Ele escolheu a dedo o lugar para me introduzir nos
bastidores da Fórmula 1. Um principado. Onde ele era, fazia tempo, o verdadeiro
príncipe. Convidava-me para ser, por uma semana, sua princesa. Pode
parecer engraçado que eu, aos 20 anos, surpresa com aquela homenagem carregada
do mais nobre simbolismo, tenha pedido um tempo para "consultar a
mamãe".
- Pedir licença a sua mãe? - ele ficou perplexo.
- Não é moralismo, não - tive de explicar. - É que sempre
conto tudo a ela. E confio no seu sexto sentido: quando diz não, sei que é
melhor não.
Viagem inesquecível: regada a sangue, glamour e amor, muito
amor. Deixa que eu conto.
17 de maio, uma segunda-feira, lá estava eu, no aeroporto,
malas prontas - obrigada, mãe, pela ajuda -, razoavelmente ansiosa com a
perspectiva de competir com as pérolas, as tiaras, os diamantes, os vestidos
assinados com que eu haveria de cruzar, nos périplos de Mônaco e Monte
Carlo. Tinha dado um reforço no figurino, para a ocasião. Mas meu estilo era
Forum, Zoomp, Viva a Vida, Bicho da Seda - compatível com minha idade,
identificado com meu gosto. Relaxei: vou ser o que eu sou. Por via das dúvidas,
pensei: já que me faltam jóias, vou compensar nos creminhos. E embalei todos. Pois
foi sentar no avião e pedir à aeromoça uma Coca-Cola para o Béco me adular com
aquele empurrão de segurança que poderia me faltar:
- Você sabe do que eu mais gosto em você? É desse seu jeitão
garoto de quem está sempre curtindo a novidade. Ele odiava a rotina das viagens
aéreas. Cumpria um ritual automático, meio blasé: retirava da pasta um moletom
azul-bebê, clarinho, uma t-shirt branca, trocava-se no toalete, já voltava com
os ouvidos protegidos por um ear-plug, recostava a cadeira e tentava pegar no
sono. Não se interessava pela comida, muito menos pela bebida ou pelo filme - a
viagem de avião ele queria que fosse a distância mais rápida e imperceptível
entre dois pontos. A tensão de vez em quando se transformava em insônia. Mas
a minha companhia, daquele dia em diante, o acalmava.
Aos 5 anos de idade, eu tanto infernizei minha mãe que ela
conseguiu que minha tia me levasse para conhecer aquilo que eu cobrava, dia
após dia. Queria porque queria subir até o pico do Jaraguá, o ponto culminante
da minha cidade de São Paulo. Pico do Jaraguá pra cá, pico do
Jaraguá pra lá. Até que um dia eu fui. Cheguei no alto, depois de uma
subida longa e atribulada, e reclamei:
- Que pocaria de pito!
Não sei porque essa história de infância, contada com afeto
especial por minha madrinha, me veio à cabeça quando, depois do longo vôo
até Nice, via Paris, mais o trajeto de helicóptero até o principado, eu me dei
de cara com aquela cidadezinha acanhada cuja lenda e cujo fascínio não
transpareciam à primeira vista. Ao longo dos dias, e especialmente das noites,
quando via senhoras vestidas de Dior e com sapatos Gucci pelas elegantes
alamedas, conduzindo seus poodles para um último pipi, como quem se dirigisse
para uma ceia com o sultão de Brunei, percebi que se tratava de um gueto - de
privilégio, bom gosto, preços astronômicos, acesso fechado, narizes empinados.
Tem sua graça. Sobretudo se a pessoa que você ama vai ser a estrela principal
daquela festa.
Ele tinha um apartamento em Mônaco - pequeno, muito bem
decorado, na medida para quem passava ali apenas uma semana por ano, a semana
do GR Diferente de outros tempos, em que chegou a ser proprietário de um
apartamento enorme, praticamente seu QG europeu até o dia em que se converteu
às delícias de Portugal, de Sintra e do Algarve; passou-o nos dólares e partiu
em direção ao sol. De uma coisa, porém, ele fazia questão, fosse o lugar grande
ou pequeno, freqüentasse-o ele muito ou pouco tempo. A casa tinha de estar
funcionando, à sua chegada. E, em Mônaco, a perfeição tinha um nome: Isabel, a
cozinheira-arrumadeira-faz-tudo portuguesa. Ela me conquistou de cara:
- Bem que a Maria (caseira de Angra) me disse que você é
linda.
Naquele momento, tomei contato com o circuito casamenteiro
que operava aos sussuros entre as várias casas do Ayrton, a Isabel, a Maria (de
Sintra), a Maria (de Angra), a Juraci (do Algarve), todas mobilizadas em sua
missão de Santo Antônio: uma mulher faria muito bem ao campeão. Percebi que as
alegres alcoviteiras começavam a botar suas fichas - e, desconfio, até suas
rezas - em mim.
- Você faz bem ao garoto - diria, na despedida, a Isabel.
