. . Na manhã seguinte, já estava estacionada no meu lugar
habitual na Elite, ali na região da Avenida Faria Lima, quando olhei para a
janela e tive um sobressalto:
- Tô alucinando! - pensei comigo mesma.
O que eu via, na porta da agência, era um Honda negro,
reluzente de tão novinho, e dentro dele, pilotando, quem, quem? Ayrton Senna.
Como eu jamais bebo, menos ainda àquela hora da manhã, me assustei: delírio,
loucura. Aquele cara estava me fazendo mal.
Logo, logo, notei que tinha domínio perfeito de minhas
faculdades mentais. A aceleração que fez o carro - zzzuuuummmmmmmm - sumir na
esquina reforçava a idéia de que era mesmo ele, em pessoa, e não um fantasma.
De mais a mais, era inconfundivelmente de felicidade o sorriso que exibia no
rosto a Daniela, uma das meninas da Elite - que eu acabara de ver
desembarcando do carrão.
Daniela estava radiante:
- Vocês viram quem acabou de me deixar aqui na porta?
- Não, não. Quem? - a mulherada, curiosa, aglomerou.
- O Ayrton Senna. Meu novo namorado.
- Hummm... (dúvida, ciúme e jeito de pedir "conta
mais!")
- Pode acreditar. Ele é o máximo. Estou apaixonada.
Eu, com os meus botões: ela foi ao jantar que eu não fui.
A moça não era das mais discretas. Diante daquela platéia
alvoroçada, contou detalhes da noite íntima. Massagens nos pés, nas mãos, no
pescoço. E por aí vai. Minúcias das quais eu gravei, sei lá por que, um
detalhezinho:
- Gente, ele até botou pasta de dente na minha escova. (No
nosso primeiro encontro, quis fazer a mesma coisa comigo. Reagi na base do
"essa eu já manjo, cara".)
Loira de olhão azul. Mulheraço lindo. Gaúcha, a Daniela. O
carinha tinha bom gosto. E, de repente, estava todo mundo comentando que ia
haver uma churrascada em Angra. Relaxei: então, é uma festa. O convite é
geral. Peguei o telefone e disquei para ele.
- Pô, garotinha, você não apareceu - repreendeu,
carinhosamente. - E a Angra, você vem ou vai furar outra vez?
Tentei desconversar, louca, porém, para dizer sim:
- Não deu pra ir. Sobre Angra, eu já disse que preciso
conhecê-lo melhor.
Contra-ataque arisco, o dele:
- Estou querendo ir amanhã. Por que, antes disso, você não
passa pelo meu apartamento e a gente conversa?

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