De minha parte, entreguei os pontos: estiquei-me na cama e
fiquei horas ali, entorpecida, sem nenhuma reação. Luiza achava melhor desistir
de Bolonha, irmos juntas para a casa dela em Sintra. Entre um telefonema e
outro para o Braga, que velava o herói morto, ela me deu um tempinho para me
refazer. Pedi ajuda a Clara, uma amiga da família, a decoradora daquela bela
casa do Algarve que eu não veria mais - e o que eu pedia a Clara, naquele
momento, já tinha o som de um adeus.
- Junta o que eu trouxe do Brasil. A malona, tudo.
Os três volumes que eu tinha acabado de desfazer menos de 24
horas antes, com toda uma equipagem para passar cinco meses de temporada
européia ao lado dele. A temporada acabou antes de começar.
Mais um favorzinho, pedi: atrás da porta do banheiro nosso,
tem lá um short e uma sweat shirt dele, que eu tinha usado naquela manhã,
enquanto corria. Naqueles dias em São Paulo, percebi que seria capaz de
acompanhar o Béco na sua corrida matinal em torno do condomínio do Algarve. Um
progresso e tanto. Calção Sweater ainda estavam suarentos. Queria levá-los
comigo. A Clara sentiu que a hora era de despedida: - Mais nada de lembrança? -
perguntou.
Tinha, sim: uma visita solitária ao gramado, à piscina, à
Lua, ao silêncio da rua, ao escritório onde o fax emudecera, às fotos dele, aos
troféus de uma carreira brusca e incompreensivelmente interrompida. Vi o som,
tremendo aparelho que ele trouxe da Suíça. Por curiosidade, quis saber qual
teria sido o último CD que ele ouviu na vida. Phil Collins - tudo a ver. Isso,
eu tinha direito de partilhar com ele. Guardei o CD. Caminhei, com minhas
lágrimas, em torno da casa.


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