segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Infância de Ayrton Senna EM CONTRUÇÃO




Parte 1


(Depoimento de Benedito José de Souza - Padrinho de Ayrton)

A cara do Becão iluminou-se quando viu o papagaio cantar e repetir o refrão de uma velha toada do Pantanal:

♫ ...Chorava o pai, chorava a mãe,
Chorava o filho
Com pena do papagaio...♫

E logo quis comprar o bichinho. Bem que eu tentei, mandei o dono do papagaio fazer preço, mas era bicho de estimação do caboclo e não deu negócio.

Me senti um padrinho diminuído na frente do afilhado e tentei consolá-lo
lembrando que a gente estava indo explorar o alto Araguaia durante nossas férias.

Eu tinha um prazer especial em ensinar o Beco a caçar e pescar desde os seus 10 anos. Ele foi um afilhado que ganhei como fruto da amizade feita com o Miltão, o Milton da Silva, pai dele, no fim dos anos 50. A gente se conheceu numa caçada de capivara e quase ficamos inimigos em vez de compadres. Eu dei um tiro numa capivara, mas o chumbo ricocheteou e acertou na perna direita do Miltão. Pegou de raspão, só queimou a calça e deixou a canela dele vermelha.

Tempos depois, quando o Miltão me surpreendeu com o convite para ser seu compadre, achei que ele não tinha se esquecido do tiro e perguntei:

- Eu vou ter que ir para São Paulo?
- Claro. Ou vai querer que eu traga a criança aqui?

Me deu uma tremedeira. Eu, caipira do serrado, morador de Goiânia, que só viajava pelas matas do Alto Araguaia, ir a São Paulo... Só podia ser vingança do Miltão. Mas fui, que afilhado não se enjeita. Porém não foi daquela vez que ficamos compadres, porque a crisma era da Viviane, e como homem não crisma menina foi a Wanda, minha mulher, quem ficou a madrinha. Mas em plena cerimônia o Miltão bateu no meu ombro e falou disfarçado no meu ouvido:

- Calma que o teu afilhado vem aí.

No momento não entendi, mas a Wanda matou a charada na hora. Naquela altura, o Beco já tinha sido encomendado e seria o meu futuro afilhado.

Foi comigo que o Ayrton aprendeu, nas férias, muito de pescaria e caçada e , lógico, de travessuras que eu ajudei ele a fazer.

A viagem de mil quilômetros de Goiânia à cidade de Casina, que a gente fazia de avião, era de suspense para o menino. Um tempo de expectativa, porque para ele bom mesmo era navegar, pilotando a lancha nos 150 quilômetros de Araguaia, de Casina até o acampamento na ponta da ilha do Bananal.

Lembro das bravatas do Beco como se fosse hoje. Ele tinha um jeito de deixar a gente feliz. Hoje a saudade dele às vezes beira o pranto.

Tinha vez que ele se aborrecia comigo porque eu não lhe dava as linhas de pescar acima do número 50. E com as que ele tinha jamais chegaria à proeza de tirar das águas do Araguaia um piratinga de 2,12 metros, pesando 121 quilos, como me viu fazer. Um peixe daqueles só se arranca do rio com linha grossa, forte, número 100. Era um cuidado aqui do velho Dito, para o Beco não se machucar se fisgasse um peixe muito bravo. Até 10 quilos a linha agüentava, depois ela partia e não havia perigo para o menino.

Quanto a dirigir eu não fazia restrições. Ele guiava os carros, pilotava as lanchas do acampamento, mas, por recomendação severa e definitiva do pai, tinha que ficar longe dos ultraleves. O Miltão sabia das minhas proezas com aquele mosquitão. Com ele vivi grandes aventuras e sustos ainda maiores. Adorava escoltar os grandes barcos. Araguaia de ultraleve com flutuador. Pousava na água e decolava, exibindo aos navegantes a perícia que, porém não me livrou de quatro quedas. No ultimo tombo, machuquei a região da fala, o que me deixou meio gago e rindo desse jeito, meio aos socos.

O Beco adorava o jipe e adorava a Kombi nas idas e voltas ao acampamento. Num retorno a Goiânia tremeu quando viu a polícia à margem da estrada e me pediu que pegasse a direção. Eu achei graça, porque a policia não era de trânsito, e ainda fiz questão de exibir orgulhoso aos soldados a competência do meu afilhado ao volante.

