sexta-feira, 7 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - A mudança de Béco para Senna




Conheci, em Mônaco, um outro mundo. Descobri, em Mônaco, um outro Ayrton.
O que eu tinha em mãos e sob os olhos até então era o namorado de Angra, o provocador da Quinda, o apressadinho do jet-ski, o maluquinho do helicóptero, o companheiro das noites de São Paulo, o amante carinhoso, o amigo de todas as horas e de todas as brincadeiras. Percebi a metamorfose - lenta, gradual, inconsciente talvez. À  medida que a hora do desafio nas pistas se aproximava, quando ele se defrontava com o dilema do vamos-ver e do tudo-ou-nada, sua personalidade ia se reconstituindo, em nome  do dever e da performance: S-E-N-N-A. Assim, letra a letra, no ritmo lento de um soletrar infantil. SENNA, o astro - convicto, pronto para extrapolar todos os limites.
Sumiu o Béco de pés descalços e riso franco. Surgiu o Senna de uniforme e rosto duro. Era uma surpresa para mim - mas eu tinha um coração transbordante de ternura  para entender o que se passava.
Seria sempre assim: sexta, sábado, véspera de GP, estivesse ele com o carro na ponta dos cascos ou vivesse ele um enorme pessimismo, Ayrton ia botando o capacete e vestindo o macacão de Senna.
"Fechar o zíper", foi a expressão que eu usei, mais de uma vez. Ele concordava, cabisbaixo:
- Não tem outro jeito.


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