Pela tela de uma tevê, eu experimentei a irrealidade da
perda brusca de meu príncipe encantado, de meu amor, da razão de minha vida.
Dos abismos de minha precária consciência, eu tentava me apegar a qualquer
coisa que fosse, para escapar à impressão de estar vivendo um pesadelo.
Insisti: queria ir a Bolonha. Aquilo mesmo que eu buscava em vida, queria agora
na morte: o toque nos pêlos do peito, os pés, o rosto, a máscara fria da morte.
Só vendo, para acreditar. Essa idéia de pluft, tchau, não me conformava.
- Estou indo,
Braga - eu implorava àquele que tinha sido o paizão do Ayrton e, agora, tinha
de manter a frieza para zelar da triste realidade da burocracia, da papelada,
da autópsia, do embarque do corpo.
- Não vem. Ninguém
entra na morgue - ele desconversava. - Tem cinco mil pessoas se acotovelando lá
fora. Soube depois que Joseph, o fiel massagista do Ayrton, entrou. Que Gerhard
Berger, o parceiro definitivo, também. Celso, diretor do escritório em São
Paulo, assinou o reconhecimento. Leonardo, não - alguém lhe sugeriu que o rosto
do irmão estava deformado demais pela batida. De fato, num telefonema
posterior, o Syd Walkins, médico de plantão da Fórmula 1, contou que Senna não
tinha como sobreviver quando ele lhe retirou o capacete, ainda na pista de
ímola. O sangue esguichou. Perdeu quatro litros de sangue na pista. A
traqueotomia feita ainda no asfalto era uma desesperada tentativa de fazê-lo
respirar, engasgado em sua própria massa encefálica. Massagem cardíaca, tudo
isso era jogo de cena. Só um idiota poderia acreditar na chance de ele estar
vivo. Senna morreu na pista. Mas o circo não podia parar.
Pode parecer mórbido, mas fiquei sabendo que um fotógrafo da
revista italiana AutoSprint estava na curva do acidente e fizera a foto do
campeão em seu frio repouso. Liguei de Portugal para a revista. Apresentei-me:
era a namorada do Ayrton, queria uma cópia da foto. Na minha aflição extrema,
exigia o único atestado concreto de sua morte. O resto era a fumaça de um
pesadelo que me perseguia.
Estava às portas da loucura. Não acreditava em nada, não via
nada, não sentia nada. Devo a Luiza o meu precário mas salvador vínculo com a
lucidez, naquele acolhimento amoroso e solidário de Sintra.
Hoje, dispenso o testemunho medonho da foto. Tenho ao meu
redor, ainda em Sintra, o rosto puro, inteiro e singelo do meu herói, reproduzido
em dezenas de fotos e pôsteres.


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