
modelo Marcella Prado estaria esperando um filho do piloto, “Vai se foder, vai
procurar sua turma”, gritou Senna.
Em seguida o repórter falou
que estava trabalhando, “Trabalhando o caralho”, retrucou Senna, desferindo um
tapa na orelha de Cabral. Na seqüência, tomou a máquina fotográfica de Andrade
e atirou-a na parede com força. Depois, ainda chutou o equipamento.
“Eu não posso me divertir que
a imprensa vem atrás. Vocês vivem me caluniando. Primeiro dizem que eu não sou
homem. Agora, inventam essa gravidez. Me deixem em paz”, gritou.
Enquanto o fotografo recolhia
as peças da máquina, Senna exigiu que lhe fosse entrega o filme. Andrade deu um
filme virgem ao piloto, que desenrolou a bobina. Os jornalistas se retiraram em
seguida.
A modelo Adriane Galisteu
conheceu Senna na boate Limelight, na festa da vitória do Grande Prêmio Brasil
de 93, conquistado pelo brasileiro. Dias depois, Adriane viajou com ele para
Angra dos Reis, onde passaram um fim-de-semana juntos. “Somos apenas bons
amigos”, disse Adriane quando voltou para São Paulo.
Uma correção: Nessa matéria cita que Adriane Galisteu conheceu Ayrton Senna na boate Limelight, essa informação está errada, na verdade Adriane conheceu Ayrton no
Grande Prêmio do Brasil 1993 de formula 1, realizado no autódromo de
Interlagos, em São
Paulo. No mesmo dia, ela foi na festa da vitória do GP Brasil 93,
na boate Limelight, onde reencontrou Ayrton Senna.
Adriane cita o episódio em
seu livro “Caminho das Borboletas”
Falamos uma hora e meia. Não
disse uma palavra sobre a prova. Disse mil palavras sobre saudade, pressa de
voltar, planos de me encontrar. Imaginem: eu estava num paraíso mas só pensava
no meu amor. Vontade de voltar rápido, rápido. E, de fato, dois dias
depois nos encontramos no apartamento dele, da Paraguai, dispostos a recuperar
o tempo perdido naquela semana de separação. Estávamos em clima total de
namorados e, para isso, nada melhor do que o escurinho de um cinema. Ele
escolheu: Dustin Hoffman, paixão total do meu moço. Filme: Herói por
Acidente.
Meia dúzia de espectadores,
no Cal Center - maravilha para um filme a dois. A saída, esperava por nós o
inferno. Ayrton é dono de uma paciência oriental para com os fãs mais ansiosos.
Mas não tolera o jeitão trêfego e insolente de uma certa imprensa. Fomos, de
repente, sitiados. Ouvimos o primeiro clique - e ele segurou com força minha
mão. Outro flash. Ele quis dialogar:
- Olha, eu vim aqui em busca
de tranqüilidade. Podemos ir todos embora agora, não podemos?
Enquanto ele argumentava,
novo flash. E a perigosa aproximação de um rapazinho, de bloco e Bic na mão,
trazendo na ponta da língua aquele veneno que só as cascavéis e alguns
jornalistas conseguem destilar:
- Essa história da gravidez
da Marcella Prado... Afinal, a filha é sua ou não é?
Tipo da pergunta elegante
para um sujeito que tinha uma namorada ao lado. Pela primeira vez, pressenti
que ele ia dar vazão ao seu pedaço Incrível Hulk:
- Pergunte ao seu pai. - E,
antes que o repórter puxasse o argumento "é meu trabalho", já levou
um safanão que o derrubou. Ao fotógrafo, ele lascou um tapa na orelha que até
hoje deve lhe soar como um telefone ocupado. Arrancou-lhe a máquina e a
arremessou contra o vidro do cinema. Juntou gente e eu não sabia o que fazer. Segurei-lhe
na mão, gelada, que tremia, e tentei arrastá-lo. Mas ele estava transtornado.
Voltou atrás sobre seus passos:
- Me dá o filme.
Fotógrafo e repórter
gaguejavam. Passaram-lhe um rolo, que ele puxou e expôs à claridade. Arremessou
contra uma cesta de lixo. Caminhamos para a porta e ele ameaçou voltar:
- Cachorro! Tenho certeza de
que o filme é outro. Era outro.
Um homem capaz de percorrer
uma pista tortuosa a 350 quilômetros por hora caminhou até o carro com o
rosto respingado de lágrimas, e ele chorava, chorava, até seu apartamento -
chorava de raiva, chorava pela impossibilidade de ser um mero mortal como os
outros, chorava com a indelicadeza daqueles que fazem de uma profissão bonita
um ofício de abutres, chorava por ser indefeso, chorava por me expor, chorava
pelo controle perdido, arrependido de entrar no jogo dos achacadores de
novidades. Mais de uma vez eu o vi chorar. Nunca de medo. Sempre de raiva.
Ele se metia nas brigas e, depois, se envergonhava. Mas, num mundo de má-fé, a
lei dos punhos acaba tendo de se impor, às vezes. Chorei com ele. Percebi, ali,
que já vivia plenamente a vida dele.
FONTES PESQUISADAS
FOLHA DE SÃO PAULO - Senna agride repórter
depois de ver ‘Herói por Acidente’. Folha de São Paulo, São Paulo, 01 de maio
1993, p. 8.
GALISTEU, Adriane. Caminho das Borboletas. Edição 1. São Paulo: Editora Caras S.A.,
novembro de 1994.
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