Flashback de uma conversa nossa, antiga e eu diria mesmo
rara, a respeito do perigo numa corrida:
- Dri, quando eu vou bater o carro, eu sei que vou bater -
Béco me disse uma vez. - Não fico cego. Tem piloto que diz que apaga tudo,
mas eu sinto o que vai acontecer.
Ele deve ter assistido, portanto, com aquela sua clareza de
mente, à cena final. Pensei: queria ser um neurônio dele para compartilhar esse
fio de consciência, sentir o que se passou, na cabeça dele naquele minúsculo
momento. Queria estar com ele não apenas naquela hora, queria estar com ele -
só isso. Pensei em morrer. Queria que me matassem. Perdi completamente o medo
da morte. Aproximava-me daquelas ameias que separam o gramado da quinta do
Braga das pedras do abismo, lá embaixo, e pensava em me atirar. Não me
conformava: não, ele não. Ele tinha 34 anos, era inteligente, vitorioso, um
coração desse tamanho, um ser humano daquele jeito... Por que não eu?
Passaram-se quatro meses, daquele dia a este aqui, em que registro minhas
memórias, e não me sinto bem em lugar algum. Disfarço, tento reagir. Mas tudo
foi por água abaixo. Não quero tirar de ninguém, da família, dos amigos, dos fãs,
o direito à dor. Mas o que perdi era o que eu tinha de mais importante na
minha vida. Não é pouco.

Inevitável não pensar em morte nesse momento, mas acho que isso foi muito mais uma busca de Galisteu pela alma do amado, um devaneio, uma reação de choque sem o devido raciocínio!
ResponderExcluirDisse tudo, realmente foi isso.
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