Diante do Club Sporting, a passadeira vermelha, o público
igual ao do Oscar e as câmeras fotográficas esperavam pelos príncipes de
Mônaco. Os que dão expediente o ano todo. E o que pontifica no dia do GP -
nesse, acompanhado da sua princesa, "a misteriosa loira brasileira".
Claro que, na correria do banho e da escolha da roupa, sofri a típica doença feminina:
achei que não tinha roupa. Ele, elegante com seu smoking, mostrou como uma
vitória produz homens pacientes e tolerantes. Pois ele se encarregou:
- Eu decido.
E decidiu-se por aquele tal vestido bem pouco protocolar,
com salto alto e meia preta grossa.
- Mas... - ainda tentei argumentar.
- Está linda.
O auditório estava apinhado. Ficamos bem no centro da mesa
principal. Eu olhava para o lado e via o príncipe Albert. Virava para o outro,
Michael Douglas. E aquela menina bonita? Ah, a Cindy Crawford, com seu namoradão
grisalho e charmosérrimo, Richard Gere. De repente, quem está olhando para mim,
quase em frente? A princesa Carolina. Faço um aceno protocolar com a cabeça e
abaixo os olhos, morta de inibição. Nunca se viu tanta concentração per capita
de beleza e fama. É que, naquele ano, o GP de Mônaco coincidiu com o Festival
de Cinema de Cannes e todo mundo acorreu para a boca-livre. Sem falar das
estrelas do próprio circo: Nick Lauda, Jackie Stewart, Ron Dennis.
O garçom veio nos servir:
- Champagne, mademoiselle?
- Merci, Coca-Colá.
Outro homem teria me dado um beliscão por baixo da mesa, mas
o meu Béco foi solidário com a minha criancice:
- Então, duas Coca-Colás.
Galvão Bueno, subitamente, ameaçou um piripaque. Afrouxou a
gravata, botou a mão no coração, saiu para tomar ar fresco. Ayrton se
preocupou, assim como nós, da turma dos brasileiros. Mas logo se percebeu que
ia passar. Por isso mesmo, Béco se permitiu uma molecagem. Chamou uma
ambulância e obrigou o constrangido Galvão a entrar, com suas próprias pernas,
na barulhenta ambulância. Jurou vingança. Menos de uma hora depois, estava de
volta, inteiro, na boate onde a festa se estendeu.
Depois da entrega de prêmios, a esticada foi no Jimmy's, o
night club da moda. Novas homenagens - e uma platéia bem mais informal e
eclética. Muitos dos pilotos - Prost, lá do outro lado, na reta oposta,
Berger, Patrese -, figurões do big business do automobilismo, como o Mansour
Ojjeh, sócio majoritário da McLaren, e algumas roadies do circuito, como a
Sylvia Piquet, ex-mulher do Nelson.
Tínhamos uma mesa de pista e senti que o Ayrton, que não
fazia exatamente o tipo rei da noite, começou a se remexer, inquieto, e a
afrouxar o laço da gravata-borboleta à medida que um elenco de mulheres
muito desinibidas veio exibir suas, digamos assim, virtudes, sem o menor
constrangimento, bem diante dele. Eu não hei de me esquecer especialmente de
uma mulher lindíssima, que tinha corpo e ritmo de bailarina mas cujo vestido de
noite consistia numa pecinha menor do que uma blusa. Ela olhava para o Ayrton e
lançava vigorosamente as pernas até a altura da cabeça. Detalhezinho: a moça estava
exatamente como Lílian Ramos no Carnaval carioca de 1994.
- Estou fingindo que não vejo - me cutucou ele, rindo.
A noitada foi ficando para os que tinham bebido demais e
para os que tinham se vestido de menos. Não era o nosso caso. Felizes como duas
crianças, Béco e eu ainda resolvemos pregar uma última peça. Os amigos diziam
que ele era um irremediável pão-duro. Naquela boate onde a dose do scotch
custava quase 100 dólares e onde litros e litros de champanhe tinham enchido os
copos na nossa mesa, o suposto mão fechada Ayrton tomou a iniciativa de ir
sorrateiramente até o caixa, acertar a conta, mas combinar com o garçom um
susto no Marquinhos Magalhães Pinto, banqueiro, filho de mineiro e outro que
não por acaso carregava a mesma reputação. Galvão e Oscar eram nossos cúmplices
na cilada:
- Estamos indo. Tchau.
O garçom fingiria que a conta não tinha sido paga. Mais do
que isso: multiplicaria por cinco as despesas. Assim foi feito: quarenta
minutos depois, Marquinhos, que era nosso hóspede no apartamento, apareceu
lívido, com uma expressão de puro desespero. Alguns milhares de dólares por uma
noite - até um banqueiro é capaz de baquear.
- Acho que vou ter de trabalhar o resto da vida.
Uma gargalhada, a enésima daquele dia de vitórias e
alegrias, acompanhou o hexacampeão de Mônaco até a cama, abraçado a mim. Sou
dona de um sono adolescente: é entrar nos lençóis, fechar os olhos e apagar.
Ele, ao contrário, é do tipo que custa a pegar no sono. Naquela noite, depois
de tudo, eu tinha o corpo moída mas a cabeça ligada:
- É um sonho? É verdade?
Já não me importava fazer essa distinção. Queria viver
aquilo, em que esfera se passasse. Realidade e ilusão valem a pena, quando uma
ou outra coisa aquece o coração.

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