Passamos por poucas e boas, em Angra, naquele helicóptero
que ele guiava meio amalucado. Uma vez, foi a porta do meu lado, co-piloto, que
abriu, bem na hora em que passávamos entre os dois cocorutos dos morros que
formam a cidade. Ventou, o helicóptero deu de banda, ele gritava "fecha,
fecha", eu puxava, mas a porta resistia ao vento. Ele me ajudou e pousamos
em Portogallo empapados de suor. Pior ainda foi aquele sábado em que ele
absolutamente tinha de voltar a São Paulo e as nuvens negras desceram sobre o
litoral como naquelas tardes de outras tragédias ilustres.
Soube depois que
ele consultou seu piloto em São Paulo:
- Não vem que não
dá - aconselhou nosso bom Nelson.
- Mas tenho de ir.
E foi. Pior: comigo. Não se enxergavam cinco metros à frente
da perigosa serra do Mar, entre Parati, Ubatuba e Caraguatatuba. Nuvens
espessas e negras. Ele por assim dizer engatou uma primeira - jogou tudo. Se
passasse, ótimo: se não passasse, a ver. O helicóptero ganhou altitude, ganhou
altitude, foi subindo até que clac, um estranho barulho e um mergulho para
baixo. Ele ficou lívido. Agarrou-se no controle e trouxe o aparelho até muito
perto do mar, enquanto eu, sem tempo sequer de invocar minha santa
padroeira, só lembrava, em silêncio, daquele acidente recente:
- Ulysses, não. Ulysses, não.
Ele disfarçou bem. Voando baixo, explorou as brechas
desenhadas entre as nuvens e acabou atravessando, sem sobressalto, em direção a
São Paulo, porto seguro. Desligou as hélices e teve a reação mais natural de
quem tinha passado por um aperto daqueles:
- Me espera aqui que vou fazer pipi.
Na verdade, o campeão quase tinha feito nas calças. Eu
também.


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