quinta-feira, 6 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - Adriane Galisteu vai para Angra dos Reis com Ayrton Senna e fala sobre seus amigos


O helicóptero esperava por nós no heliporto do prédio de escritórios dos Senna, no bairro de Santana. Como eu sinceramente queria desanuviar, na viagem, sem nenhuma outra intenção além disso, foi um alívio perceber que já esperavam por nós Norio Koike, um incansável japonês freqüentador do circo da Fórmula 1 mas que acabou fotógrafo particular do Ayrton, e duas meninas da Elite, duas outras Danielas, ou congêneres - a Daniela Carvalho e a Danielle Aguiar. Alívio para mim, choque para elas, que não esperavam me ver ali, chegando com o ídolo.
Primeira viagem de helicóptero, e logo com quem. Ele levava ao pé da letra a palavra piloto. Carro, helicóptero, avião, lancha, jet-ski - tinha a mania de estar sempre no comando das operações. Norio, ao lado dele. Nós três atrás.
Eu, sem graça, me contorcendo para não roer as unhas de ansiedade e condenada a servir de Cristo dele:
- Não se preocupe, não. Eu tive uma aulinha de direção antes de a gente vir pra cá.
Tentei me distrair dividindo minha atenção com a paisagem e minha curiosidade com o Norio. Como modelo, eu estava acostumada a filmes e a equipamento fotográfico, mas o japonês extrapolava. Pendurava-se de incontáveis máquinas e lentes, pequenas, médias, grandes, zooms, teleobjetivas, grandes-angulares, etc. Carregava uma caixa com quinhentos filmes - isso mesmo, quinhentos. Fiquei sabendo que, com aquela desconfiança que tinha da imprensa, Ayrton só se deixava fotografar  pelo Norio.
Sob o sol magnífico de Angra, um oriental da cor do tomate era visto, clique, clique, perseguindo, empapado de suor, o seu cobiçado alvo. Depois, revelava pessoalmente os filmes, colocava cromo por cromo nas cartelas e destinava todo o material ao patrão - o qual, minucioso, cauteloso com sua imagem, selecionava dali meia dúzia de fotos, nunca mais do que isso. Norio tinha no sangue aquela elegante discrição que caracteriza sua gente. Só falava inglês - pouco e, penso eu, propositalmente  mal. Tenho certeza de que ele entendia tudo o que nós dizíamos em português. De vez em quando, eu surpreendia um brilho maroto em seus olhinhos vivos e inteligentes. Ele  tratava de despistar.
Ali no helicóptero, entre nervosa e ansiosa, observando o japonês Norio, eu começava a tomar contato com uma parte  importante da vida de Ayrton Senna: aquele clubinho fechado, o Clube dos Amigos do Béco. Uma dezena de pessoas, por aí, que tinha acesso à resguardada senha dessa intimidade: o apelido de família. Gente como o Gordinho, que eu tinha conhecido na pista, o Cristiano, o Júnior, companheiros de rua da Zona Norte de São Paulo.
Aquela coisa: diga com quem andas e eu te direi quem és. Se aqueles dias em Angra foram a chance de conhecer a intimidade do maravilhoso ser humano Ayrton Senna, muito desse conhecimento foi revelado pelo contato travado com os amigos dele. Pois a vitória do GP do Brasil abriu a temporada de festas. Maria e Mateus, os encantadores caseiros, paixão do Béco (que eu acabaria por assumir também como minha paixão), estavam eufóricos. Mas recepção barulhenta mesmo, com direito a muito rabinho balançado e pulinhos de alegria, quem propiciou ao helicóptero foi a Quinda. Alegria logo transformada em agressiva ciumeira, ao notar que seu herói chegava acompanhado de  três mocinhas bonitinhas:
- Liga não - tranqüilizou o piloto, enquanto descia o helicóptero sobre o gramado daquele condomínio na praia de Portogallo. - Ela é muito possessiva.
Despudorada, a Quinda se jogou nos braços do Béco. Agarrei minha mala e fui me refugiar dentro de casa, deixando atrás de mim o som de rosnados ameaçadores. Pensei comigo mesma:
- Concorrer com essa aí, não vai ser fácil.


Nenhum comentário:

Postar um comentário