Fiquei de posse daquele valioso tesouro. Escrito num
pedacinho de papel, o endereço - Rua Paraguai, 64, décimo sétimo andar. Prédio
de tijolinho, ele me explicou. O único da rua. Disse como chegar lá.
A aventura me atraía e me repelia. Eu, que durmo como uma
teenager, tive sobressaltos aquela noite, remoendo as idéias mais estapafúrdias
e regressando sempre para o mesmo ponto de interrogação:
- Mas por que eu?
(Agora que tudo passou, é a mesma pergunta que volta,
impiedosa.)
Não sabia aonde aquilo ia chegar. Mas foi alguma coisa além
de curiosidade feminina que me empurrou até o apartamento dele, no final da
manhã seguinte, quinta-feira, 10 de abril - foi alguma coisa que não sei bem o
que é. Ele me esperava com naturalidade e aquela carinha de menino indefeso.
Calça creme social, de preguinhas. Sem camisa - tórax rijo. Os pés descalços
deslizando pelo carpete alto, daqueles em que fica impossível encontrar a
tarracha de um brinco. Tudo muito respeitoso: ele se sentou numa poltrona a uma
distância razoável - bem razoável, eu me recordo - do sofá de couro onde me
instalei. Na sua mão, um copo de vitamina C efervescente.
Meu olhar de mulher passeou rapidamente pelo apartamento,
que ele dividia com o irmão, Léo - flat típico de solteiro, mas com móveis de
qualidade e um toque de muito bom gosto na decoração.
- E aí?
Ele se sentia tão inibido quanto eu. Dava para cortar o ar
com uma faca. Ele tomou a tímida iniciativa de quebrar o gelo:
- Muito prazer. Eu me chamo Ayrton Senna da Silva. Tenho 33
anos, não tenho namorada...
- Como não? Eu conheço sua namorada!
A perplexidade dele parecia sincera:
- Eu?
- Você, sim.
- Mas quem é ela?
- A Daniela (dei o nome completo).
- Como ela é, hein?
Por uma fração de segundo, achei que estava diante de um
cafajeste clássico. Descrevi: loira, olho azul, alta...
- Então é esse o nome dela? Ah, os efeitos perversos da
bebida. Logo eu que não bebo, penitenciava-se ele. Mas de vez em quando
acontece, de pura euforia. Ele foi enumerando: ao final do GP do Japão, em
1990, quando se sagrou bicampeão do mundo, um porre dos diabos; agora, naquelas
comemorações do GP do Brasil, dias atrás... Ele podia contar nos dedos as
situações em que perdera o controle.
Conversamos uma hora e meia. Em nenhum momento, eu enxergava
naquele ser humano descalço, que tomava vitamina C, o mitológico personagem de
macacão e capacete que enfeitiçava os fãs do automobilismo do mundo inteiro.
Para mim, era um momento especial e imprevisto. Falamos de tudo. De corrida, um
pouquinho. De vida, trabalho e sentimento, muito. Eu queria saber dele, mas ele
também queria saber de mim - e ouviu, com a maior paciência. Até reparou na
minha blusa, "linda" - rosashocking, de manga comprida, embora
fizesse um calor africano lá fora. Voltou, enfim, ao assunto Angra: iam muitas
pessoas, seria uma festa, nada de formalidades.
- Não sou do tipo de arrancar pedaço - brincou.
Na verdade, eu já estava decidida. Deixara a mala,
prontinha, prontinha, no meu carro. Guardei o carro na garagem do prédio,
entrei no Honda negro que eu tanto tinha invejado a distância, antes, e segui
em frente. Naquele fim de semana prolongado, eu, Adriane Galisteu, modelo, 19
aninhos, iria experimentar o doce prazer ambicionado por milhares e milhares de
mulheres de todo o planeta. O Ayrton Senna homem ia se apresentar, por inteiro,
a mim. Numa noite de céu estrelado, como recomendaria um conto de fadas.

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