terça-feira, 4 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - Adriane Galisteu Pensa em Se Matar


Flashback de uma conversa nossa, antiga e eu diria mesmo rara, a respeito do perigo numa corrida:
- Dri, quando eu vou bater o carro, eu sei que vou bater  - Béco me disse uma vez. - Não fico cego. Tem piloto que diz que apaga tudo, mas eu sinto o que vai acontecer.
Ele deve ter assistido, portanto, com aquela sua clareza de mente, à cena final. Pensei: queria ser um neurônio dele para compartilhar esse fio de consciência, sentir o que se passou, na cabeça dele naquele minúsculo momento. Queria estar com ele não apenas naquela hora, queria estar com ele - só isso. Pensei em morrer. Queria que me matassem. Perdi completamente o medo da morte. Aproximava-me daquelas ameias que separam o gramado da quinta do Braga das pedras do abismo, lá embaixo, e pensava em me atirar. Não me conformava: não, ele não. Ele tinha 34 anos, era inteligente, vitorioso, um coração desse tamanho, um ser humano daquele jeito... Por que não eu? Passaram-se quatro meses, daquele dia a este aqui, em que registro minhas memórias, e não me sinto bem em lugar algum. Disfarço, tento reagir. Mas tudo foi por água abaixo. Não quero tirar de ninguém, da família, dos amigos, dos fãs, o direito à dor. Mas o que perdi era o que eu  tinha de mais importante na minha vida. Não é pouco.



2 comentários:

  1. Inevitável não pensar em morte nesse momento, mas acho que isso foi muito mais uma busca de Galisteu pela alma do amado, um devaneio, uma reação de choque sem o devido raciocínio!

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