Nadar era outro prazer que o Beco curtia. Certa vez Ayrton mergulhou por horas nas águas transparentes do Araguaia até laçar um motor de canoa que o Fidélis, outro afilhado meu, tinha deixado cair no rio.

Olha, aquele menino sabia fazer de tudo. O Ayrton era capaz de consertar um carburador de motor de popa, que eu não conseguia em duas horas, em 30 minutos. Até caçar porco-do-mato ele sabia. E não tinha medo. Uma vez fomos fazer uma caçada de catitu, uma espécie de javali menor que só sai da toca de dois modos: Ou a gente usando um espelho para refletir o sol no buraco, ou com mato molhado de urina.

O Becão, moleque, preferiu do segundo modo. Fez uma touceira de ramos, mijou nela e colocou na toca. Mas não funcionou. Ele achou que eu estava lhe passando um trote. O meu capataz foi buscar o espelho do carro e brincou com o Beco: - Mijo da cidade é Fraco pra tirar catitu da toca.

Porém, bastou dirigir o reflexo do sol para o buraco para que os dois porcos saltassem dali. O Becão, esperto, armou a espingarda e deu um tiro certeiro no primeiro, mas o segundo catitu escapou. Depois do abate – Lembro como se fosse hoje -, o menino ficou um tempão olhando o animal morto e me pareceu arrependido da façanha.


O Beco era um companheirão. Numa das voltas do Araguaia para casa, em Goiânia, paramos em Marianópolis, na Belém-Brasília, para almoçar. Eu tinha dinheiro para a gasolina, mas como estava com oito sobrinhos além do Beco, ia faltar dinheiro.

Fiquei meio sem jeito de pedir fiado, mas nem precisou. Como tínhamos um saco de abacaxis fresquinhos no carro, o Beco propôs completar o pagamento da comida com frutas. O dono do restaurante topou e nós tivemos um almoção.

No final das férias de 1973 na volta de Goiânia, comecei a fazer planos de trocar as barracas do acampamento por uma casa. Achei que devíamos ter mais conforto nas nossas férias. Escolhi o local bem na ponta da Ilha do Bananal, perto da cidade de Lago Grande, junto da foz do Rio Beleza. Fiquei acalentando o sonho, até que em 1994 a morada ficou pronta. Tem todo o conforto de que um homem precisa, inclusive pista para avião e um requinte especial: um quarto com uma placa que diz “Apartamento do Beco”. Uma peça de 25 metros quadrados, vedada contra escorpião, lagartixa, mosquitos e outros bichos, construída especialmente para meu afilhado. Pena que ele não teve tempo de conhecer. Mas o Apartamento do Beco continua e vai ficar lá, intacto, às margens do Rio Beleza.






Parte 2

   Recém-casados, Milton da Silva e sua mulher, Neide Senna da Silva passeavam por São Paulo traçando planos para o futuro. De repente, Milton para diante de uma vitrine de uma loja onde encontrava-se um Kart exposto e diz para a mulher: "Quando nós tivermos um filho, eu vou fazer um igualzinho para ele."

  Com o primeiro filho do casal, Milton não poderia pôr em prática o seu desejo. Nasceria uma garota, Viviane, que se formaria em psicologia.

  No dia 21 de março de 1960, porém, o casal tem seu segundo filho: Ayrton. Mesmo sendo homem, Milton continuou achando que não seria desta vez que construiria o sonhado kart. O garoto apresentava problemas de coordenação motora, como afirmou sua mãe: "Eu não acreditava que ele fosse normal. Era muito difícil para ele conseguir subir até uma escada com mais de três degraus." Os pais resolveram fazer um eletro encefalograma no garoto que acabou revelando uma criança normal.





Ayrton Senna e a mãe Neyde


Parte 3

(Depoimento de Neyde Senna da Silva - Mãe de Ayrton)

   “Ainda fazia um calor de angustiar naqueles dias de outono de 1960. (Neyde Senna da Silva – Mãe de Ayrton) Eu me preparava para ir me deitar quando senti que alguma coisa de anormal estava acontecendo comigo: me assustei com o incontrolável desejo de urinar. Na época ainda havia muitos tagus e a gente não tinha grandes informações. Tanto que confundi o rompimento da bolsa com a minha micção.