Quantas vezes mais eu não ouviria essa mesma frase, dita pelas pessoas mais
diferentes, dita até por ele mesmo? Bom que tenha sido assim; pena que não seja
mais. Paredes com cheiro de tinta nova e o carpete imaculado sugeriam o
capricho para a recepção anual ao príncipe Ayrton. Para mim, marinheira
de primeira viagem, tudo significava uma descoberta - menos o que eu lhe
oferecer. Retirei-me para uma ducha quente. Liguei a torneira, lambuzei-me de
sabão, cantarolava alegremente quando ouvi um insistente tac, tac - como se um
pedreiro martelasse do outro lado da parede. Tac, tac, tac, tac... De repente,
o boxe desabou - o boxe, não, os azulejos, todos eles, um após outro,
espatifando-se no chão, riscando na queda as minhas costas, cortando meus
pés com seus caquinhos. Enrolei-me numa toalha e corri para nosso quarto, em pânico.
O sangue descrevia uma trilha no carpete branquinho, branquinho. Ayrton estava
ao telefone. Desligou, assustado, e correu para me acudir.
Só tive tempo de balbuciar:
- É que tenho um probleminha... Não posso ver sangue que...
Desabei do alto do meu 1,74 metro . Menos mal:
nos braços dele. Quando despertei, ele tinha me colocado na cama e
enrolava um carinhoso Band-Aid no meu dedinho. Nos dias seguintes,
brincava comigo diante dos mais chegados: "Sua pamonha!" Estávamos no
principado de Mônaco, era minha primeira viagem internacional com ele e logo
aquele vexame!
- Achei lindo - me acalmou. - Nunca mulher nenhuma desmaiou
nos meus braços.
Se não estivesse deitada, eu desmaiaria outra vez. Naquele
mesmo dia, ao tentar fazer um furo extra num cinto novo - sempre às voltas com
cintos, vocês já repararam, né? -, ele espetou o dedo. Senti que tratou de
esconder de mim.
A primavera na Riviera, com suas noites límpidas e o vento
aconchegante que o Mediterrâneo traz da África, é para ser passada a
dois, agarradinhos. Foi assim naquela noite de chegada - e em todas as
outras. Ele me pegou pela mão e disse:
- Quero mostrar-lhe uma coisa.
Caminhamos até a entrada da pista - na verdade, até um
portão onde guardas velavam para que nenhum veículo trafegasse naquele circuito
de rua, já então fechado, por onde voam as máquinas da Fórmula 1. Ayrton Senna
- apresentou-se ele. As portas se abriram para nós e ele foi me mostrando, a
pé, calmamente, minuciosamente, cada um dos ziguezagues daquela pista onde ele
era o professor. Uma aula, para uma - não me envergonho de confessar - leiga no
assunto:
- Aqui, eu freio (e deitava-se no asfalto, em busca de
alguma marca de pneu). A velocidade vai para 80... Nessa reta, piso embaixo...
Agora, repara bem no traçado: você entraria nessa curva de que lado? Pois
é, eu entro do outro lado. É mais seguro e ganho tempo.
Senti seu orgulho em dividir comigo os valiosos segredos de
sua mestria. Senti seu desejo de me ter a seu lado, naquele mundo que era sua
vocação e seu business. Tanto que, raro freqüentador da noite, ele, terminada a
caminhada, se animou:
- Quero mostrar-lhe o cassino.
- Mas como? Você não joga, eu não jogo.
- Só hoje, só hoje.
Fiquei nas moedinhas e no jackpot. Fracasso total. Ele
propôs um sete e meio. Trocou 300 dólares em fichas, só para brincar, e o
dinheiro foi escorrendo rapidamente pelo ralo. Um amigo dele, que jogava
na mesa ao lado, veio se juntar a nós. Perdeu tudo. Brincou com Ayrton:
- Lá, eu estava ganhando uma fortuna. Vim pra perto de
vocês, naufraguei. Acho que esse não é mesmo seu esporte.
A felicidade estava estampada no rosto do Béco. Garçons,
croupiers, recepcionistas, convidados inclinavam-se à nossa, passagem como se
ele fosse o mais ilustre membro da casa dos Grimaldi. Mas se permitiam a
intimidade plebéia da saudação alegre "Senná, Senná". O amigo mandou
vir um presente: uma caixa de trufas suíças. As mais deliciosas trufas que
jamais saboreei na vida. De volta ao apartamento, não restava uma única trufa
para contar a história.
O GP de Mônaco, em Monte Carlo, não só era uma prova do
calendário automobilístico. Era também um tremendo acontecimento social.
Atrizes, modelos, colunáveis, arrivistas acorriam para ganhar uma foto ao lado
das cabeças coroadas do principado e dos ídolos da velocidade. Vocês vão se
surpreender quando, logo, logo, eu contar quem é que apareceu numa dessas
badalações - felizmente, e aqui eu já dou uma pista, com a devida roupa de
baixo.
