quarta-feira, 5 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - As aventuras de Ayrton e Adriane no helicotéro


Passamos por poucas e boas, em Angra, naquele helicóptero que ele guiava meio amalucado. Uma vez, foi a porta do meu lado, co-piloto, que abriu, bem na hora em que passávamos entre os dois cocorutos dos morros que formam a cidade. Ventou, o helicóptero deu de banda, ele gritava "fecha, fecha", eu puxava, mas a porta resistia ao vento. Ele me ajudou e pousamos em Portogallo empapados de suor. Pior ainda foi aquele sábado em que ele absolutamente tinha de voltar a São Paulo e as nuvens negras desceram sobre o litoral como naquelas tardes de outras tragédias ilustres.
   Soube depois que ele consultou seu piloto em São Paulo:
   - Não vem que não dá - aconselhou nosso bom Nelson.
- Mas tenho de ir.
E foi. Pior: comigo. Não se enxergavam cinco metros à frente da perigosa serra do Mar, entre Parati, Ubatuba e Caraguatatuba. Nuvens espessas e negras. Ele por assim dizer engatou uma primeira - jogou tudo. Se passasse, ótimo: se não passasse, a ver. O helicóptero ganhou altitude, ganhou altitude, foi subindo até que clac, um estranho barulho e um mergulho para baixo. Ele ficou lívido. Agarrou-se no controle e trouxe o aparelho até muito perto do mar, enquanto eu, sem tempo sequer de invocar minha santa padroeira, só lembrava, em silêncio, daquele acidente recente:
- Ulysses, não. Ulysses, não.
Ele disfarçou bem. Voando baixo, explorou as brechas desenhadas entre as nuvens e acabou atravessando, sem sobressalto, em direção a São Paulo, porto seguro. Desligou as hélices e teve a reação mais natural de quem tinha passado por um aperto daqueles:
- Me espera aqui que vou fazer pipi.
Na verdade, o campeão quase tinha feito nas calças. Eu também.




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