   Eram 9h30 da noite do dia 20 de março de 1960. Contei ao meu marido da perda exagerada de liquido e do princípio de cólicas. Tentamos avisar o doutor Carizzatto, velho medido da nossa família e que já tinha assistido minha mãe no meu nascimento, mas não o encontramos. Foi a Antonieta, experiente parteira do médico, que afinal diagnosticou o rompimento da bolsa, quem ordenou que eu fosse imediatamente para o hospital e maternidade Promater. Enquanto partíamos do bairro do Tucuruvi (zona norte de São Paulo), Antonieta conseguiu tirar o medido de uma mesa de pôquer – numa noite de sorte – para me atender.

   Como eu já era mãe de uma menina, a Viviane, torcia por um filho. Tudo correu bem e às 2h45 do dia 21 de março de 1960 Ayrton nasceu. Foi o único dos meus três filhos que veio ao mundo de um parto seco (a bolsa já havia se rompido) e, que ironia, justamente ele que seria um campeão do mundo especialista em vencer no molhado.”

   O primeiro comentário sobre o meu filho foi feito pela Eunice, minha cunhada, e ele era pouco animado. Ela me disse:


- Zazá (meu apelido em casa), você ganhou um menino. É homem o seu filho.



E sem tomar nem fôlego me alertou:



- Olha, não quero te assustar, mas ele é feio, muito feinho.



  Eu tive que rir, nunca esqueci a sinceridade dela e fiquei curiosa para ver o meu filho. Olhei o neném, todo enrugadinho, com o rosto semi-encoberto e só com uma boca à mostra, que me pareceu enorme, mas não tão feio.



  O nome foi outro parto. O Ayrton saiu de uma lista de mais de 20 sugestões e só se chegou a um consenso porque já estávamos no último dos dez dias que o cartório estipula como prazo para o registro.



  De Ayrton surgiu “Beco”, um diminutivo oriundo da dificuldade da minha sobrinha Lílian pronunciar o nome do novo primo.



  O Ayrton sempre foi muito carinhoso com as professoras, acho que retribuía a compreensão delas. Certa vez, acho que aos 12 anos de idade, comprou uma rosa e foi levar à casa de dona Nídia, uma das professoras pela qual ele tinha um carinho especial. Quando nos encontramos, a professora me agradeceu, certa de que a iniciativa tinha sido minha e não do Beco. Surpresa, perguntei a ele:



- Meu filho, por que você quis dar uma flor para a sua professora?



  Ele me abraçou e simplesmente retrucou:



- Asshh... foi saudade, mãe. Eu tive saudadeda professora e comprei uma flor para ela.



E depois saiu correndo.






     O Beco foi brigão no colégio. Vivia arrumando confusão no pátio, no recreio, ,as era atento nas aulas. Por isso eu aceitava o habito dele só fazer as lições de casa dez ou 15 minutos antes de ir à escola. Levantava cedo e, sem preguiça, resolvia os remas rapidamente, como tudo o que fez na vida. Só quando tinha prova é que eu lhe tomava a lição. Mas ele quase sempre sabia tudo. Não era de estudar muito em casa, nunca foi o primeiro da classe, mas estava longe dos últimos.

   Certa vez presenciei um curioso diálogo no café da manhã entre o Ayrton e a Viviane. Ele ficara impressionado com o fato da irmã ter estudado até tarde da noite para uma prova de francês. Quando soube que ela precisava só de meio ponto, acabou a solidariedade. Caiu na gargalhada. Afinal, ele havia precisado de quatro pontos em português e tinha resolvido tudo em meia hora.
   A roupa só foi se tornar uma preocupação para o Beco depois da adolescência.
Até então, usava o que lhe comprávamos, sem preferências. Porém, foi um recordista em gastar sapatos. Ou melhor, botas, porque nenhum calçado convencional resistia por mais de 15 dias às suas travessuras.
   Duas semanas era o tempo exato para a bota abrir a sola. E eram botas reforçadas, de cano médio e com contrafortes no calcanhar e no bico. Ele fazia test driver com elas. Calçava-as, armava uma corrida e brecava. Se as botas deslizassem, ele não queria. Tinham que segura-lo. O Beco podia ser sócio da Sapataria Hollywood, uma loja que ficava bem na esquina da nossa rua. O seu Rodolfo, dono da loja, jamais se descuidou da bota preferida do Ayrton. Sempre havia um estoque delas.
   Os brinquedos tiveram tudo a ver com o que ele seria no futuro. Primeiro os carrinhos de rolimã, bicicleta... Depois dos 11 anos, foi o Kart. Saía do colégio e ia com o Pedro, nosso motorista, direto para Interlagos.  
   Nos sábados, domingos e feriados, corria nos trechos em contrução da Avenida Margina do Tietê, com os amigos da época: o Sérgio, o Português e o Jacotinho, todos conduzidos, com seus respectivos Karts, no caminhãozinho do pai. O Beco era tão impaciente que, quando chegava a vez do Fábio, o seu primo, andar no Kart, ele não se continha e ia soltar pandorga.



