sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

As Memórias de Di Spires, a “Tia da Cantina” da Fórmula 1

A senhora Di Spires trabalhou por 30 anos preparando refeições e as servindo aos pilotos de Fórmula 1. No seu livro “I Just Made The Tea” (português: Eu apenas fazia o chá), lançado em 2012, Di conta suas memórias nesses 30 anos de serviços prestados a F1, e dedica um capítulo inteiro a Ayrton Senna.

Titulo: "Eu apenas fazia o chá"
Subtítulo: Contos sobre os meus 30 Anos de Formula 1
Autora: Di Spires
Com colaboração de Bernard Ferguson
Prefácio: Murray Walker & Michael Schummacher   

Gravura de Di Spires e Ayrton Senna na capa do livro
Di Spires remind Ayrton in her book: "I just made the tea


Capitulo 10 do livro onde Ayrton foi mencionado:

Primeira vitória, salgadinhos e o charme de Ayrton Senna

Em 1984 nós estávamos efetivamente olhando por duas equipes, assim como nós estávamos trabalhando para Lotus, fazíamos de tudo para deixar claro que estava tudo Ok com a Toleman. Foi quando conhecemos Ayrton Senna.

Nossa primeira impressão foi que Ayrton era muito discreto e um pouco tímido.
Ele obviamente já tinha estado na Inglaterra correndo pela Fórmula 3, mas eu acho que ele estava um pouco tenso porque nós estávamos ao redor dele em seu primeiro dia de Fórmula 1. Ele era realmente um garoto legal além do que Stuart tinha me dito, pude ver o quão jovem ele era. Ayrton nunca aparecia cercado por assessores ou nada disso. Ele estava sempre sozinho e as vezes era visto recebendo visitas de seu jovem irmão e vivia ocupado com seu trabalho. Ele costumava me ligar e falar amenidades em geral e nós nos tornamos amigos.

Nós nos encontramos pela primeira vez no motorhome da Toleman e ele estava obviamente um pouco confuso. Ele sabia que nós tínhamos um envolvimento ali mas ele não conseguiu entender porque nós estávamos sempre vestidos com uniforme da Lotus e ajudando o pessoal da Toleman. Nós explicamos pra ele que nossos serviços de motorhome se estenderiam a equipe dele também. Mas nossa unidade de trabalho ficava dentro da Lotus.
Hoje pensando sobre isso, posso entender a confusão dele.

Ayrton era um fenômeno. Além de ter sido perfeito num carro de baixa qualidade como a Toleman. Tenho certeza que venceria aquele GP de Mônaco se a corrida não tivesse sido interrompida quando deveria ter prosseguido. Ele estava alcançando Alain Prost, volta por volta e Alain estava ciente, e ele queria que a corrida terminasse e eventualmente foi o que conseguiu. Por meio e tão somente meio ponto, estava ali sua recompensa. Bem, nós estávamos em Mônaco, na França e Alain era francês.

Nossos serviços de Cantina estavam fidelizados a Lotus em 85 e estávamos cientes que Ayrton tinha assinado com a equipe e nós ficaríamos todos juntos. Ayrton estava formando dupla com Elio de Angelis e seria difícil imaginar dois pilotos mais gentis , mais cavalheiros do que eles dois.


Di é presenteada com um bolo de aniversário por Ayrton Senna e Elio De Angelis, ambos que perderam suas vidas ao volante

Ayrton Senna & Elio DeAngelis bought a birthday cake to Di Spires


Apesar do nosso relacionamento de amor/ódio com "Black Pig" [equipe Lotus], Ayrton tinha se unido ao motorhome. Ele não era como toda aquela corja ao redor das corridas com todos aqueles eventos publicitários, jantares e todas aquelas porcarias. Ele só estava ali por uma razão, e o único motivo era correr. O sonho dele tinha sido chegar a Formula 1 e ser campeão. Ele estava satisfeito por estar em uma equipe com uma história rica em conquistas, mas ele também tinha apreensão se aquela era a equipe certa para ele estar pois sempre mandavam ele participar de jantares formais e atender patrocinadores. Ele na verdade preferia sentar no motorhome e ficar lendo um livro nas horas vagas. Às vezes nós íamos para o hotel dele após deixarmos a pista, para relaxar. Ele se sentia tão confortável nesses ambientes. De qualquer forma Peter War [chefe da Lotus] era bastante exigente com seus pilotos. Claro, tinha que ser por causa da John Player Special, o maior patrocinador. A equipe tinha feito uma grande coisa em reconhecer o potencial do seu novo piloto contratado.
Igualmente a John Player Special tinha feito mais investimentos na equipe e no esporte em si, com Peter Dyke e Geoffrey Keut atendendo todas as corridas.
Eles eram a favor de ter Ayrton como alguém especial, mas delegar tantas funções e atividades não diretamente ligadas as atividades de piloto era muito estressante para um jovem piloto que só queria manter negócios com as vitórias nas pistas.

