O helicóptero esperava por nós no heliporto do prédio de
escritórios dos Senna, no bairro de Santana. Como eu sinceramente queria
desanuviar, na viagem, sem nenhuma outra intenção além disso, foi um
alívio perceber que já esperavam por nós Norio Koike, um incansável japonês
freqüentador do circo da Fórmula 1 mas que acabou fotógrafo particular do
Ayrton, e duas meninas da Elite, duas outras Danielas, ou congêneres - a
Daniela Carvalho e a Danielle Aguiar. Alívio para mim, choque para elas, que
não esperavam me ver ali, chegando com o ídolo.
Primeira viagem de helicóptero, e logo com quem. Ele levava
ao pé da letra a palavra piloto. Carro, helicóptero, avião, lancha, jet-ski -
tinha a mania de estar sempre no comando das operações. Norio, ao lado dele.
Nós três atrás.
Eu, sem graça, me contorcendo para não roer as unhas de
ansiedade e condenada a servir de Cristo dele:
- Não se preocupe, não. Eu tive uma aulinha de direção antes
de a gente vir pra cá.
Tentei me distrair dividindo minha atenção com a paisagem e
minha curiosidade com o Norio. Como modelo, eu estava acostumada a filmes e a
equipamento fotográfico, mas o japonês extrapolava. Pendurava-se de incontáveis
máquinas e lentes, pequenas, médias, grandes, zooms, teleobjetivas,
grandes-angulares, etc. Carregava uma caixa com quinhentos filmes - isso mesmo,
quinhentos. Fiquei sabendo que, com aquela desconfiança que tinha da imprensa,
Ayrton só se deixava fotografar pelo Norio.
Sob o sol magnífico de Angra, um oriental da cor do tomate
era visto, clique, clique, perseguindo, empapado de suor, o seu cobiçado alvo.
Depois, revelava pessoalmente os filmes, colocava cromo por cromo nas cartelas
e destinava todo o material ao patrão - o qual, minucioso, cauteloso com sua
imagem, selecionava dali meia dúzia de fotos, nunca mais do que isso. Norio
tinha no sangue aquela elegante discrição que caracteriza sua gente. Só falava
inglês - pouco e, penso eu, propositalmente mal. Tenho certeza de que ele
entendia tudo o que nós dizíamos em português. De vez em quando, eu surpreendia
um brilho maroto em seus olhinhos vivos e inteligentes. Ele tratava de
despistar.
Ali no helicóptero, entre nervosa e ansiosa, observando o
japonês Norio, eu começava a tomar contato com uma parte importante da
vida de Ayrton Senna: aquele clubinho fechado, o Clube dos Amigos do Béco. Uma
dezena de pessoas, por aí, que tinha acesso à resguardada senha dessa
intimidade: o apelido de família. Gente como o Gordinho, que eu tinha conhecido
na pista, o Cristiano, o Júnior, companheiros de rua da Zona Norte de São Paulo.
Aquela coisa: diga com quem andas e eu te direi quem és. Se
aqueles dias em Angra foram a chance de conhecer a intimidade do maravilhoso
ser humano Ayrton Senna, muito desse conhecimento foi revelado pelo contato
travado com os amigos dele. Pois a vitória do GP do Brasil abriu a temporada de
festas. Maria e Mateus, os encantadores caseiros, paixão do Béco (que eu
acabaria por assumir também como minha paixão), estavam eufóricos. Mas recepção
barulhenta mesmo, com direito a muito rabinho balançado e pulinhos de alegria,
quem propiciou ao helicóptero foi a Quinda. Alegria logo transformada em
agressiva ciumeira, ao notar que seu herói chegava acompanhado de três
mocinhas bonitinhas:
- Liga não - tranqüilizou o piloto, enquanto descia o
helicóptero sobre o gramado daquele condomínio na praia de Portogallo. - Ela é
muito possessiva.
Despudorada, a Quinda se jogou nos braços do Béco. Agarrei
minha mala e fui me refugiar dentro de casa, deixando atrás de mim o som de
rosnados ameaçadores. Pensei comigo mesma:
- Concorrer com essa aí, não vai ser fácil.

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