Compromisso obrigatório, nós teríamos um - jantar de gala
para os pilotos da Marlboro. Talvez dois - a festa da vitória, desde que, é
claro, fosse ele o vencedor. Como Senna e o circuito de Mônaco mantinham desde
1987 uma tórrida relação de amor (pentacampeão, nada menos do que isso), achei
melhor me preparar para a segunda eventualidade. Tinha à mão três vestidos de
noite - quatro se contasse outro, curtíssimo, da Forum, vermelho e preto, fechado
por um zíper na frente, figurino um tanto ousado se você vai se sentar ao lado
do príncipe Rainier.
Na carona de sua Ducati 900 (ele tinha uma igual, descobri
depois, na sua fazenda Dois-Lagos no interior de São Paulo), com o capacete de
reserva dele, as mesmas cores, verde-amarelo, o nome Nacional em destaque,
tomei meu primeiro contato com o nervoso burburinho dos boxes e dos motor homes
- aquele aflito mundo que as câmeras de tevê não captam, durante os
treinos ou nas provas da Fórmula 1. Era véspera do primeiro treino oficial e
ele tinha todo um dia de trabalho pela frente - reuniões com os mecânicos,
checagem do motor, encontros de negócio com patrocinadores. Mas quis me deixar
à vontade: conduziu-me pela mão até o motor home da Tag Heuer e me apresentou a
um por um, do mais graduado técnico da McLaren ao mecânico que troca os pneus.
Depois, troquei o primeiro alô com aquele que, viria eu a descobrir depois,
era, entre todos os malucos do volante, aquele de quem Ayrton se podia dizer
amigo - amigão, incondicional, com todas as letras.
Seu ex-parceiro de escuderia, Gerhard Berger. Se esse
austríaco molecão e de alma de manteiga ainda tinha até hoje dúvida sobre esse
sentimento muito especial do Ayrton, que fique sabendo por mim, agora, que
comemore, ou que chore - mas posso dar o testemunho de dez, vinte, cem vezes
que o Ayrton me disse isso.
Eu me dava conta de outras pessoas que emprestavam brilho ao
lado oculto da festa. Não bastasse nada, conheci, enfim, de verdade, o Bragota
- o banqueiro Antônio Carlos de Almeida Braga, aquele senhor que, no GP
do Brasil, me dera o toque meio brincalhão sobre o Ayrton. Era uma delícia:
- Não lhe falei, garotinha? - brincou aquele gozador e
esportista full time, capaz de sair de uma final de Wimbledon no sábado para
assistir a um torneio de golfe no Havaí no domingo. - Disse que ia rolar
namoro, pápum. Agora digo que vai pintar casamento.
Os protagonistas da Fórmula 1 iam se revelando, assim como
os figurantes. Com o Braguinha, fui ser apresentada ao Rubinho Barrichello. Aí
apareceu a Betise Assumpção, assessora de imprensa do Ayrton. Sensacional,
muito divertida, depois amicíssima - de quem guardo tanta saudade. Chegaram
Oscar Guerra e Marquinhos Magalhães Pinto, amigos de velha data e patrocinadores,
via Banco Nacional. De cinco em cinco minutos, um preocupado Ayrton botava a
cara para fora do motor home. Queria me ver:
- Tudo bem?
- Tudo bem - eu também estava louca para vê-lo a cada
segundo.
Fiquei ali quatro horas, me pareceram quatro minutos. Ao
lado ele, o tempo parava. No dia seguinte, ele quis me poupar: treino oficial,
levantar às sete da manhã, era melhor que eu ficasse em casa, descansando.
Alguém se encarregaria de me levar ao circuito. Mas era como se o circuito de
rua atravessasse a minha cama. Pulei fora. Vivi aquela eterna dúvida das
mulheres sobre que roupa usar. Fui ao quarto do Marquinhos consultá-lo.
- Tá boa a roupa?
Ia acender a luz, mas ele:
- Só não acende a luz.
Acendi. Ele, desesperado, cortando a conversa:
- Tá bem, tá bem. Agora apaga.
Fui acompanhar os treinos. Encontrei o Béco animado, otimista.
E, como ele, o risonho Braga. Incorporara-se à trupe o Papagaio - tio Papagaio,
eu preferi em sinal de respeito. Na vida civil, Galvão Bueno. Locutor da Globo
para a temporada de Fórmula l, assim como para os outros triunfos canarinhos no
futebol, no vôlei, no basquete, no tênis, etc, etc. Simpatia à primeira vista:
ele me convidou para assistir à prova da cabine da emissora.
Em Mônaco, estreei também o lado speed das pistas.
Perseguição implacável dos paparazzi. Era desfilar de mãos dadas com o Ayrton
diante das arquibancadas e a galera ia literalmente à loucura. Gritava elogios
para nós. Curiosamente, para mim em italiano. Penso em Marcello Mastroianni e
me convenço de que o italiano talvez seja a língua da sedução. Ayrton apertava
ainda mais minha mão. Era o enésimo atestado de amor. É sempre gratificante
para uma mulher ser admirada. Em especial se, de repente, o elogio traz o nome
Giorgio Armani e uma pergunta meio exploratória sobre se uma moça tão bonita
não estaria interessada em desfilar tal coleção. Uma pergunta dessas na
Elite teria o efeito de um maremoto.

Nenhum comentário:
Postar um comentário