Tempo de comemoração: os diretores da Shell anunciam uma
festa-surpresa em homenagem ao campeão. Depois das dez da noite, no Limelight,
uma boate da moda em São Paulo. Todas as modelos estão convidadas, aliás,
convocadas a comparecer. Arrastando-me de cansaço, sonho com minha caminha,
para retemperar as energias gastas no trabalho e na surpreendente ansiedade que
tomou conta de mim durante a prova.
Não gosto de boate, nem tenho saído à noite. Mas ligo no
automático: tenho de ir. Não iria me arrepender. A noite ainda me traria muitas
surpresas - ou, pelo menos, uma. Aquela pela qual, ainda que meio
inconscientemente, eu começava a me interessar.
Ele deu uma de Cinderela às avessas: ao som das doze
badaladas, apareceu. O Limelight regurgitava de gente, música e dança, à espera
da estrela da tarde e do convidado da noite - o campeão. O sorriso dos garçons
abria a passagem que o empurra-empurra dos tietes insistia em bloquear. Medi
minha impaciência, senti o drama e consultei o staff da Shell: iria
cumprimentar o Ayrton e me retirar estrategicamente. Eu vestia jeans,
miniblusa preta - o calor estava diabólico -, usava um sapato de
plataforma preto, nenhum traço de maquiagem. Era a própria working girl.
Uma bandana vermelha no pescoço foi o máximo de futilidade que me permiti.
No que busquei, de novo, com o olhar, nosso convidado, eis
que já o vejo muito bem instalado num camarote, sendo abraçado por outro herói
nacional - Pelé. Mais o tal gordinho da corrida e o irmão dele, Leonardo, que
eu conhecia de fotografia e de histórias, muitas contadas pelas modelos da
Elite. E todo esse belo quadro emoldurado por pelo menos duas dezenas de
mulheres bem bonitas e aparentemente bem disponíveis. Suspirei de alívio:
diante daquilo, estava dispensada de qualquer figuração.
Antes de sair, quis apenas cumprir o protocolo. Abri caminho
com os cotovelos até o camarote e fui dar meu alô. Mas o próprio Ayrton pediu
ao segurança para dar passagem. Segurei na mão dele para um rápido
parabéns. Senti que ele estava eufórico com tudo aquilo - a vitória, a
comemoração, o paparico. Ele manteve a minha mão na dele. Eu desconversei:
- Você foi o máximo. Estou aqui em nome da Shell...
Nada de soltar minha mão. Só para, de repente, pegar uma
taça de champanhe e me oferecer:
- Comemore comigo.
- Obrigada, mas não bebo - disse.
- Mas é um dia especial. Eu ganhei. Não bebe nadinha?
- Nadinha, desculpa.
- Então, fica aqui com a gente.
- Mais uma vez, desculpa. Mas eu não estou gostando desse
clima de camarote número 1.
Senti uma certa decepção no rosto dele, mas fiquei firme. Só
me permiti um escorregão mais pessoal, antes de virar as costas:
- De qualquer modo, você tem meu telefone...
O gordinho amigo do Ayrton, o tal "assessor",
ainda quis me segurar pelo braço:
- Espera aí, a gente vai dar um churrasco em Angra, no
fim de semana, não quer ir?
Escapei com o clássico "a gente se fala".
Levei comigo aquela mistura de sentimento que vai desde
"pô, ele me tocou" até o "isso é tudo um grande absurdo".
Mas absurdo mesmo foi quando, às nove da manhã do dia seguinte, a
empregada veio me chamar, para o desespero de quem odeia ser despertada cedinho:
- Telefone. É um tal de Ayrton.
Aquele gordinho folgado - pensei, imaginando ouvir a voz do
tal "assessor". Fui malcriada:
- E aí?
A voz serena e doce que ouvi foi uma ducha na minha
irritação:
- A gente vai dar uma churrascada em Angra. Você não quer ir?
Vacilei. Disse que tinha muito trabalho pela frente,
precisava de um tempo para responder. Pela primeira vez tomei contato com o
estilo daquele que, não por acaso, era o rei da velocidade.
- Agora... O que você vai fazer agora?
- Agora? Tenho um teste para um comercial.
Teste para um comercial. É a desculpa mais manjada no mundo
das modelos. Só que, no caso, era a mais pura verdade. Eu diria até: uma
irônica verdade. Teste para um comercial da Arisco - para figurar ao lado de ninguém
menos do que Nelson Piquet. Até eu, até as pedras sabiam que Piquet era o maior
inimigo de Ayrton Senna. Preferi guardar esse segredo dele.
Ele não desistiu:
- Então, depois do teste, me liga.
E me deu aquele telefone direto que faria o fascínio de tantas
fãs e de tantos jornalistas. Celebrei, lá no estúdio, as virtudes do molho
Tarantella, senti que agradei e não resisti à idéia do prometido telefonema.

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