Thierry e Patricia Boutsen também eram do time dos nossos
amigos do peito. Sem esquecer o Kevin, filho deles, que deve ter hoje uns 5
anos. Uns encantos - foram hóspedes nossos em Angra e no Algarve. Marido e
mulher tinham um preparo excepcional, a ponto de acompanharem o Ayrton naquela
sua corrida diária em volta do condomínio da Quinta do Lago, em Portugal. Uma
hora e meia, duas horas - os dois pilotos e ela. Eu, sob vaias gerais, os
acompanhava. De bicicleta.
Um dia, prometi ao Béco que ainda iria cumprir com ele todo
aquele longo e cansativo percurso. Treinei como uma louca, às sete da manhã,
todos os dias, no Ibirapuera, entre março e abril de 1993. Nuno Cobra,
preparador do Ayrton, me assessorava. Eu ia lhe fazer uma surpresa, no dia em
que ele voltasse de Ímola para a casa do Algarve. Fiquei lhe devendo essa.
Alain Prost, sim, era uma pedra no sapato, ou na sapatilha.
A crônica de seus duelos com Ayrton nas pistas vai permanecer na história do
automobilismo. De parte a parte, ficaram ressentimentos, queixas, acusações de
jogo sujo - e Senna, que odiava perder, teve de amargar o tetracampeonato do
rival logo naquela temporada em que vivi intensamente ao seu lado. Com Prost,
chegou a ser uma relação de tipo mudar de calçada, quando um via o outro. Mesas
distantes em restaurantes, nos anos negros da hostilidade. Até os garçons
tremiam. Mas o tempo foi curando as feridas. Num magnífico restaurante em que
jantávamos em Milão, setembro de 1993, antes do GP de Monza, com o Braga, o tio
Papagaio, aliás, Galvão Bueno, e esposa, a tenista Monica Selles e a mãe, o
Julian Jakobi e sua adorável mulher, Fiona, de repente Prost em pessoa
veio a nossa mesa. Ayrton gelou, mas o pior já tinha passado. Prost estava,
isso sim, mais à vontade: afinal, naquele ano o campeão foi ele, não o seu
eterno rival.
Meu sexto sentido indica, porém, que a rivalidade dos dois
tinha o tempero de um enorme respeito. Haviam dividido, não sem algumas farpas,
o mesmo boxe, o mesmo team, o mesmo staff da McLaren por dois anos. Alain
Prost era alguém - quando "o francês" vinha à baila, numa conversa
entre amigos, uma certa cerimônia se impunha, a não ser quando Ayrton queria
gozar a incompatibilidade dele com as chuvas e pistas molhadas. Prost desafiava
Senna, Senna desafiava Prost, e foi essa estimulante competição, interrompida
na temporada de 1994 com a aposentadoria do francês, que produziu aquele
diálogo entre os dois, incrível, às vésperas do desastre de Imola. Quem
assistiu ao abraço, como o Braguinha, custou a acreditar. Senna foi além:
- Estou sentindo a sua falta - disse ele a Prost, em inglês.
A parte francesa dessa linda reconciliação entre as duas
feras se traduziu no choro sincero de Alain Prost, diante do esquife do
ex-rival. Falou-me, após o funeral, que ele também tinha morrido um pouco,
junto com Ayrton Senna. Parecia meio deslocado naquele ambiente soturno e
distante do Cemitério do Morumbi. Com a mão no meu braço, disse um comovido
"conte comigo".
Houve um adversário de verdade na vida e na carreira de Ayrton
Senna. Não se pode esperar palavras de rancor e ódio de quem lia a Bíblia como
ele, mas acontecem situações de saia-justa que dizem tudo. Às vésperas do
Grande Prêmio no Estoril, fomos num grupo grande experimentar aquela maravilha
da cozinha portuguesa que é o restaurante Porto Santa Maria, na praia do
Guincho, diante daquelas escarpas do cabo da Roca, o ponto mais ocidental da
Europa. Coisa dos deuses. Encomendado com antecedência pelo nosso anfitrião, o
Braga, um linguado ao forno, cozido dentro de uma casca de sal grosso.
Chegamos e o maitrê nos levou a uma mesa voltada para aquele
mar e para aquele horizonte de onde, séculos atrás, uns malucos portugueses, a
bordo de casquinhas tão frágeis quanto os carros de Fórmula 1, foram descobrir
novos mundos. De repente, o Ayrton, sempre ligadíssimo, parou:
- Aqui, não. Vamos para outra mesa, bem longe. Fincou pé, os
outros convidados perplexos. Mas me sussurrou ao ouvido:
- O indivíduo está aí.
A palavra, aqui entre nós, não foi propriamente indivíduo.
Imaginei que era o Prost. Nada disso: o indivíduo atendia pelo nome de Nelson
Piquet. Aí a coisa ficava de fato feia. É inútil voltar a esse assunto, depois
do que se passou. Mas o silêncio de Piquet, no dia do enterro, foi
significativo - por mais que amigos seus tentem me convencer de que a
melhor manifestação de dignidade dele seria a ausência. Um dia, quem sabe, eu
me convença disso. Hoje, não.
Tenho, a propósito, uma bela lembrança gravada na memória.
Conheci, no circuito da Fórmula 1, um garotinho lindo, de uns 5 anos, acredito,
que tinha uma especial veneração pelo Ayrton - e a amizade era recíproca.
Circulava pelos boxes, antes das provas, levado pelas mãos de sua mãe, Sylvia,
uma holandesa habituée dos pitlanes. O garoto se chama Nelsinho. Nelson Piquet Júnior.

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