Ayrton Senna e a irmã Viviane Senna

Parte 3

(Depoimento de Viviane Senna Lalli - Irmã de Ayrton)


   Eu já tinha procurado meu irmão em todos cantos do clube. (Viviane Senna). Meus avós João e Maria, que todos os sábados nos levavam, juntamente com minha prima Lilian, ao Clube Santana, estavam muito nervosos porque tinham perdido o menino. Não havia mais onde procurá-lo. De repente, o alto-falante anunciou um garoto de 5 anos procurando seus parentes.



Mesmo sendo só quatro anos mais velha que meu irmão, jamais conseguia acompanhar os movimentos do espoleta. "Espoleta" era um dos vários apelidos pelos quais a gente chamava o Ayrton. No começo foi "Caneco", mas depois ficou "Beco", porque a nossa priminha Lilian não conseguia falar Caneco. E, mais tarde, ele se assumiria como "Becão".


Corremos para a área de alimentação do clube e lá estava o Caneco, Beco, Becão em cima do balcão da pastelaria, ao mesmo tempo chorando e devorando um pastel misturado com lágrimas desesperadas.


   Pastel era uma das iguarias que consolavam o Ayrton. Eu não esqueço como ele era comilão. A nossa mãe tinha que fazer três escalas obrigatórias no caminho para a escola: uma parada em cada uma das três pastelarias da Rua Voluntário da Pátria, no bairro de Santana. Era divertido ver a exata divisão que o Beco fazia entre a gula e a distância das pastelarias e o colégio.


   O Ayrton sempre teve bom apetite, e a rapidez era uma parte acentuada da sua personalidade. Um glutão precavido, pois mesmo quando convidado para um banquete não deixava de degustar antes alguma coisa em casa para se prevenir contra surpresas no cardápio.


  Era incrível. Uma vez não consegui ver o filme Brande de Neve e os Sete Anões por causa do apetite do Beco. Bastou a bruxa começar a insistir para que a Branca de Neve comesse a maça envenenada e a fome dele despertou. O Beco insistiu tanto, mas tanto, para a mãe comprar uma maça que, enquanto não saímos do cinema para lhe satisfazer o desejo, ele não sossegou.


   O Becão também nunca foi paciente. Batia recordes de lições em casa e na escola. Terminava suas tarefas na aula e depois ficava atazanando os colegas. Não foram poucas as vezes em que a professora o mandou copiar vinte vezes as tabuadas do 2 até 9, para acalmá-lo.


Foi um menino feioso, cheio de alergias pelo rosto, inquieto e ativo, mas sempre muito ligado na gente.



















Parte 4

(Depoimento de Neyde Joana Senna da Silva - Mãe de Ayrton)




    O Beco dizia em casa que era o piloto mais antigo da F1 porque tinha começado muito cedo, aos 4 anos. (Neide Joana Senna da Silva). Meu marido Milton tinha uma metalúrgica e resolveu fazer um Kart. Ele gostava de corridas, mas nunca tinha feito um, levou uns 6 meses até terminar. Dizem que o Kart era da irmã, Viviane, mas nunca foi. Era para o Ayrton mesmo, que sempre gostou de carros. Nos sábados à tarde, o Milton pegava um caminhão da empresa, botava o Kart e os garotos da rua em cima e levava todo mundo para brincar. Não sei bem o ano dessa foto (a foto exibida nesse post.), mas é da década de 60. O Kart já era o de número 007. Nessa época, a gente morava no Tremembé. A Marginal Tietê ficava perto e ainda não estava toda pronta, tinha trechos asfaltados fechados ao trânsito. O Beco é o menorzinho da foto, mas já corria bastante.






