-Vou preparar o jantar para ele. O combinado é buscá-lo às
20h30 no aeroporto, não foi isso, Luís?
Luís, amigo da casa e do Béco, não respondia. Juraci, a
caseira do Algarve, entrou em delírio. Lágrimas grossas rolavam do seu rosto,
palavras confusas enrolavam-se na língua áspera de quem tinha tomado algum
medicamento forte, mas seu desespero não batia com o que ela falava, meio
desconjuntado:
- Sei que o Béco vem pro jantar, não vem? Tínhamos combinado
aquela galinha grelhada, com legumes no vapor... Você fez a sobremesa de nata,
não fez, Dri? O meu menino, o meu menino...
Eu, logo eu, fraquinha como estava, me irritei com aquilo:
- Ele não vem, não, Juraci. O Béco está morto.
- Luís, fala a verdade pra mim - ela o sacudia. - Ele não
morreu, morreu?
Sei lá o que o Luís fez para convencer a Juraci. Como todas
as pessoas que trabalhavam para o Ayrton, a caseira do Algarve também o tratava
como um filho. Aquilo que ela exprimia era uma autêntica aflição de mãe.

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