Não me esqueci, ao final, de fazer um pedido a Miriam Dutra,
correspondente da TV Globo:
- Me mande todas as fitas, todos os vídeos que você tiver
sobre o acidente.
Mandou na terça-feira, depois de mais uma noite em que
só tive insônia, pânico e recordações. Eu me debrucei no sofá e vi, revi, parei
quadro a quadro, fiz slow motion, usei todos os recursos do telão em busca de
uma única expressão do rosto do Ayrton, naquela fração de segundo da
escapada e do choque. Fita por fita, detalhe por detalhe. Quinhentas vezes, e
nada para explicar.
Ele teve tempo de pensar?
De início, minha impressão era de que ele tinha virado
contra a curva - como se fosse bater de propósito. Não podia ser. Luiza e
Joana, a filha dela, eventualmente me acompanhavam na minha investigação
obcecada. Não via sinal de breque, nem de derrapagem (a resposta estava na
caixa preta do Williams, analisada depois: ele tirou completamente o pé do
acelerador, a direção estava virada no sentido contrário, de quem tentava
desesperadamente desviar do muro, e ele pisou no freio no ponto máximo, 4G,
como dizem os experts). Queria saber, naqueles quatro dias posteriores que
pareceram quatro anos: foi falha do carro ou o piloto forçou a barra?
Queria me conscientizar, embora não houvesse nada a fazer.

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