Ayrton Senna com 13 anos e o irmão Leonardo Senna com 7 anos







Parte 5

(Depoimento de Leonardo Senna da Silva - Irmão de Ayrton)

Os seis anos de diferença de idade que me separavam do Ayrton não deixaram muitas lembranças de infância compartilhada (Leonardo Senna). Claro que tenho na memória as peripécias dele no Kart, as quais, aliás, acompanhei sem muita inveja. Mas o Beco era tão ligado ao Kart que cheguei a me arriscar a pilotar uma vez. Foi dentro da metalúrgica do meu pai. O Beco me explicou tudo, mas mal saí e entrei embaixo de um caminhão estacionado. Terminou ali a minha carreira de piloto.




Ayrton Senna com o pai Milton da Silva na Infância


Parte 6

(Depoimento de Milton da Silva - Pai de Ayrton)

O Ayrton adorava a Fazenda Caraíbas, que nós tínhamos em Goiás. Pequeno ainda, com 7 anos, adonou-se do jipe Wyllis 1967 que havia por lá. Mal alcançava os pedais, mas passava o dia inteiro levando os vaqueiros para todos os cantos da fazenda. Também fazia misérias numa moto Suzuki 180 nas terras da propriedade do Tocantins.


Certa vez ele ficou muito triste porque perdeu o primeiro capacete que eu tinha lhe dado. Na verdade, ficou esquecido dentro de um almoxarifado. Há pouco tempo, ao vender a fazenda, eu o recuperei, e o Sid Mosca, que pintava todos os seus capacetes, fez uma bela restauração dele. A peça agora está no memorial.



O Ayrton aprendia tudo muito rapidamente porque tinha a escola do Kart. E o menino que se inicia no Kart leva uma grande vantagem, pois vai cuidar do físico, abster-se de beber, de fumar, fica longe das drogas. Enfim, vai seguir a filosofia da preparação para competir num esporte muito exigente. Capacita-se a fazer um cavalo-de-pau, se necessário, mas habilitado para evitar acidentes.



O Ayrton sempre encarnou essa filosofia. Levou muito a sério a pilotagem e fez dela sua profissão de corpo e alma. Por isso foi o tricampeão que todo mundo elogia.





Ayrton Senna em uma competição de kart aos 9 anos


Parte 7

(Depoimento de Milton da Silva - Pai de Ayrton)
  
Quando ele tinha 9 anos, comprei um Kart oficial. Era muito bonito e fora feito para o Emerson Fittipaldi, já com freios dianteiros. Era muito aerodinâmico. Quando fez 13 anos, levei o Ayrton para competir na categoria de estreantes e novatos. Aniversariou em 21 de março e em julho participou do Torneio de Inverno, em Interlagos. Ganhou as duas provas e o torneio de estréia.


Mas antes disso, ainda aos 9 anos, Ayrton competiu numa prova amistosa de rua, em campinas, São Paulo. Não esqueci que fui eu, e não ele, quem tremeu naquele dia – se é que algum dia ele tremeu. Me assustei quando vi mais de 30 Kartistas, todos mais velhos. As posições de largada foram definidas por sorteio, cabendo ao Ayrton o número 1. Fiz tudo para ele não entrar na pista. Retirei a inscrição e guardei o Kart. Mas a insistência dele foi tamanha que acabei concordando, só que com uma exigência: não sair na pole position, e sim em último.



Também perdi essa parada. Bom, pensei, seja o que Deus quiser. Eram 40 voltas. Ele largou na frente e foi mantendo a liderança, enquanto eu, nervoso, torcia para a corrida terminar. Já estava na 35ª volta e os demais pilotos aumentavam a pressão, mas ele nem tomava conhecimento: seguia firme, fazendo tomadas, fechando a porta e me fazendo sofrer. De repente, num trecho complicado, um estrondo, a poeira levantou e ele sumiu... Saí correndo para o local, pensando: mataram o moleque. Mas foi só susto. Quando cheguei na curva, ele já estava de pé, sacudindo a poeira e olhando para o garoto que o havia tirado da pista.







Sempre gostei de automobilismo e como o Ayrton era fanático por Kart resolvi me transformar num pai-projetista e contruí um Kart para ele. Foi o brinquedo que, com o passar dos anos, acabaria se transformando no lado mais sério da vida dele. Na época, eu tinha a Metalúrgica Universal, no bairro do Tremembé, em São Paulo. Improvisei o projeto com base no que eu via em fotos, e o trabalho, totalmente artesanal, feito peça por peça, levou seis meses, uma eternidade para o Ayrton, que estava contando os dias, ansioso para ter o carrinho.


