Todos aqueles dias tentei
desesperadamente estar junto da Zaza, mãe, do seu Milton, o pai, dos irmãos,
Viviane e Léo. Ligava para a família. A empregada da fazenda atendia:
- Dona Neide, como está? - perguntava eu, com certa formalidade.
- Ela foi medicada, está deitada - resumia a Ednéia.
- E o senhor Milton?
- Também medicado e dormindo.
Liguei várias vezes, sempre era a mesma coisa. Queria estar
próxima, fosse como fosse. Impossível. Até que um dia perguntei:
- E quem mais está aí?
- O Cristiano e o Jacir.
Dois amigos do Ayrton (Jacir era o Gordinho, como o
chamavam; Cristiano tinha o apelido de Criminoso, por causa de um acidente em
Angra, brincadeira deles). Dois amigos nossos, pensei.
- Deixa eu falar com eles - pedi.
- Eles não estão aqui agora.
- Pede então para eles me ligarem, no Braga, em Portugal
- falei, com naturalidade.
Nada, nenhum telefonema, silêncio total. Comecei a
estranhar: talvez eu seja uma lembrança muito viva do Ayrton, uma imagem fortemente
ligada à dele, eles queiram evitar.
Luiza me desencorajava:
- Pára de ligar pra lá, Adriane.
No dia seguinte, ainda tentei o Lalli (Flávio Lalli, marido
da Viviane). Deixei recado. Ele me ligou.
- Como está todo mundo, Lalli? - perguntei, inocentemente.
- Pô, Adriane, como está todo mundo?! Todo mundo está
um horror!
Ele estava nervoso, agitado, mas eu insisti:
- Fala qualquer coisa. Da Zaza, do senhor Milton, da
Viviane... Qualquer coisa...
Ele me contou que a situação estava difícil, mesmo para ele,
impossível estabelecer qualquer conversa com os pais.
Totalmente por impulso, eu me decidi:
- Já sei. Vou para aí já, ficar com eles.
Lalli foi reticente:
- A gente não sabe ainda o que fazer. Talvez leve a Zaza
e o senhor Milton de volta para a fazenda, talvez não...
No dia seguinte, quarta-feira, passei a ligar para a fazenda
de Tatuí. Estavam todos lá. E a mesma história: medicados, sedados, ninguém
podia atender.

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