Béco tinha pânico das brincadeiras de Berger. Sistemático
que só ele, Ayrton não largava uma pasta tipo agente 007 em que guardava suas
pequenas preciosidades, tipo agenda, passaporte, caneta, uma mini-nécessaire,
um suéter e um exemplar da Bíblia. A fé de Ayrton era uma crença íntima, não
uma exibição pública, mas a leitura dos salmos e dos versículos sagrados era um
hábito de todas as noites, um relax espiritual para facilitar um sono que,
antes das corridas, quase sempre custava a chegar.
À melhor história
com Berger, eu não assisti. Mas conheço bem. Os dois deixavam, de helicóptero,
o Hotel Villa d'Este, às margens do deslumbrante lago de Como, antes de um GP
em Monza. O Ayrton com sua indefectível pastinha, o Berger simulando um certo
interesse pela paisagem. Ayrton se distraiu, o austríaco lhe arrancou a
pasta da mão, abriu a porta do helicóptero já em movimento e arremessou o
precioso objeto para as águas do lago. Errou por pouco: a pasta 007 esborrachou
no gramado, quase no lago.
Ayrton guardou a vingança na geladeira. Esperou até o GP da
Austrália. Nesse dia, quem dividia o quarto com ele era seu primo Fábio
Machado. A dupla surrupiou da camareira uma chave mestra, invadiu o quarto de
Berger e de Ana, a simpática portuguesinha que é namorada dele há muito tempo,
derrubou na banheira as roupas dos dois, encheu de água até em cima, entornou
xampu, enfeitou o ventilador de pás com peças íntimas do casal e sumiu, antes
que Ana e Berger reaparecessem.
Berger pode ser louco mas não é idiota. E Ayrton e Fábio não
duvidavam de que vinha troco a caminho. Aparentemente, não veio. Os quatro
tinham combinado de jantar naquela noite. Ayrton e Fábio trocaram um
olhar cúmplice quando viram que tanto Berger quanto Ana, não por acaso, vestiam
as mesmas roupas da tarde. Ficaram firmes. O jantar transcorreu sem uma queixa,
um pio sobre roupa, banheira, quarto - nada, nada. Ficaram elas por elas,
imaginou Ayrton.
Dias depois, passada a prova, Ayrton desembarca a negócios
em Buenos Aires. Não havia lugar no mundo em que um porteiro, um
motorista, um policial não o reconhecesse e não lhe manifestasse seu entusiasmo
- além do tradicional pedido de autógrafo, é claro. Surpresa: o guarda da
imigração Argentina fecha a cara, irritado, pede licença e tranca-se numa sala,
com outros oficiais. Demorada conferência. Volta um senhor severo, visivelmente
mais graduado:
- Temos todo o respeito pelo señor Ayrton Senna - começou
o oficial. - Pero hay un problemita.
O passaporte. Constrangimento. Passou-lhe o documento. No
lugar em que deveria estar aquela foto 5 x 7, colorida e, se possível, sorridente,
estava uma donzela nua, sem um só trapinho a vesti-la e, pior, em posição
ginecológica.
- Berger... Berger... - espumou Senna. Desfazendo-se
em desculpas, o piloto brasileiro explicou às autoridades argentinas que aquela
grosseira colagem era vingança de "um austríaco maluco".
Nossa convivência com Berger era íntima e social. Aliás, se
havia alguma coisa que Ayrton sabia separar era a relação gostosa que rolava
num jantar, numa viagem ou num passeio e uma conversa embebida em
gasolina e cheia de palavrões técnicos que o Senna - aí, sim, o Senna - tinha
de ter, às vezes, com um ou outro parceiro de pista.

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