sexta-feira, 7 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - Ayrton Senna leva Adriane Galisteu pra Monaco




Ele escolheu a dedo o lugar para me introduzir nos bastidores da Fórmula 1. Um principado. Onde ele era, fazia tempo, o verdadeiro príncipe. Convidava-me para ser,  por uma semana, sua princesa. Pode parecer engraçado que eu, aos 20 anos, surpresa com aquela homenagem carregada do mais nobre simbolismo, tenha pedido um tempo para "consultar a mamãe".
- Pedir licença a sua mãe? - ele ficou perplexo.
- Não é moralismo, não - tive de explicar. - É que sempre conto tudo a ela. E confio no seu sexto sentido: quando diz não, sei que é melhor não.
Viagem inesquecível: regada a sangue, glamour e amor, muito amor. Deixa que eu conto.
17 de maio, uma segunda-feira, lá estava eu, no aeroporto, malas prontas - obrigada, mãe, pela ajuda -,  razoavelmente ansiosa com a perspectiva de competir com as pérolas, as tiaras, os diamantes, os vestidos assinados com que eu haveria de cruzar, nos périplos de  Mônaco e Monte Carlo. Tinha dado um reforço no figurino, para a ocasião. Mas meu estilo era Forum, Zoomp, Viva a Vida, Bicho da Seda - compatível com minha idade, identificado com meu gosto. Relaxei: vou ser o que eu sou. Por via das dúvidas, pensei: já que me faltam jóias, vou compensar nos creminhos. E embalei todos. Pois foi sentar no avião e pedir à aeromoça uma Coca-Cola para o Béco me adular com aquele empurrão de segurança que poderia me faltar:
- Você sabe do que eu mais gosto em você? É desse seu jeitão garoto de quem está sempre curtindo a novidade. Ele odiava a rotina das viagens aéreas. Cumpria um ritual automático, meio blasé: retirava da pasta um moletom azul-bebê, clarinho, uma t-shirt branca, trocava-se no toalete, já voltava com os ouvidos protegidos por um ear-plug, recostava a cadeira e tentava pegar no sono. Não se interessava pela comida, muito menos pela bebida ou pelo filme - a viagem de avião ele queria que fosse a distância mais rápida e imperceptível entre dois pontos. A tensão de vez em quando se transformava em insônia. Mas a minha companhia, daquele dia em diante, o acalmava.
Aos 5 anos de idade, eu tanto infernizei minha mãe que ela conseguiu que minha tia me levasse para conhecer aquilo que eu cobrava, dia após dia. Queria porque queria subir até o pico do Jaraguá, o ponto culminante da  minha  cidade de São Paulo. Pico do Jaraguá pra cá, pico do Jaraguá pra lá. Até que um dia eu fui. Cheguei no alto,  depois de uma subida longa e atribulada, e reclamei:
- Que pocaria de pito!
Não sei porque essa história de infância, contada com afeto especial por minha madrinha, me veio à cabeça  quando, depois do longo vôo até Nice, via Paris, mais o trajeto de helicóptero até o principado, eu me dei de cara com aquela cidadezinha acanhada cuja lenda e cujo fascínio não transpareciam à primeira vista. Ao longo dos dias, e especialmente das noites, quando via senhoras vestidas de Dior e com sapatos Gucci pelas elegantes alamedas, conduzindo seus poodles para um último pipi, como quem se dirigisse para uma ceia com o sultão de Brunei, percebi que se tratava de um gueto - de privilégio, bom gosto, preços astronômicos, acesso fechado, narizes empinados. Tem sua graça. Sobretudo se a pessoa que você ama vai ser a estrela principal daquela festa.
Ele tinha um apartamento em Mônaco - pequeno, muito bem decorado, na medida para quem passava ali apenas uma semana por ano, a semana do GR Diferente de outros tempos, em que chegou a ser proprietário de um apartamento enorme, praticamente seu QG europeu até o dia em que se converteu às delícias de Portugal, de Sintra e do Algarve; passou-o nos dólares e partiu em direção ao sol. De uma coisa, porém, ele fazia questão, fosse o lugar grande ou pequeno, freqüentasse-o ele muito ou pouco tempo. A casa tinha de estar funcionando, à sua chegada. E, em Mônaco, a perfeição tinha um nome: Isabel, a cozinheira-arrumadeira-faz-tudo portuguesa. Ela  me conquistou de cara:
- Bem que a Maria (caseira de Angra) me disse que você é linda.
Naquele momento, tomei contato com o circuito casamenteiro que operava aos sussuros entre as várias casas do Ayrton, a Isabel, a Maria (de Sintra), a Maria (de Angra), a Juraci (do Algarve), todas mobilizadas em sua missão de Santo Antônio: uma mulher faria muito bem ao campeão. Percebi que as alegres alcoviteiras começavam a botar suas fichas - e, desconfio, até suas rezas - em mim.
