Ayrton era um cigano caseiro. Pode parecer uma contradição,
mas digo cigano por ofício, caseiro por opção. Obrigado a ser cigano pela vida
profissional, não perdia o hábito de ser metódico, deixando à mão, em cada
lugar onde pousava, suas roupas arrumadinhas, seus pares de tênis, suas camisas
impecáveis, seus cintos - centenas de cintos -, suas restritas
predileções musicais, seus hábitos alimentares, suas manias.
Mas se alguém pede para eu contar qual era a nossa casa, o
nosso lugar, o que me vem automaticamente à cabeça é aquele deck de Angra, a
varanda, a piscina, os jet-skis (eram seis, pelas minhas contas), a zoeira dos
camaradas, as visitas dos amigos, as confidências com minha amiga Maria,
as caminhadas com a Xana, filha dela, a comida deslumbrante que punha em risco
meu regime, a simpatia e o cuidado extremo do Mateus, artesão de mão cheia, as
duas lanchas, o sol, o calor, a impenitente Quinda mergulhando na água atrás de
algum desavisado que se aproximasse, o pôr-do-sol de aquarela, a Lua, as
estrelas, a mais perfeita configuração do paraíso.
Angra, sim - porque era ali que eu tinha um Béco só meu, a
milhas e milhas de distância da instituição mitológica Ayrton Senna da Silva.
Sem egoísmo: era ali também que ele se tinha só para si mesmo, homem, amigo, moleque,
palhaço, inquieto, preguiçoso, esperto, bobo, frágil, mas forte naquilo em que
era verdadeiramente fundamental para um ser humano ser forte. Imaginem um
tricampeão do mundo, reverenciado como um semideus, descendo para o café da
manhã com aquela cara amarfanhada de sono, só de calção e chinelo, sem camisa,
barba por fazer, brigando com o amigo que lhe rouba a torrada com requeijão,
ou, depois, no almoço, com o cotovelo esquerdo apoiado na mesa enquanto a mão
direita, armada de um garfo e operando como se fosse uma pá, escavava um pratão
de talharim com muito molho de tomate - al dente, exigia ele. Ele era, também
na hora de comer, o rei da massa.
- O Nuno manda comer pasta, para recuperar energia - tentava
desculpar ele a sua voracidade, convocando o distante testemunho de seu
histórico amigo e preparador físico.
(Fiquei sabendo que, de fato, um piloto como ele perde de
três a quatro quilos numa prova. Tagliatelle nele!)
Angra era isso: ele brincando, ele rindo, ele correndo, ele
dançando, ele jogando, ele ouvindo música, ele amando - ele, todo
sentimento, afetuoso, relax, terno, brando, tão à vontade que conseguia até
dormir um sono juvenil, com uma auréola de paz emoldurando seu rosto, coisa
impensável nos dias em que vestia o macacão do Senna piloto ou nos ambientes em
que botava, a contragosto, o figurino do Senna businessman.
Um refúgio, um exílio - de repente, ele me catava em São
Paulo, acionava as hélices do helicóptero e lá íamos nós, a sós, para uma
escapadela que podia durar apenas um dia, ou mesmo algumas horas. A magia
do paraíso soprava para longe quando a pressão das provas, dos resultados e das
decepções subia o termômetro de nossa ansiedade. Angra tinha um poder curativo
sobre ele. Angra, grau zero de adrenalina.



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