sexta-feira, 7 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - Os amigos e desafetos de Ayrton Senna na F1


Thierry e Patricia Boutsen também eram do time dos nossos amigos do peito. Sem esquecer o Kevin, filho deles, que deve ter hoje uns 5 anos. Uns encantos - foram hóspedes nossos em Angra e no Algarve. Marido e mulher tinham um preparo excepcional, a ponto de acompanharem o Ayrton naquela sua corrida diária em volta do condomínio da Quinta do Lago, em Portugal. Uma hora e meia, duas horas - os dois pilotos e ela. Eu, sob vaias gerais, os acompanhava. De bicicleta.
Um dia, prometi ao Béco que ainda iria cumprir com ele todo aquele longo e cansativo percurso. Treinei como uma louca, às sete da manhã, todos os dias, no Ibirapuera, entre março e abril de 1993. Nuno Cobra, preparador do Ayrton, me assessorava. Eu ia lhe fazer uma surpresa, no dia em que ele voltasse de Ímola para a casa do Algarve. Fiquei lhe devendo essa.

 Damon Hill, Michael Andretti - que durou pouco na Fórmula 1. Para eles também Ayrton tinha palavras de amizade. Até onde eu saiba, pelo alemão Michael Schumacher ele mantinha, de início, só indiferença. Por uma única vez, recordo-me, estivemos lado a lado, Ayrton, eu, Schumacher e a mulher dele, uma alemã loira e bonita. Num show da Tina Turner - outra paixão do Béco -, na Austrália, logo depois do GP de Adelaide, em 1993. Trocamos uma apresentação rápida e meia dúzia de palavras. Não havia intimidade possível com um sujeito que passou um show trepidante como quem estivesse assistindo a um concerto de câmera em Salzburgo. Na temporada de 1994, quando o Benetton de Schumacher começou a dar um suor no Williams de Senna, nem assim Ayrton falava dele. Preocupava-o apenas o desempenho de sua própria máquina, e ponto final. Jamais se importou com aquele que chamava, secamente, de "o alemão" ou, ao pé da letra, "o sapateiro".
Alain Prost, sim, era uma pedra no sapato, ou na sapatilha. A crônica de seus duelos com Ayrton nas pistas vai permanecer na história do automobilismo. De parte a parte, ficaram ressentimentos, queixas, acusações de jogo sujo - e Senna, que odiava perder, teve de amargar o tetracampeonato do rival logo naquela temporada em que vivi intensamente ao seu lado. Com Prost, chegou a ser uma relação de tipo mudar de calçada, quando um via o outro. Mesas distantes em restaurantes, nos anos  negros da hostilidade. Até os garçons tremiam. Mas o tempo foi curando as feridas. Num magnífico restaurante em que jantávamos em Milão, setembro de 1993, antes do GP de Monza, com o Braga, o tio Papagaio, aliás, Galvão Bueno, e esposa, a tenista Monica Selles e a mãe, o Julian Jakobi e sua adorável mulher, Fiona, de repente  Prost em pessoa veio a nossa mesa. Ayrton gelou, mas o pior já tinha passado. Prost estava, isso sim, mais à vontade: afinal, naquele ano o campeão foi ele, não o seu eterno rival.
Meu sexto sentido indica, porém, que a rivalidade dos dois tinha o tempero de um enorme respeito. Haviam dividido, não sem algumas farpas, o mesmo boxe, o mesmo  team, o mesmo staff da McLaren por dois anos. Alain Prost era alguém - quando "o francês" vinha à baila, numa conversa entre amigos, uma certa cerimônia se impunha, a não ser quando Ayrton queria gozar a incompatibilidade dele com as chuvas e pistas molhadas. Prost desafiava Senna, Senna desafiava Prost, e foi essa estimulante competição, interrompida na temporada de 1994 com a aposentadoria do francês, que produziu aquele diálogo entre os dois, incrível, às vésperas do desastre de Imola. Quem assistiu ao abraço, como o Braguinha, custou a acreditar. Senna foi além:
- Estou sentindo a sua falta - disse ele a Prost, em inglês.
A parte francesa dessa linda reconciliação entre as duas feras se traduziu no choro sincero de Alain Prost, diante do esquife do ex-rival. Falou-me, após o funeral, que ele também tinha morrido um pouco, junto com Ayrton Senna. Parecia meio deslocado naquele ambiente soturno e distante do Cemitério do Morumbi. Com a mão no meu braço, disse um comovido "conte comigo".
Houve um adversário de verdade na vida e na carreira de Ayrton Senna. Não se pode esperar palavras de rancor e ódio de quem lia a Bíblia como ele, mas acontecem situações de saia-justa que dizem tudo. Às vésperas do Grande Prêmio no Estoril, fomos num grupo grande experimentar aquela maravilha da cozinha portuguesa que é  o restaurante Porto Santa Maria, na praia do Guincho, diante daquelas escarpas do cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa. Coisa dos deuses. Encomendado com antecedência pelo nosso anfitrião, o Braga, um linguado ao forno, cozido dentro de uma casca de sal grosso.
Chegamos e o maitrê nos levou a uma mesa voltada para aquele mar e para aquele horizonte de onde, séculos atrás, uns malucos portugueses, a bordo de casquinhas tão frágeis quanto os carros de Fórmula 1, foram descobrir novos mundos. De repente, o Ayrton, sempre ligadíssimo, parou:
- Aqui, não. Vamos para outra mesa, bem longe. Fincou pé, os outros convidados perplexos. Mas me sussurrou ao ouvido:
- O indivíduo está aí.
A palavra, aqui entre nós, não foi propriamente indivíduo. Imaginei que era o Prost. Nada disso: o indivíduo atendia pelo nome de Nelson Piquet. Aí a coisa ficava de fato feia. É inútil voltar a esse assunto, depois do que se passou. Mas o silêncio de Piquet, no dia do enterro, foi significativo - por mais que amigos seus  tentem me convencer de que a melhor manifestação de dignidade dele seria a ausência. Um dia, quem sabe, eu me convença disso. Hoje, não.
Tenho, a propósito, uma bela lembrança gravada na memória. Conheci, no circuito da Fórmula 1, um garotinho lindo, de uns 5 anos, acredito, que tinha uma especial veneração pelo Ayrton - e a amizade era recíproca. Circulava pelos boxes, antes das provas, levado pelas mãos de sua mãe, Sylvia, uma holandesa habituée dos pitlanes. O garoto se chama Nelsinho. Nelson Piquet Júnior.

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