sexta-feira, 7 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - As brincadeiras de Berger e Senna


Béco tinha pânico das brincadeiras de Berger. Sistemático que só ele, Ayrton não largava uma pasta tipo agente 007 em que guardava suas pequenas preciosidades, tipo agenda, passaporte, caneta, uma mini-nécessaire, um suéter e um exemplar da Bíblia. A fé de Ayrton era uma crença íntima, não uma exibição pública, mas a leitura dos salmos e dos versículos sagrados era um hábito de todas as noites, um relax espiritual para facilitar um sono que, antes das corridas, quase sempre custava a chegar.
   À melhor história com Berger, eu não assisti. Mas conheço bem. Os dois deixavam, de helicóptero, o Hotel Villa d'Este, às margens do deslumbrante lago de Como, antes de um GP em Monza. O Ayrton com sua indefectível pastinha, o Berger simulando um certo interesse pela paisagem. Ayrton se distraiu, o austríaco lhe arrancou  a pasta da mão, abriu a porta do helicóptero já em movimento e arremessou o precioso objeto para as águas do lago. Errou por pouco: a pasta 007 esborrachou no gramado,  quase no lago.
Ayrton guardou a vingança na geladeira. Esperou até o GP da Austrália. Nesse dia, quem dividia o quarto com ele era seu primo Fábio Machado. A dupla surrupiou da camareira uma chave mestra, invadiu o quarto de Berger e de Ana, a simpática portuguesinha que é namorada dele há muito tempo, derrubou na banheira as roupas dos dois, encheu de água até em cima, entornou xampu, enfeitou o ventilador de pás com peças íntimas do casal e sumiu, antes que Ana e Berger reaparecessem.
Berger pode ser louco mas não é idiota. E Ayrton e Fábio não duvidavam de que vinha troco a caminho. Aparentemente, não veio. Os quatro tinham combinado de jantar  naquela noite. Ayrton e Fábio trocaram um olhar cúmplice quando viram que tanto Berger quanto Ana, não por acaso, vestiam as mesmas roupas da tarde. Ficaram firmes. O jantar transcorreu sem uma queixa, um pio sobre  roupa, banheira, quarto - nada, nada. Ficaram elas por elas, imaginou Ayrton.
Dias depois, passada a prova, Ayrton desembarca a negócios em Buenos Aires. Não havia lugar no mundo em  que um porteiro, um motorista, um policial não o reconhecesse e não lhe manifestasse seu entusiasmo - além do  tradicional pedido de autógrafo, é claro. Surpresa: o guarda da imigração Argentina fecha a cara, irritado, pede licença e tranca-se numa sala, com outros oficiais. Demorada conferência. Volta um senhor severo, visivelmente mais graduado:
- Temos todo o respeito pelo señor Ayrton Senna -  começou o oficial. - Pero hay un problemita.
O passaporte. Constrangimento. Passou-lhe o documento. No lugar em que deveria estar aquela foto 5 x 7, colorida e, se possível, sorridente, estava uma donzela nua, sem um só trapinho a vesti-la e, pior, em posição ginecológica.
- Berger... Berger... - espumou Senna.  Desfazendo-se em desculpas, o piloto brasileiro explicou às autoridades argentinas que aquela grosseira colagem era vingança de "um austríaco maluco".
Nossa convivência com Berger era íntima e social. Aliás, se havia alguma coisa que Ayrton sabia separar era a relação gostosa que rolava num jantar, numa viagem ou  num passeio e uma conversa embebida em gasolina e cheia de palavrões técnicos que o Senna - aí, sim, o Senna -  tinha de ter, às vezes, com um ou outro parceiro de pista.


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