Conheci, em Mônaco, um outro mundo. Descobri, em Mônaco, um
outro Ayrton.
O que eu tinha em mãos e sob os olhos até então era o
namorado de Angra, o provocador da Quinda, o apressadinho do jet-ski, o
maluquinho do helicóptero, o companheiro das noites de São Paulo, o amante
carinhoso, o amigo de todas as horas e de todas as brincadeiras. Percebi a
metamorfose - lenta, gradual, inconsciente talvez. À medida que a
hora do desafio nas pistas se aproximava, quando ele se defrontava com o dilema
do vamos-ver e do tudo-ou-nada, sua personalidade ia se reconstituindo, em nome
do dever e da performance: S-E-N-N-A. Assim, letra a letra, no ritmo
lento de um soletrar infantil. SENNA, o astro - convicto, pronto para
extrapolar todos os limites.
Sumiu o Béco de pés descalços e riso franco. Surgiu o Senna
de uniforme e rosto duro. Era uma surpresa para mim - mas eu tinha um coração
transbordante de ternura para entender o que se passava.
Seria sempre assim: sexta, sábado, véspera de GP, estivesse
ele com o carro na ponta dos cascos ou vivesse ele um enorme pessimismo, Ayrton
ia botando o capacete e vestindo o macacão de Senna.
"Fechar o zíper", foi a expressão que eu usei,
mais de uma vez. Ele concordava, cabisbaixo:
- Não tem outro jeito.

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