quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Ayrton Senna Narra o Drama e a Emoção de Vencer Pela Primeira Vez Um Grande Prêmio de F1 no Brasil



Depoimento extraído das colunas de Ayrton Senna publicadas na revista QUATRO RODAS

1991



Minha batalha depois da dura vitória

Edição 369 - Abril 1991


Apesar de todo cansaço, vou lembrar para sempre a emoção de receber a bandeirada em Interlagos.

Depois de conseguir em Interlagos uma das vitórias mais emocionantes da minha vida, eu não imaginava que teria um novo desafio em seguida: entrar na minha própria casa, no bairro de Cantareira, em São Paulo. Vocês podem não acreditar, mas foi uma missão quase impossível chegar perto dos meus familiares para comemorar a primeira conquista num GP do Brasil.

Nunca havia recebido tantas visitas. Para entrar pelo portão, eu e os policiais, que estavam escoltando a minha perua, ficamos pelo menos uns dez minutos esperando. Eu gostaria muito de sair do carro e falar com cada um dos meus fãs, mas com tanta gente no local seria mesmo impossível e até perigoso para todo mundo. As pessoas foram, então, se aglomerando em volta do carro. Lá dentro, a impressão era de que estavam amassando tudo. Comentei assustado com o meu irmão. Mas o Leonardo nem se preocupou. “Becão, não liga. Se amassarem, a gente guarda essa perua como troféu e compra outra.” Só mesmo uma vitória no GP do Brasil para ele brincar naquela situação. Se fosse em outro dia...

Acabei entrando em casa por volta das 18 h. Aí então pude, pelo menos, acenar por cima do muro para meus ilustres visitantes. Fiquei um bom tempo ali. Quatro horas depois ainda havia bastante gente no portão. Resolvi voltar e, com a eficiente ajuda dos policiais, pude ficar mais perto dos meus fãs.

Senna na porta da casa dos pais acenando para seus fãs depois da vitória inédita no Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1

Estava realmente cansado. O GP em Interlagos foi a prova mais desgastante da minha carreira. Depois de enfrentar os problemas no câmbio a partir da 60.ª volta, cheguei ao pódio com espasmos musculares nos braços. Vocês nem imaginam o sacrifício que foi levantar o troféu. Acho que agradeceria se recebesse apenas uma medalha como na corrida dos Estados Unidos. Mas ganhar só isso não tem muito a ver. Acabei esquecendo a medalha no bolso do macacão. E ficou tudo por lá no caminhão da McLaren em Phoenix.

Ayrton Senna estava tão cansado e dolorido que não conseguia nem levantar o troféu

Apesar de todo cansaço, vou lembrar para sempre a emoção de receber a bandeirada em Interlagos. Principalmente por ter ficado apenas com a sexta marcha nas últimas voltas. Foi uma corrida tão especial que, após ser obrigado a passar por duas sessões de massagens com o fisioterapeuta da equipe (uma no boxe e outra em casa), ainda encontrei forças para assistir a todo o teipe do GP no vídeo. Só fui dormir às 2 h da madrugada.

Ayrton após a vitória dramática no GP Brasil 91

o piloto brasileiro durante a corrida

Na verdade, este início de temporada tem sido perfeito. O primeiro exemplo aconteceu logo na abertura, em Phoenix: vitória de ponta a ponta com pole. Sem contar a vantagem de mais de 40 segundos sobre o segundo colocado. Muitas pessoas dizem que eu forço demais o carro. Não é verdade. A vantagem aberta nos Estados Unidos foi porque o meu McLaren estava ótimo. E eu até poderia ter andado mais rápido. Mas já estava satisfeito com o desempenho do novo modelo MP4/6, que, quase sem nenhum teste, conseguiu colocar 2 segundos por volta em equipes que treinaram durante todo o final do ano passado.

Não me sentia tão bem desde 1988, quando a McLaren tinha um carro tão superior que vencemos quinze das dezesseis corridas. Nos Estados Unidos, ainda fiz minha tradicional escala em Miami, onde revejo uns amigos queridos e ainda aproveito para fazer umas comprinhas. No Brasil... Bem, no Brasil, comemorei meu 31.º aniversário na quinta, dia 21 de março, mas só fui receber o presente no domingo. E que presente!

O campeão já em casa descansando após ganhar pela primeira vez em seu país. Feliz e orgulhoso, ele exibi a garrafa de champanhe, troféu e medalha, símbolos da primeira conquista em sua terra natal. Ganhar um GP no Brasil era um sonho antigo de Ayrton Senna.




FONTE PESQUISADA

20 ANOS SEM SENNA
Edição: Marcio Ishikawa
Produção: Bruno Roberti
Texto e pesquisa: André Biernath, Gian Kojikovski, Rodrigo Furlan e Vitor Matsubara
Edição de arte: Abraão Marcos Corazza
Design: Juliana Moreira
Ilustrações: Felipe Thiroux e Juliana Moreira
Desenvolvimento: André Cabral, Allyson Kitamura, Cah Felix e Leonam Dias
Imagens: Dedoc Abril e Photo-4
Analista de Redes Sociais: Lucas Baranyi

QUATRO RODAS – A voz do ídolo. Disponível em: <http://quatrorodas.abril.com.br/20-anos-sem-senna/?fullsite#>. Acesso em: 08 de outubro 2015. 






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