quarta-feira, 5 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - Vida de Adriane Galisteu antes de conhecer Ayrton Senna



Olá me chamo Adriane Galisteu, tenho 21 anos e sou modelo - sou? Era? Ainda vou ser? Só o futuro dirá. Nasci e cresci na Lapa, um bairro de classe média para baixa de São Paulo, estudei em escola pública, tenho mãe, irmão casado, um adorável avô materno de 80 anos, um Fiat Uno 1993 e uma história que gostaria de contar. 
Há  de parecer, a alguns, um conto de fadas - e a mim mesma me ocorre muitas vezes, depois que tudo aconteceu, a pergunta persistente se este mundo em que nós vivemos  não é só um sonho, se o que chamamos de realidade não é uma sombra projetada numa parede. Disseram-me que alguém muito importante já pensou assim, mas acho que faltei à aula, naquele dia. Não sou mística, não vejo duendes, mas posso passar horas de noites de insônia - insônia é uma das novidades que os vertiginosos últimos meses  de minha vida me introduziram - lendo a Bíblia. Já disputei concursos de beleza, mas nunca li O Pequeno Príncipe. Gosto de Paulo Coelho e, no momento em que remexo nos arquivos de minha memória, aqui e agora, enevoada pela bruma da serra de Sintra, em Portugal, planejo refazer o caminho  de Santiago de Compostela - aquele do Diário do Mago.
Perdi aos 15 anos meu pai, um espanhol da Castela, mal entrado nos 50, numa noite em que eu disse que ia com uma amiga para o Guarujá e fui com um namorado para Arujá. Freud explica, talvez - mas não consola o meu arrependimento boboca e infantil. Fiquei sabendo que meu pai, que já tivera um problema cardíaco, chegou andando ao hospital e saiu no dia seguinte num caixão lacrado, com toda a família desesperadamente à minha procura. Imaginem meu trauma. Desde então, minha mãe sabe rigorosamente tudo o que se passa em minha vida. Não sei mentir. Meu relato pode ser emoldurado de dureza, tristeza, decepção, alegria, ilusão, arrependimento, franqueza, imprecisões, rancor, exagero, mas a verdade, fiquem certos, será preservada como um tesouro tão precioso como aquele de que vai falar esta história: o amor.
Mães contam coisas exageradas dos filhos, mas desta eu me recordo: aos 9 anos, me descobri bonita. Ganhei um biquíni novo dela e tão apetitosa me senti - será apetitosa palavra do vocabulário de uma menina de 9 anos? - que  vesti a peça de baixo, fiquei me apreciando no espelho, horas a fio. De repente, simulei um mergulho. Queria apreciar a perfeição do meu corpo em todos os ângulos. O espelho se espatifou em mil pedaços e as escoriações generalizadas tiveram de adiar meu show aquático por alguns dias.
Encanei:
- Mãe, quero aparecer na televisão.
(Imaginem, após a morte do Ayrton, tive de dizer não a pessoas gentis e influentes que me convidaram para ser atriz numa das novelas da Globo. Mas agradeço seu gesto de amizade, Roberto Irineu.)
Minha mãe argumentou que não seria fácil, mas, como sempre, foi à luta. Por intermédio de uma vizinha que tinha uma filha adolescente no teatro, juntou endereços de agências e me produziu um book. Ainda me lembro do nome da fotógrafa: Teresa Pinheiro. Fotos sem muita produção nem maquiagem, em preto-e-branco. Dali, procuramos  uma agência especializada em crianças, a Pritty, que ainda existe, em São Caetano. Meu pai tinha sido dono de uma gráfica que chegou a ter duzentos empregados. Passara sua parte e se aposentara. Tínhamos uma vida normal, sem carências e sem luxos. Não era tanto o dinheiro que me movia. Era o sonho de ficar famosa.
Casting para o primeiro comercial. Aprovada. Vocês vão perceber uma predestinação aí. Sabem quem era o anunciante? O McDonald's. Que abria sua loja da Avenida Rebouças com Henrique Schaumann. Eu tinha de dizer aquilo:
- Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e pão com gergelim.
A fórmula do Big Mac. A campanha era essa: quem cantasse rapidinho, sem errar, no balcão da nova loja, levava de graça. O sanduíche era ótimo, mas a vida de artista uma dureza, eu percebi. Filmamos e refilmamos um milhão de vezes. Praticamente passamos, mamãe e eu, dois dias e duas noites no McDonald's.