Nosso primeiro projeto tinha alguma sofisticação: os freios já eram a disco, a direção de cremalheira, banco anatômico, mas o motor foi adaptado de uma máquina de cortar grama de 3 cv. Era normal, portanto, que o Kart tivesse pequenos problemas técnicos. Ficou um pouco alto em relação ao chão, o banco tinha inclinação limitada e a relação entre o motor e a cremalheira (corrente de tração) ficou longa. Uma característica que deixou o Kart com pouca força na arrancada, mas ele chegava a 60km/h de velocidade final, que o Ayrton atingia sem esforço nenhum, apesar de só ter 4 anos. Eu tinha medo, mas ele pilotou aquele kartinha até os 9 anos sem nenhum problema. 


A gente ia a lugares sem trânsito, como um antigo loteamento na saída de São Paulo da Rodovia Fernão Dias. O Ayrton tinha uma porção de amigos, eu juntava a molecada, colocava os Karts num caminhão e supervisionava a brincadeira nos finais de semana.











Como ele continuava fanático por tudo o que tinha motor, resolvi montar uma oficina completa na nossa casa. Foi ali que ele aprendeu a tornear, a inventar mil e uma no seu Kart. Varava o dia inteiro e, se deixasse, a noite, montando e desmontando os seus Karts. Era difícil fazê-lo se desligar da graxa e mandá-lo para a cama antes da meia-noite. Eu, como já disse, gostava muito de automobilismo e ele era muito bom nessa arte. Acho que por isso existia uma grande motivação recíproca. Mas havia uma filosofia por trás desse brinquedo: a de que ele extravasasse toda a sua energia de jovem no Kart e não em outras coisas.




O Ayrton, como todos os meus filhos, era teimoso. Herdaram essa "virtude" um pouco de mim e outro tanto da Neyde. Mas isso não impediu que ele refletisse e agisse dentro da lógica para fazer prevalecer o que era melhor para nós. Eu não queria vê-lo piloto profissional, mas ele ficou tão desmotivado trabalhando nos negócios da família que acabei concordando.

Sempre tememos acidentes, mas depois que o Ayrton entrou pra valer nesse esporte tentamos dar-lhe o máximo de apoio. Ajudamos a amadurecer a experiência insistindo para que não queimasse etapas e seguisse a ordem natural da carreira: Fórmula Ford, Fórmula 2000 e Fórmula 3. Aí, como segurá-lo se o moleque foi campeão em tudo e nessa ordem? Chegou a ganhar dois campeonatos simultâneos nas três categorias, o britânico e o europeu.


O Ayrton tinha muita iniciativa. Fez 18 anos e no dia seguinte foi tirar a carteira de habilitação. Foi ele quem descobriu e contratou o Tchê, seu mecânico nos tempos do Kart. 

Parte 7

Teste da Bota

Depoimento de Neyde Senna, Mãe de Ayrton

FOTO: Aos 3 anos, Ayrton (à dir.) batiza as bonecas da irmã

“A Viviane, minha sobrinha Lilian e filhas da minha amiga ficavam brincando nessa casa, que era da minha mãe. Era uma rua sem saída, todos se conheciam. As meninas ganharam bonecas novas e os meninos quiseram batizar. Eles brigavam para ver quem seria padre, meu pai fez uma mesa com docinhos e guaraná, era um sábado à tarde. Meu pai fotografou. O Beco ficava bravo porque no aniversário dele não tinha bombinhas, pois era em março, enquanto o da Viviane, que era em junho, tinha. Nem sempre a gente comemorava. Mas no aniversário de 4 anos fizemos uma festa. A gente havia acabado de se mudar, então seria coisa pequena. Mas chegaram dez garotos, depois 20, uma hora o Milton parou de contar. Ayrton foi de porta em porta, convidando gente que nem conhecia. A gente morou na ladeira da rua Pedro, no Tremembé. A calçada era em degrau, porque era uma ladeira forte. Ele descia a calçada num carrinho de rolimã e dava um cavalinho de pau antes do degrau. Ia cada vez mais perto. Eu olhava e pensava: ‘Agora cai’. Mas ele não caía. E depois ia ainda mais perto. Ele nunca quebrou nada, mas vivia ralado. Eu punha pedaços de couro na calça dele, para proteger os joelhos. Os únicos calçados que resistiam eram umas botas, e ainda assim não duravam mais de 15 dias. A gente comprava na Sapataria Hollywood, em Santana. Para experimentar, ele corria na loja e de repente brecava. Se derrapasse, ele não queria. Precisava brecar.”





