quinta-feira, 6 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - Adriane Galisteu vai para uma festa em homenagem a Ayrton Senna e ele a surpreende ligando para ela no outro dia


Tempo de comemoração: os diretores da Shell anunciam uma festa-surpresa em homenagem ao campeão. Depois das dez da noite, no Limelight, uma boate da moda em São  Paulo. Todas as modelos estão convidadas, aliás, convocadas a comparecer. Arrastando-me de cansaço, sonho com minha caminha, para retemperar as energias gastas no trabalho e na surpreendente ansiedade que tomou conta de mim durante a prova.
Não gosto de boate, nem tenho saído à noite. Mas ligo no automático: tenho de ir. Não iria me arrepender. A noite ainda me traria muitas surpresas - ou, pelo menos, uma. Aquela pela qual, ainda que meio inconscientemente, eu começava a me interessar.
Ele deu uma de Cinderela às avessas: ao som das doze badaladas, apareceu. O Limelight regurgitava de gente, música e dança, à espera da estrela da tarde e do convidado da noite - o campeão. O sorriso dos garçons abria a passagem que o empurra-empurra dos tietes insistia em bloquear. Medi minha impaciência, senti o drama e consultei o staff da Shell: iria cumprimentar o Ayrton e me  retirar estrategicamente. Eu vestia jeans, miniblusa preta  - o calor estava diabólico -, usava um sapato de plataforma preto, nenhum traço de maquiagem. Era a própria  working girl. Uma bandana vermelha no pescoço foi o  máximo de futilidade que me permiti.
No que busquei, de novo, com o olhar, nosso convidado, eis que já o vejo muito bem instalado num camarote, sendo abraçado por outro herói nacional - Pelé. Mais o tal gordinho da corrida e o irmão dele, Leonardo, que eu conhecia de fotografia e de histórias, muitas contadas pelas modelos da Elite. E todo esse belo quadro emoldurado por pelo menos duas dezenas de mulheres bem bonitas e aparentemente bem disponíveis. Suspirei de alívio: diante daquilo, estava dispensada de qualquer figuração.
Antes de sair, quis apenas cumprir o protocolo. Abri caminho com os cotovelos até o camarote e fui dar meu alô. Mas o próprio Ayrton pediu ao segurança para dar passagem. Segurei na mão dele para um rápido parabéns. Senti que ele estava eufórico com tudo aquilo - a vitória, a comemoração, o paparico. Ele manteve a minha  mão na dele. Eu desconversei:
- Você foi o máximo. Estou aqui em nome da Shell...
Nada de soltar minha mão. Só para, de repente, pegar uma taça de champanhe e me oferecer:
- Comemore comigo.
- Obrigada, mas não bebo - disse.
- Mas é um dia especial. Eu ganhei. Não bebe nadinha?
- Nadinha, desculpa.
- Então, fica aqui com a gente.
- Mais uma vez, desculpa. Mas eu não estou gostando desse clima de camarote número 1.
Senti uma certa decepção no rosto dele, mas fiquei firme. Só me permiti um escorregão mais pessoal, antes de virar as costas:
- De qualquer modo, você tem meu telefone...
O gordinho amigo do Ayrton, o tal "assessor", ainda quis me segurar pelo braço:
- Espera aí, a gente vai dar um churrasco em Angra, no fim de semana, não quer ir?
Escapei com o clássico "a gente se fala".
Levei comigo aquela mistura de sentimento que vai desde "pô, ele me tocou" até o "isso é tudo um grande absurdo". Mas absurdo mesmo foi quando, às nove da manhã  do dia seguinte, a empregada veio me chamar, para o desespero de quem odeia ser despertada cedinho:
- Telefone. É um tal de Ayrton.
Aquele gordinho folgado - pensei, imaginando ouvir a voz do tal "assessor". Fui malcriada:
- E aí?
A voz serena e doce que ouvi foi uma ducha na minha irritação:
- A gente vai dar uma churrascada em Angra. Você não quer ir?
Vacilei. Disse que tinha muito trabalho pela frente, precisava de um tempo para responder. Pela primeira vez tomei contato com o estilo daquele que, não por  acaso, era o rei da velocidade.
- Agora... O que você vai fazer agora?
- Agora? Tenho um teste para um comercial.
Teste para um comercial. É a desculpa mais manjada no mundo das modelos. Só que, no caso, era a mais pura verdade. Eu diria até: uma irônica verdade. Teste para um comercial da Arisco - para figurar ao lado de ninguém menos do que Nelson Piquet. Até eu, até as pedras sabiam que Piquet era o maior inimigo de Ayrton Senna. Preferi guardar esse segredo dele.
Ele não desistiu:
- Então, depois do teste, me liga.
E me deu aquele telefone direto que faria o fascínio de tantas fãs e de tantos jornalistas. Celebrei, lá no estúdio, as virtudes do molho Tarantella, senti que agradei e não resisti à idéia do prometido telefonema.


Nenhum comentário:

Postar um comentário