Nuno tinha sido testemunha de um momento em que Senna esteve
por um fio: a espetacular seqüência de capotagens no GP do México, na
perigosíssima curva da Peraltada, em que o McLaren acabou emborcado na
proteção de brita, Ayrton também de cabeça para baixo. Levantou-se, tirou
a poeira do macacão e fingiu que nada tinha acontecido. O intelectual
disfarçado em preparador físico, que em dez anos fez de um Ayrton Senna
menino raquítico um homem de músculo e postura rijos, ouviu Nigel Mansell,
que vinha na cola de Ayrton naquele dia, comentar:
- O cara deu cinco piruetas no ar, mais cinco na terra. Só
um milagre explica.
Lembre-se de que Mansell não era dos espíritos mais
esclarecidos da terra. Mas, por tudo e por todas, se havia alguém por
perto que conhecia as fronteiras do perigo, esse alguém era o próprio Ayrton.
O assunto, aliás, tirava seu humor. Certa noite, no restaurante Rodeio, contrariando
o seu hábito de não comer carne vermelha e de dormir cedo, ele, eu e um grande
amigo, o Marquinhos Magalhães Pinto, caímos na armadilha de sentar perto de uma
daquelas mesas só de homens já devidamente alterados pela bebida. O ritual do
reconhecimento era ameno: olhares tímidos, sussurros, de vez em quando a
ousadia de um aceno de cabeça e só depois o autógrafo. Mas, nessa noite, um
deles exagerou:
- Pô, cara, trezentos quilômetros por hora! Você não sabe
que pode morrer?
Sorriso amarelo o dele. Mas o sujeito estava naquele
meio-termo entre o alma-de-ouro e o chato-meloso:
- Pára com isso, Ayrton! A gente o adora. Você é um cara
maravilhoso, um triatleta. Pára de se expor, pára.... Fórmula 1 é uma máquina
mortífera.
O maitre previu o desfecho, mas foi tarde. Béco, de pé, se
indignava:
- Mas isso é assunto para falar aqui? Me respeite, por
favor. Estou jantando...
A morte era um assunto que ele guardava no segredo de seu
cofre íntimo. A morte era a fatalidade, o erro, o acidente, o gratuito - estou
hoje convencida de que, na cabeça dele, não tinha nada a ver, por exemplo, com
o desempenho e a velocidade.

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