Vida de modelo é assim - testes, aeróbica, testes,
musculação, testes, alguns convites que podem ser aceitos, mais testes,
propostas que devem ser recusadas, testes... Eis que, lá, perdida numa página
qualquer de minha agenda, escondida no emaranhado de coisas a fazer, contas a
pagar, telefonemas a dar, está rabiscada, sem destaque, aquela anotação que
iria mudar o rumo de minha vida:
"15 de março - Teste na Elite. Quatro da tarde".
Pode ser que vocês não acreditem em destino. Mas vão
perceber que eu tenho de acreditar - ainda que esse destino possa vir a ser, de
repente, cruel, muito cruel.
Na verdade, eu quase não fui ao encontro dele, o destino.
Quando Karen, a booker da minha agência, me ligou, alguns dias antes, eu quis
recusar. Ela me explicou: recepcionista no Grande Prêmio Brasil, "uma
grana bem legal". Mas, sinceramente, aquela palavra - recepcionista - não
me soou bem. Não que eu já não tivesse feito trabalho desse tipo, não é isso.
Nada de preconceito. É que eu estava vivendo um ótimo momento profissional - e
me sentia em condições de escolher o meu trabalho. De mais a mais, não
tinha a menor intimidade com a Fórmula 1. Achava que era um mundo fechado,
masculino demais. Jamais trocaria o cheiro de meu perfume Roma, da Laura
Biaggiot, pelo da gasolina.
Automobilismo, até aquele dia, era tão distante de mim quanto
rúgbi ou beisebol. Tinha visto uma única prova, ao vivo - em 1989, no Estoril,
em Portugal, mais por farra, com um grupo de amigos, aproveitando a folga numa
bateria de fotos de moda. Na televisão, não tinha muita paciência: via a
largada, as primeiras voltas e, dependendo do resultado, as últimas. Eu estaria
mentindo se dissesse que era uma fã de Ayrton Senna. Nunca fui fã de ninguém.
As meninas da minha rua lambiam o asfalto pelos Menudos, por exemplo. Eu, não -
ao contrário de minha avó húngara, que torcia pelo Ayrton e não perdia jogo do
Palmeiras na tevê, nunca entrei nessa de ter ídolo. Na Fórmula 1, confesso que
no máximo tinha certa simpatia pelo Nigel Mansell - quer dizer, por ele ser um
cara engraçado, meio maluco e trapalhão. Adorava quando ele se metia em alguma
briga com aquele nosso garoto Senna. Aliás, Mansell ganhou em Estoril naquele
ano e eu vibrei.
Voltando a março de 1993. Karen insistiu muito para que eu
aceitasse o convite da Shell. Seriam só dez modelos, meninas bonitas e
conhecidas, para ficarem na sala vip, sem essa de desfilar pelas arquibancadas,
sem confraternização com a galera, coisa séria. Citou o nome de duas ou
três que eu conhecia - a Nara Pinto, a Patrícia Teixeira, a Laura Gutierrez...
Tudo bem, vamos ver como é. Nem perguntei pelo dinheiro.
Na hora marcada, mais uma tramóia do destino: tinha de
vestir maiô. Ameacei uma meia-volta: "Estou fora".
Mas os três diretores da Shell que estavam lá imploraram:
"Não é o que você está pensando..:" O uniforme da prova era curtinho,
só isso. Perguntei sobre o que teria de fazer no Autódromo de Interlagos, eles
me perguntaram sobre minha carreira - e, sem mais, um deles me surpreendeu:
- Você está aprovada.
Jo Ramirez, Adriane Galisteu, a segunda da direita e as outras recepcionistas da Shell
Mil dólares por quatro dias de trabalho, de quinta a
domingo, era tudo o que eu esperava ganhar, naquele fim de semana de GP Brasil.
Jamais passou pela minha cabeça que eu iria ganhar o amor de minha vida.
Quinta-feira, 18 de março, coletiva de imprensa com os
pilotos da McLaren, que a Shell patrocinava. Eu fora - tinha agendado um
trabalho anterior. Mas, às seis da manhã de sexta, lá estava eu, a bordo
de um táxi e de muitos bocejos, a caminho da Elite, ponto de encontro para
Interlagos. No autódromo, tivemos um mobral rapidinho de Fórmula 1. Para que
nós, modelos, não ficássemos ali apenas com nossos rostinhos - e corpinhos -
bonitos, eles nos introduziram na linguagem do circo: cockpit, pitwalk,
pitlane...


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