Minha mãe, sempre ao lado - mas sem aquela atitude chata de mãe de miss. Entregava o cachê para ela, ela o administrava. Aí eu deslanchei: outros filmes, passarela, desfiles - com a ajuda de um coreógrafo amigo, Joacir Dallas, eu praticamente reaprendi a andar. Teatro, nem pensar - supus que não tinha talento. Mas teria, por vários anos, uma outra inesperada experiência de palco. Via música. Atenção, Chacrinha, Gugu, Trapalhões, Silvio Santos, Xou da Xuxa, Sérgio Mallandro, Bolinha - aqui vou eu.
Um sucesso, a novela Chispita, na TVS. Só que era mexicana. Marco Antônio Gálvão, um produtor que trabalhava lá, percebeu a chance de um LP do tipo trilha, em português. Fez o casting, a música estava pronta - era só dublar. Tinha de ter cara e ginga, voz era o de menos. Acabou a novela, acabou o conjunto. Estava com 11 anos. Aos 12, dei um estirão - virei uma mulher. Meu primeiro sutiã foi da Monizac, uma campanha que foi um estouro e bem sugestiva do que se passava comigo. "Menina ou mulher?",  dizia o anúncio. Continuava o trabalho de modelo, logo iria para a Jet-Set, enfim uma agência de porte. Mas a música me chamou de volta: um conjunto de quatro garotas - Débora, Kalu, Cinthia e eu -, com melodias açucaradas que lembravam os anos 60. O nome, escolhido pela empresária Amélia Romão, não poderia ser mais adequado: Meia Soquete. Tem muita gente da minha idade que ainda se lembra do nosso estilo Lolita.
Dos 13 anos em diante, vivi um turbilhão de muito trabalho, muita viagem, muita experiência inesperada - como cantar ao ar livre para milhares e milhares de pessoas em Tucuruí, no Pará. A música não era meu barato, assim como as drogas, o álcool e a badalação nunca foram. Mas tínhamos gravadora de prestígio - primeiro a RGE, depois a Som Livre. Chegamos a ganhar mais de um disco de ouro e isso dá orgulho a qualquer um. Era dona de uma voz afinadinha, mas no palco vivi situações de desastre, como o show em que desabei como uma abóbora, quando a gente  se dava as mãos numa roda. As viagens constantes disputavam com as aulas, nas quais eu dormia de cansaço, e com o ano letivo. No terceiro colegial, finalmente, a escola perdeu. Aliás, eu perdi - o ano. Antes, já havia perdido meu pai e minha vontade de cantar.
Uma síndrome de pânico, ou pelo menos um sério sintoma disso, quase me enlouqueceu, pouco tempo antes de conhecer o Ayrton. Estava num lugar qualquer e, de repente, o coração disparava, as mãos começavam a suar, perdia o equilíbrio, chegava a desmaiar. Fiz exames, tomei tudo o que me indicaram, de antidepressivos a simpatias, conversei com outras pessoas - nada. Um dia, a caminho de casa, dirigindo o carro, meus joelhos tremiam como chocalhos. Vi uma igreja e entrei. No meu pânico, rezei por mais de meia hora - em voz alta, quase aos gritos:
- Meu Deus, me dê forças.
Eu não freqüentava igreja, não era mística, menos ainda esotérica, mas mantinha em mim uma reserva de fé. Ela me ajudaria naquilo - e depois. Nesta idade de 21  anos em que muitos mal começam a vida, já passei por quase tudo. Tive o sucesso mas provei da parte dura da realidade. Aprendi muito - inclusive no curto tempo em que tive de ensinar. Sim, isso mesmo: também dei aula, para o 1° Grau, naquele ano em que fui reprovada. Queria o diploma e passei para o curso de magistério - o  normal. Entrava na sala e havia um menino sempre dormindo. Tentava mantê-lo acordado e nada. Um dia, chamei-o para conversar.
- Sabe o que é, tia? - explicou. - Lavo carro quando saio da escola e à noite entrego pizza.
Era um garoto de 10 anos e levava para casa o pão de cada dia. Que ele dormisse o quanto quisesse. Depois, foi  uma menina cujos cabelos tinham sido tomados por piolhos. Quis ajudá-la:
- Vou avisar a sua mãe.
- Que mãe? - respondeu, candidamente.


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