- Você faz bem ao garoto - diria, na despedida, a Isabel. Quantas vezes mais eu não ouviria essa mesma frase, dita pelas pessoas mais diferentes, dita até por ele mesmo? Bom que tenha sido assim; pena que não seja mais. Paredes com cheiro de tinta nova e o carpete imaculado sugeriam o capricho para a recepção  anual ao príncipe Ayrton. Para mim, marinheira de primeira viagem, tudo significava uma descoberta - menos o que eu lhe oferecer. Retirei-me para uma ducha quente. Liguei a torneira, lambuzei-me de sabão, cantarolava alegremente quando ouvi um insistente tac, tac - como se um pedreiro martelasse do outro lado da parede. Tac, tac, tac, tac... De repente, o boxe desabou - o boxe, não, os azulejos, todos eles,  um após outro, espatifando-se no chão, riscando na queda  as minhas costas, cortando meus pés com seus caquinhos. Enrolei-me numa toalha e corri para nosso quarto, em  pânico. O sangue descrevia uma trilha no carpete branquinho, branquinho. Ayrton estava ao telefone. Desligou,  assustado, e correu para me acudir.
Só tive tempo de balbuciar:
- É que tenho um probleminha... Não posso ver sangue que...
Desabei do alto do meu 1,74 metro. Menos mal: nos  braços dele. Quando despertei, ele tinha me colocado na cama e enrolava um carinhoso Band-Aid no meu dedinho.  Nos dias seguintes, brincava comigo diante dos mais chegados: "Sua pamonha!" Estávamos no principado de Mônaco, era minha primeira viagem internacional com ele e logo aquele vexame!
- Achei lindo - me acalmou. - Nunca mulher nenhuma desmaiou nos meus braços.
Se não estivesse deitada, eu desmaiaria outra vez. Naquele mesmo dia, ao tentar fazer um furo extra num cinto novo - sempre às voltas com cintos, vocês já repararam, né? -, ele espetou o dedo. Senti que tratou de esconder de mim.
A primavera na Riviera, com suas noites límpidas e o vento aconchegante que o Mediterrâneo traz da África, é  para ser passada a dois, agarradinhos. Foi assim naquela noite de chegada - e em todas as outras. Ele me pegou pela mão e disse:
- Quero mostrar-lhe uma coisa.
Caminhamos até a entrada da pista - na verdade, até um portão onde guardas velavam para que nenhum veículo trafegasse naquele circuito de rua, já então fechado, por onde voam as máquinas da Fórmula 1. Ayrton Senna - apresentou-se ele. As portas se abriram para nós e ele foi me mostrando, a pé, calmamente, minuciosamente, cada um dos ziguezagues daquela pista onde ele era o professor. Uma aula, para uma - não me envergonho de confessar - leiga no assunto:
- Aqui, eu freio (e deitava-se no asfalto, em busca de alguma marca de pneu). A velocidade vai para 80... Nessa reta, piso embaixo... Agora, repara bem no traçado: você entraria nessa curva de que lado? Pois é, eu entro do outro lado. É mais seguro e ganho tempo.
Senti seu orgulho em dividir comigo os valiosos segredos de sua mestria. Senti seu desejo de me ter a seu lado, naquele mundo que era sua vocação e seu business. Tanto que, raro freqüentador da noite, ele, terminada a caminhada, se animou:
- Quero mostrar-lhe o cassino.
- Mas como? Você não joga, eu não jogo.
- Só hoje, só hoje.
Fiquei nas moedinhas e no jackpot. Fracasso total. Ele propôs um sete e meio. Trocou 300 dólares em fichas, só para brincar, e o dinheiro foi escorrendo rapidamente  pelo ralo. Um amigo dele, que jogava na mesa ao lado, veio se juntar a nós. Perdeu tudo. Brincou com Ayrton:
- Lá, eu estava ganhando uma fortuna. Vim pra perto de vocês, naufraguei. Acho que esse não é mesmo seu esporte.
A felicidade estava estampada no rosto do Béco. Garçons, croupiers, recepcionistas, convidados inclinavam-se à nossa, passagem como se ele fosse o mais ilustre  membro da casa dos Grimaldi. Mas se permitiam a intimidade plebéia da saudação alegre "Senná, Senná". O amigo mandou vir um presente: uma caixa de trufas suíças. As mais deliciosas trufas que jamais saboreei na vida. De volta ao apartamento, não restava uma única trufa para contar a história.
O GP de Mônaco, em Monte Carlo, não só era uma prova do calendário automobilístico. Era também um tremendo acontecimento social. Atrizes, modelos, colunáveis, arrivistas acorriam para ganhar uma foto ao lado das cabeças coroadas do principado e dos ídolos da velocidade. Vocês vão se surpreender quando, logo, logo, eu contar quem é que apareceu numa dessas badalações - felizmente, e aqui eu já dou uma pista, com a devida roupa de baixo.