Parte 8

Na Redação, o destino traçado


Ayrton Senna nos tempos de escola



Na primeira entrevista no departamento de Orientação Educacional do Colégio Rio Braco, em 1970, "Beco" escreveu uma pequena redação onde já se definia como futuro piloto de Fórmula 1. Isso aconteceu antes mesmo do primeiro título na categoria, conquistado por Emerson Fittipaldi, em 1972. A orientadora analisou a demostração de impulso automobilístico de Ayrton Senna da Silva como "uma fantasia de criança".


Parte 9

A pergunta eternizada no folclore família dos Senna da Silva





Milton, Neide e os três filhos sentaram-se à mesa para o café da manhã, na casa confortável no Tremembé, reduto da classe média paulistana. As crianças comiam com pressa. Tinham minutos para sair a bordo de um carro em direção ao colégio de freiras. A franzina primogênita de 14 anos não camuflava as olheiras. Cruzara a madrugada entre livros e cadernos, decidida a conseguir meio ponto numa prova de Francês e ser antecipadamente aprovada em todas as matérias. O esforço e a tensão da garota não pareceram comover o irmão do meio, que reagiu com um sorriso maroto e a pergunta eternizada no folclore familiar dos Senna da Silva: "Você ficou louca?" (Surpreso! Por ela estudar tanto por causa de meio ponto), provocou o menino Ayrton, então com 11 anos.


Parte 10

Festa de Aniversário



Fazia uns dois anos que Ayrton não dava uma festinha de aniversário porque sempre aprontava alguma e, de castigo, não podia dar festa. Quando foi completar 6 anos de idade, disse que naquele ano ele queria uma festa grande. Não adiantava ser uma festinha, tinha que ser uma baita festa.
Como ele tinha se comportado bem nos últimos tempos disse a ele que podia convidar quem ele quisesse...
No dia do aniversário, lá pelas 16h30 a molecada começou a chegar... Tinha menino de todo tipo, tamanho e idade. O Milton começou a contar mas desistiu lá pelo número 30...
Tinha gente saindo por todos os lados.
Milton ensinou a criançada a brincar de ULA NA MULA (Pula-Cela) e foi a maior bagunça.
Mais tarde, depois que todos os convidados tinham ido embora, perguntei para o Beco de onde eram todos aqueles amigos. Com a maior tranqüilidade ele respondeu:
"Na verdade eu não conhecia todo mundo. Eu fui andando pela nossa rua, tocando a campainha e convidando as crianças que moravam lá para minha festa de aniversário."


(D. Neyde Senna, mãe)


Parte 11


A poça

Tínhamos que ir a um aniversário na casa de uns primos. Como o Beco e o Leo eram pequenos, dei banho neles enquanto a Viviane se arrumava sozinha. Todos prontos, bem arrumadinhos e perfumados, fomos para o carro. Morávamos numa rua de terra e havia chovido, então vocês podem imaginar o barro que estava. Apressado, como sempre, Beco foi na frente de todos, abriu a porta do carro e foi engatinhando para o lado do motorista, encostando-se na porta. Só que ela estava apenas encostada e o pior aconteceu. Ele se apoiou com tamanha força na porta que ela abriu e o Beco foi com tudo para o chão, estatelando-se em uma poça d'água. Enquanto o Leo e a Viviane quase perdiam o fôlego de tanto rir, eu fiquei num tremendo mau humor por ter que voltar para casa e arrumá-lo novamente."