Eventualmente Ayrton entendeu que precisava seguir as instruções da equipe mas ele nunca se sentiu confortável sendo forçado a certas circunstâncias. Ele se sentia mais confortável sentado em nossa cantina com todo mundo rindo dele e do "sanduíche do Senna", o seu peculiar e particular sanduíche de todas as manhãs. Ele comia diariamente acompanhado de uma garrafa de água cristalina. O sanduíche era composto por queijo, presunto, cheio de geleia. Ele sabia que nos achávamos estranho o seu costume, ainda que dentro do padrão de piloto, mas ele pedia isso sempre. Às vezes ele não conseguia o seu sanduíche até o primeiro treino. As coisas fugiam do controle da dieta. Todos pediam o que quisessem (exceto quando Ken Tyrrel [Fundador da famosa equipe Tyrrell da Fórmula 1] disse para [o francês] Jean-Pierre Jarier [piloto da Tyrrel à época] que ele não poderia comer qualquer coisa). Deus sabe, os nutricionistas das equipes hoje em dia diriam o mesmo. 


Prints do capítulo do livro que fala sobre Ayrton Senna
Di Spires Memories about Ayrton Senna ( Book Parts in english)


Ayrton Senna vence pela primeira vez na Fórmula 1, GP de Portugal 1985
Ayrton Senna first victory in Portugal Grand Prix 1985

De qualquer forma nosso tempo com Ayrton foi memorável. Em 1985 os pais dele começaram a vir para as corridas e todos nós os conhecemos bem. Nós estávamos com Ayrton quando ele venceu sua primeira corrida na chuva no Estoril, no GP de Portugal em 1985. A pista tinha um declive esticado em boa parte do caminho e um portão de acesso restrito com entrada na pista. Como a corrida chegou ao fim, debaixo de chuva, Stuart pulou a parede do pit, aonde ele estava na beira da pista e correu todo o caminho até o portão. Ele passou por ele e foi para lateral da pista aplaudir Ayrton que dava uma volta deslizando na pista. Eu estava assistindo pela janela do motorhome como Ayrton guiava atrás da lateral da pista onde o Stuart estava, tirando o cinto de segurança ( o que não seria permitido agora) e abraçando Stu, que já tinha "invadido" o cockpit onde Ayrton estava sentado para parabeniza-lo. Um dos jornalistas de Fórmula 1 escreveu naquela semana que ele nunca havia visto um piloto parar e abraçar alguém deslizando numa volta antes. Foi a primeira e provavelmente a
última vez que alguém fez isso. Desde aquele dia eu venho tentando achar uma fotografia desse fantástico momento. Ayrton continuou com sua volta deslizante e chegou de volta ao pit onde todo mundo esperava por ele. Nós todos estávamos chorando emocionados e os pais dele estavam apenas ao nosso lado. Nós tínhamos então questionado qual era o tipo de relacionamento que nós tínhamos desenvolvido com Ayrton que fez ele fazer algo tão diferente do esperado, algo não característico, e eu posso apenas pensar que ele sentiu que nós da Lotus tínhamos virado uma extensão da família dele, naquele fim de semana de corrida familiar. E ele parecia tão vulnerável quando voltou para o Reino Unido. Enquanto seus familiares estavam a milhas de distância do Brasil. Eu apenas acho que ele se sentia confortável e seguro, e relaxado conosco, na segurança do nosso motorhome.

Di e Stuart Spires
Diana and Stuart Spires

Infelizmente enquanto Ayrton atraia toda a atenção do mundo dos esportes a motor, ele também atraiu a atenção de perseguidores. Muitos homens teriam se sentido lisonjeados por ter uma mulher lhes seguindo, mas isso fazia Ayrton ficar muito desconfortável e algumas vezes ele teria se escondido no motorhome até a tal mulher lhe deixar em paz por aquele dia. Ela parecia uma portuguesa com cabelos longos e ruivos, usava sapatos de salto alto brancos e uma saia que sacolejava quando ela andava e tinha o dobro da idade do Ayrton. Ninguém sabia o nome dela ou como ela tinha entrado ali no paddock, mas ela estava sempre ao redor, sentada assistindo pelo motorhome ou continuamente caminhando atrás do Ayrton para lhe dar uma espiada. Nós costumávamos -la e Peter Dyke, o diretor de marketing da John Player Special costumava dizer "Aqui está ela! Melhor Ayrton esperar!" Algumas vezes decidimos alcançá-la e retirá-la dali, mas ela voltaria no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.

Às vezes Ayrton estava um pouco relaxado conosco. Assim eu me recordo de uma noite em especial em SPA, durante o final de semana do GP da Bélgica. O pessoal da equipe decidiu sair caminhando aos redores do circuito em grupos para apreciar os petiscos que destacavam o melhor da culinária belga, conhecidos como "salgadinhos e maionese". Quando estávamos nos preparando para ir avistamos Ayrton, então perguntamos: 

"O que você está fazendo aqui? Você não deveria ter ido com os outros em um evento de publicidade?"