Compromisso obrigatório, nós teríamos um - jantar de gala para os pilotos da Marlboro. Talvez dois - a festa da vitória, desde que, é claro, fosse ele o vencedor. Como Senna e o circuito de Mônaco mantinham desde 1987 uma tórrida relação de amor (pentacampeão, nada menos do que isso), achei melhor me preparar para a segunda eventualidade. Tinha à mão três vestidos de noite - quatro se contasse outro, curtíssimo, da Forum, vermelho e preto, fechado por um zíper na frente, figurino um tanto ousado se você vai se sentar ao lado do príncipe Rainier.
Na carona de sua Ducati 900 (ele tinha uma igual, descobri depois, na sua fazenda Dois-Lagos no interior de São Paulo), com o capacete de reserva dele, as mesmas cores, verde-amarelo, o nome Nacional em destaque, tomei meu primeiro contato com o nervoso burburinho dos boxes e dos motor homes - aquele aflito mundo que as câmeras  de tevê não captam, durante os treinos ou nas provas da Fórmula 1. Era véspera do primeiro treino oficial e ele tinha todo um dia de trabalho pela frente - reuniões com os mecânicos, checagem do motor, encontros de negócio com patrocinadores. Mas quis me deixar à vontade: conduziu-me pela mão até o motor home da Tag Heuer e me apresentou a um por um, do mais graduado técnico da McLaren ao mecânico que troca os pneus. Depois, troquei o primeiro alô com aquele que, viria eu a descobrir depois, era, entre todos os malucos do volante, aquele de quem Ayrton se podia dizer amigo - amigão, incondicional, com todas as letras.
Seu ex-parceiro de escuderia, Gerhard Berger. Se esse austríaco molecão e de alma de manteiga ainda tinha até hoje dúvida sobre esse sentimento muito especial do Ayrton, que fique sabendo por mim, agora, que comemore, ou que chore - mas posso dar o testemunho de dez, vinte, cem vezes que o Ayrton me disse isso.
Eu me dava conta de outras pessoas que emprestavam brilho ao lado oculto da festa. Não bastasse nada, conheci, enfim, de verdade, o Bragota - o banqueiro Antônio  Carlos de Almeida Braga, aquele senhor que, no GP do Brasil, me dera o toque meio brincalhão sobre o Ayrton. Era uma delícia:
- Não lhe falei, garotinha? - brincou aquele gozador e esportista full time, capaz de sair de uma final de Wimbledon no sábado para assistir a um torneio de golfe no Havaí no domingo. - Disse que ia rolar namoro, pápum. Agora digo que vai pintar casamento.
Os protagonistas da Fórmula 1 iam se revelando, assim como os figurantes. Com o Braguinha, fui ser apresentada ao Rubinho Barrichello. Aí apareceu a Betise Assumpção, assessora de imprensa do Ayrton. Sensacional, muito divertida, depois amicíssima - de quem guardo tanta saudade. Chegaram Oscar Guerra e Marquinhos Magalhães Pinto, amigos de velha data e patrocinadores, via Banco Nacional. De cinco em cinco minutos, um preocupado Ayrton botava a cara para fora do motor home. Queria me  ver:
- Tudo bem?
- Tudo bem - eu também estava louca para vê-lo a cada segundo.
Fiquei ali quatro horas, me pareceram quatro minutos. Ao lado ele, o tempo parava. No dia seguinte, ele quis me poupar: treino oficial, levantar às sete da manhã, era melhor que eu ficasse em casa, descansando. Alguém se encarregaria de me levar ao circuito. Mas era como se o circuito de rua atravessasse a minha cama. Pulei  fora. Vivi aquela eterna dúvida das mulheres sobre que roupa usar. Fui ao quarto do Marquinhos consultá-lo.
- Tá boa a roupa?
Ia acender a luz, mas ele:
- Só não acende a luz.
Acendi. Ele, desesperado, cortando a conversa:
- Tá bem, tá bem. Agora apaga.
Fui acompanhar os treinos. Encontrei o Béco animado, otimista. E, como ele, o risonho Braga. Incorporara-se à trupe o Papagaio - tio Papagaio, eu preferi em sinal de respeito. Na vida civil, Galvão Bueno. Locutor da Globo para a temporada de Fórmula l, assim como para os outros triunfos canarinhos no futebol, no vôlei, no basquete, no tênis, etc, etc. Simpatia à primeira vista: ele me convidou para assistir à prova da cabine da emissora.
Em Mônaco, estreei também o lado speed das pistas. Perseguição implacável dos paparazzi. Era desfilar de mãos dadas com o Ayrton diante das arquibancadas e a galera ia literalmente à loucura. Gritava elogios para nós. Curiosamente, para mim em italiano. Penso em Marcello Mastroianni e me convenço de que o italiano talvez seja a língua da sedução. Ayrton apertava ainda mais minha mão. Era o enésimo atestado de amor. É sempre gratificante para uma mulher ser admirada. Em especial se, de repente, o elogio traz o nome Giorgio Armani e uma pergunta meio exploratória sobre se uma moça tão bonita não estaria interessada em desfilar tal coleção. Uma  pergunta dessas na Elite teria o efeito de um maremoto.



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