segunda-feira, 18 de março de 2013

Adriane Galisteu Fala da Morte de Seu Único Irmão




02 de junho de 1996

Único irmão da modelo morreu no domingo passado, após contrair o vírus da Aids usando drogas injetáveis

Galisteu quer virar militante antidrogas

Por Aureliano Biancarelli - Folha de São Paulo

“Não quero que aconteça com o outros o que aconteceu com o Beto. Meu irmão deixou um exemplo aos jovens. Que eles acordem e vejam o que a droga pode fazer com uma vida.”
A mensagem é da modelo Adriane Galisteu, 23. Ao meio-dia do domingo passado, seu único irmão, Alberto Galisteu Filho, 28, morreu de pneumonia decorrente da Aids. Beto, como era chamado, se infectou injetando drogas.
Adriane só bebe água mineral sem gás e sem gelo. É um modelo de saúde. “Antes, sem perceber, eu buscava o contrário do que buscava meu irmão. Hoje eu quero pregar o meu modelo. Não é por moralismo, é pela dor que ele e todos nós passamos.”
Adriane diz que ainda não sabe o que fará, mas quer se engajar numa militância antidrogas.
“Estou disposta a participar de campanhas, alertar os pais e os jovens. Pode parecer um papo careta, mas não é. Eu vi meu irmão e seus amigos morrerem.”
Beto começou a usar drogas quando tinha 15 anos, Adriane tinha 10. “Quando a gente era criança, ele gostava de me pegar, ficava me cutucando, beijando meus pés. Fazia isso só para me irritar, porque sabia que eu tinha cócegas. Depois foi mudando, não era mais o beto carinhoso, que brincava junto. Foi se fechando, não saia mais do quarto.”
No quarto de Beto e da mulher, Ilonka, no bairro da Lapa, estão o capacedte e os bonés assinados por Ayrton Senna. “Ele adorava corridas. Gostava de Kart e ganhava todas as disputas de autoramas.”
Seis dias antes da morte, ele ainda participou de uma corrida de autorama. Seu carrinho quebrou.
Não quinta-feira, vestindo um cardigã preto e uma saia longa xadrez, Adriane falou sobre a morte do irmão e os anos que ele passou usando drogas. Abaixo, os principais trechos da entrevista:

A MORTE – “Eu perdi meu pai quando tinha 15 anos. Em 1994, todas as coisas ruins aconteceram. Em abril morreu minha avô. Quinze dias depois foi o Ayrton. Em seguida morreu meu avô.
Naquele ano, Beto descobriu que estava com Aids. Ele morreu ao meio-dia do domingo passado e, à tarde já estava enterrado. Eu daria tudo para te-lo de volta, qualquer coisa. Me senti totalmente impotente. Não havia dinheiro que pudesse dar um pulmão ao Beto, não havia felicidade, nem beleza que pudesse traze-lo de volta. Da minha família só restaram minha mãe, uma irmã dela e eu.”

A DOENÇA – “Ele estava muito bem até uma semana antes. Na terça-feira, ainda foi a um bingo. Na quinta-feira, foi internado, e morreu quatro dias depois. Ele já tinha um problema de cirrose, provocado pela bebida, que se agravou com uma hepatite. Debilitado, pegou uma pneumonia, seguida por outra mais forte. Seu pulmão se acabou. Ele sempre dizia que não queria morrer magro, acabado, e parece que Deus o ouviu. Não tinha mancha pelo corpo, nem estava magro. Ele sofreu pouco tempo. A gente fez tudo o que podia.”

NO QUARTO – “Minha mãe não falava, mas eu percebia o que estava acontecendo. Quando eu saía para o trabalho, ele estava dormindo; quando voltava, o quarto estava fechado. Eu brigava com ele, porque não queria sua vida daquele jeito. Até o colégio, ele ainda foi bem, depois tentou biologia marinha, e nunca mais estudou.
Fazia uns bicos, pintava camisetas, mas só para o dinheiro da droga. Usou drogas injetáveis quando tinha uns 18 anos, e foi aí que deve ter se infectado. Foi internado duas vezes, mas ele pedia para voltar e a gente ficava com dó. Ele só diminuiu o uso da droga quando descobriu que estava com Aids.”

DEPENDÊCIA – “Quando a mãe vê que o filho está começando a usar droga, não vale a pena bater, não vale a pena reprimir, porque ele vai usar fora. E pegar essa criança e levar a uma clinica de tratamento, mostrar qual é o fim dessas pessoas. Eu fui visitar meu irmão várias vezes. Quando você sai de lá, agradece a Deus pelo ar que está respirando.
Meu irmão era pessoa bem-humorada, de bem com a vida, mas precisava da droga. No final, usava para continuar vivo. Quando se arrependeu, era muito tarde, não havia mais retorno.
Tentamos de tudo. Resolvemos não dar dinheiro, não adiantou. Passamos a dar dinheiro, e não adiantou. A gente brigava, dava carinho. Até que resolvemos fazer com que fosse feliz da maneira dele, porque não tinha mais jeito.
Depois de 94, ele voltou a ser o Beto carinhoso. Eu olhava para ele, pensava em recomeçar tudo, mas sabia que não tinha mais jeito.
As pessoas sempre têm uma desculpa para usar a droga. Você imagina que vai ser só um baseado, mas não é assim; vai daí para a cocaína e para outras drogas.

A MÃE – “No desespero do hospital, minha mãe dizia, “quem tiver um filho drogado, que traga aqui para ver o que estamos passando.” Imagine uma mãe vendo o filho se drogando todos os dias, seguindo por um caminho sem volta. Você tentando salva-lo sem nada conseguir.
Minha mãe está se sentindo culpada. Está errada, porque eu tive a mesma educação de meu irmão, nasci da mesma barriga, passei as mesmas necessidades, tive as mesmas alegrias, e não uso drogas. Os pais se culpam demais pela educação que deram aos filhos, perguntam sempre onde erraram. Chega um momento em que o filho resolve, e os pais não podem fazer mais nada. É uma decisão dele.”

UM DOENTE – “As pessoas que usam drogas precisam de apoio, de carinho, de compreensão, precisam de cuidados especiais, como um doente. Não precisam de cadeia, nem de policia. Quem precisa de cadeia são os traficantes. Eu vi meu irmão, ele se arrependia muitas vezes. A vida dele foi sempre uma tentativa. Saía em busca de uma coisa que não achava. Era um dependência química.
Eu acho que essa dependência precisa acabar, mas isso não se consegue com alguém que usa droga há dez anos. É precisa começar quando o menino tem 11, 12 anos. Nessa idade, os pais ainda podem muito, e podem mudar.
Não podem fazer de conta que não estão vendo nada.
É lamentável depender de alguma droga para viver, seja ela o cigarro, a bebida. Acho que o álcool é uma droga que leva a outros. As garrafas deveriam trazer um aviso, alertando para os riscos.”

O FUTURO – “Se eu pudesse implodiria a casa da Lapa onde todos nós nascemos, e começaria tudo de novo. Falo isso pensando em minha mãe. Chega um momento na vida que você precisa virar a pagina. Precisa dizer: quero ser feliz. Minha avó existe uma vida depois desta, mas eu gostaria que o Beto estivesse fazendo uma grande festa lá em cima, vendo a reforma que vamos fazer na casa da Lapa.
Algumas coisas do Beto nós decidimos guardar como lembrança, outras vamos das aos amigos. Ele tem mais de mil bonés, 500 bandeiras do Palmeiras. Pena que seus amigos mais próximos também tenham morrido.”

Adriane Galisteu e o irmão Roberto




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