Ele disse: "Eu não queria ir, então eu disse que não estava a fim, que estava muito cansado." Depois nos perguntou. "O que vocês vão fazer essa noite?"

Nós olhamos um pouco constrangidos e dissemos "Bem nós vamos sair por aí e comer uns petiscos no Friterie".

Ayrton perguntou de novo: "Que horas vocês vão?"

Eu e Stuart respondemos: "Em 10 minutos , assim que terminarmos de lavar e arrumar a cozinha"

Ele nos disse: "Posso ir com vocês?" Para sua surpreendente pergunta nós respondemos "Claro que você pode vir conosco se quiser, mas veja bem, há uma multidão de pessoas lá fora e eles vão reconhecer você" . Ele disse na hora: "Ah eu não ligo, eu apenas gostaria de me juntar a vocês." Ele estava mesmo decidido. 

Eu e Stuart, meu companheiro de cantina nos atrapalhamos um pouco e dissemos de forma constrangida: "Bem, tem mais uma coisa. De qualquer forma nós não vamos sair escondidos pela garagem, vamos passar pelo portão principal. Sairemos perto do grampo, no pequeno portão fechado na frente do paddock. Se você não se importar de passar por lá, tudo bem.

Então nós três saímos rapidamente pelo motorhome da Williams e passamos com dificuldade pela loucura e histerismo da multidãoNós caminhamos para o "Friterie" e o local estava cheio. Não havia lugar para sentarmos e nem nada do tipo. E Ayrton usava um dos bonés do Stuart, com aba puxada para baixo onde escondia o rosto e as orelhas apareciam. A gola do seu casaco estava para cima, pois estava frio.

Quando ele perguntou o que nós escolheríamos para comer nós dissemos: "Bem, nós não sabemos se você deveria comer isso pois é um pouco gorduroso, mas nós comeremos salgadinhos com molho e maionese. 

Ayrton disse: "Eu sei que não deveria comer, mas eu amo salgadinhos" Então Ayrton se fartou de salgadinhos e molhos, sentado numa calçada, na beira da estrada entre eu e Stuart.
As pessoas estavam passando e ninguém nos olhava mais que duas vezes pois nós não estávamos com nossos uniformes da Lotus. Então estávamos ali sem chamar atenção.
Então o Jean Sage, diretor da equipe Renault veio atrás . Avistando Stuart ele gritou: "Oi Stu, apreciando petiscos hein?" Então ele olhou para o restante de nós. Ele olhou para Ayrton e arregalou os olhos, deu um duplo salto para trás chocado em ver um piloto sentado no chão comendo conosco. Ele se recompôs e disse pra si mesmo "Tudo bem." E foi embora. Ele foi o único a reconhecer Ayrton.

Senna vence o Grande Prêmio da Bélgica 1985

Quando terminamos o passeio gastronômico e caminhávamos pela rua de volta, perguntamos ao Ayrton como ele faria para voltar ao seu hotel. Ele estava hospedado em algum lugar no Dorint, ele não sabia voltar para lá e nós ficamos perplexos. Então avistamos Bob McMurray da McLaren que gentilmente se ofereceu para levá-lo ao seu hotel. No dia seguinte Ayrton derrotou Nigel Mansell e venceu o GP da Bélgica. Ficou provado então que salgadinhos com molho era ótimo para corredores.

Ayrton e a mãe Neyde Senna na época que ele corria na Lotus
Ayrton and his mother in Lotus times

Imola foi a próxima corrida após sua primeira vitoria lá, a mãe de Ayrton queria nos dar alguma coisa para celebrar a ocasião e nos agradecer por cuidar de seu filho. Ela deu uma caneta cara para Stuart em uma capa bonita, e para mim uma bela corrente de prata com um pingente em forma de pedra azul, também num belo embrulho de presente. A pedra tradicionalmente brasileira servia para afastar mal olhado ou "olho gordo" como se diz no Brasil. Ela deixou uma nota escrito: "Eu quero que use isso Diana, enquanto Ayrton estiver correndo, ainda que você um dia não esteja mais na mesma equipe que ele"

A mãe de Ayrton Senna, dona Neyde, assistindo uma corrida do filho nos anos 80. Foto: motorinolimits.com
Neide Senna, Ayrton's mother, watching a race on 80's. Photo: motorinolimits.com

Quando Ayrton me deu o presente, me disse: "Mamãe quer que você use isso" E eu usei em todos os fins de semana como ela me pediu. Em todos os fins de semana que ele correu e só guardava o cordão na caixinha quando não tinha corrida. Eu não sou realmente uma pessoa supersticiosa ou muito religiosa, mas algo me compelia a fazer isso.


Prints do capítulo do livro que fala sobre Ayrton Senna
Di Spires Memories about Ayrton Senna ( Book Parts in english)




FONTE PESQUISADA

SPIRES, Diana; FERGUSON, Bernard. I Just Made the Tea. 1º Edição. Sparkford: Haynes Publishing, 2012.




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