quinta-feira, 6 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - Ayrton Senna tenta beijar Adriane Galisteu


O tempo ali não significava jamais um desperdício - era uma soma. Sol, mar, carinho. Eu senti que a cada minuto a temperatura entre nós crescia. Entre nós, quer dizer: confesso que também começava a gostar daquilo. Desceu a noite, comemos rapidamente e mais um sarau de dança, vídeo e jogos ia começar. Eu, toda relax, me vi sentada num sofá, tomando a invariável Coca-Cola e vendo e ouvindo o Genesis no telão. O Genesis era uma das bandas favoritas dele; a Coca-Cola era o meu hit do coração. Ele acabaria por me converter, mais tarde, ao credo musical dele; eu não consegui convertê-lo a minha bebidinha.
(Naquela época, eu era do tipo connaisseur. Degustava Coca-Cola como se fosse um vinho raro e precioso, ao natural, às vezes sem gelo, para não comprometer o paladar. Coca coca, coca clássica - nada de diet, essas coisas. No almoço, um litro; à noite, outro; e mais uma latinha aqui, no lanche, outra antes de deitar... Ele conseguiu curar essa minha obsessão. Um dia, me perguntou, meio enciumado: "É disso que você mais gosta na vida, não é?" Eu lhe confessei que tinha outra coisa da qual eu gostava mais. E desde então passei a chamá-lo de Big Coke.)
Eu ali, com minha Coca-Cola, e ele se achegando. "Gosto muito do Genesis" - como quem puxa conversa. Em tudo da vida, em música também, ele gostava de umas poucas coisas. Mas de todo coração. Genesis, Phil Collins, Roxette, Tina Turner, Fred Mercury. "E você?" - perguntou. Eu estava embevecida com o telão e com a música.
Nunca tinha visto um videolaser. "Bonito, bonito", repetia eu, meio idiota. Muitos dos convidados estavam fora da sala - ou passeando, ou na piscina -, o que permitia uma certa intimidade, com aquela música ao fundo.
   Ele se sentou a meu lado. Um brilho iluminava seu rosto bronzeado e seu sorriso adolescente. Senti pela primeira vez o calor de uma aproximação - real, espontânea. Ele tinha a óbvia dificuldade em dar o primeiro passo. Eu, mesmo querendo muito, nunca dou o primeiro passo. Mas entre nós havia algo mais: uma conversa longa, um olhar, um toque. Ele tentou me beijar. Eu me esquivei - bateu na trave. Fomos salvos, os dois, em nossa timidez, pela chegada da galera ruidosa e alvoroçada.


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