(D. Neyde Senna, mãe)


Viviane, Leonardo e Ayrton


A maça

Certa vez, levei a Viviane, o Leo e o Beco assistir ao filme A Branca de Neve e os Sete Anões. A Vivi, mais velha, é que estava louca para assistir ao filme e os dois menores estavam com as caras amarradas. Bem, tudo estava caminhando tranqüilo - até demais -, quando chegou a cena em que a bruxa colocava veneno na maçã para envenenar a Branca de Neve.
"Mãe, quero aquela maçã", pediu o Beco.
"Mais tarde", sussurrei para não incomodar os outros no cinema.
Dois minutos depois, ele me cutucou novamente, e falou mais alto:
"Mãe, quero a maçããã..."
Respondi novamente, bem baixinho:
"Espera um pouco. Depois do filme eu compro quantas maçãs você quiser. Agora, assista ao filme e fica quietinho.
" Mas não fui muito convincente, pois ele começou a berrar dentro do cinema:
"Mãe, quero a maçã agora."
Resultado: tivemos que sair no meio do filme para que ele comesse uma maçã igual àquela..."
(D. Neyde Senna, mãe)

Ele adorava comer desde pequenininho. Eu me lembro que um dia minha mãe nos levou ao cinema para ver Branca de Neve e os Sete Anões. Na cena em que a Branca de Neve pega a maçã ele ficou com vontade de comer maçã e começou a berrar: “Mãe, quero maçã! Eu quero maçã”. Tivemos que sair do cinema e comprar uma maçã para o Beco – era assim que chamávamos o Ayrton. Fiquei louca porque perdi o filme (risos). Mas foi engraçado. Ele tinha cinco anos.
(Viviane Senna, irmã)

Criança Agitada

Era agitado. Às vezes minha mãe achava que ele tinha algum problema na cabeça porque estava sempre correndo e caindo. Vivia com galo na cabeça e roxo na perna. Contrário a mim, que sempre fui tranqüila. Beco também era meigo e carinhoso.


Vencer Sempre

Durante a infância e a adolescência passávamos três meses de férias na praia, com nossos avós. À noite jogávamos buraco e Ayrton sempre queria ganhar. Um dia minha avó foi arrumar a mesa e descobriu cartas escondidas no lugar em que ele se sentava. Ela ficou brava e disse: “Olha só que safado de moleque. Ele quer ganhar de qualquer jeito”. Ayrton falava que o segundo lugar era o primeiro perdedor (risos). Era muito engraçadinho.

Coração Bom

Eu me lembro que aos oito anos ele viu uma criança pobre e disse: “Ele não deve ter bicicleta e eu quero dar a minha”. Ayrton sempre teve um coração de ouro.



A prima Lilian, Ayrton Senna e a irmã Viviane


Parte 11


Como Surgiu Apelido de Ayrton Senna: Beco

Ele foi primeiro apelidado de Caneco, mas ninguém da família se lembra porque ele ganhou esse apelido. “É um mistério”, dizem eles. Quando eram pequenos, Ayrton e Viviane brincavam muito com uma prima que não conseguia dizer “Caneco” direito, e encurtou para “Beco”. O apelido pegou.


Parte 12


As vitórias no Carrinho de Rolimã






Parte 13


Agitado desde o nascimento


Ayrton bebê nos braços da mãe Neyde 





Parte 14


Os primeiros contatos com o Kart







Parte 15


Oficina de Kart em casa




Parte 16


A Primeira Visita a um Kartódromo





Parte 17


"O Menino Ayrton Marcou Minha Vida" Tchê


Tchê segurando o "42", número que Ayrton usava em seus Karts na infância





Parte 18


As férias em Goiás


Quando criança, durante as férias, Ayrton Senna passava alguns dias na Pousada do Rio Quente (GO).

Junto com sua família, o garotinho brincava, nadava nas cachoeiras e se divertia com os irmãos!








FONTES PESQUISADAS

MARTINS, Lemyr. Uma estrela chamada Ayrton Senna. São Paulo: Editora Panda, 2001.

MOURA, Marcelo. Ayrton em cena. Revista quatro rodas, São Paulo, Edição 607, Ano 50, p. 210 - 214, Editora Abril, Agosto 2013.

Jornal O Globo


GREENHALGH, Laura; RAMOS, Carlos Henrique. A guardiã do mito. Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT186275-15228-186275-3934,00.html>. Acesso em: 12 de dezembro 2013.


Festa de aniversário. Disponível em: <http://senna.globo.com/memorialayrtonsenna/html_port/pe_p1.htm>. Acesso em: 12 de dezembro 2013.

Isto é

HILTON, Christopher. Tradução de Cláudio Blanc. Ayrton Senna, uma lenda a toda velocidade: Uma jornada interativa. Edição Brasileira. São Paulo, 2009.


Mr. Silvastone. Manchete, São Paulo, Edição Histórica, nº 2530, p. 40 – 45, Março 2004. 

Fanpage Oficial Ayrton Senna


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