Senti, é claro, que ele me dedicou, desde nossa chegada, as
suas melhores atenções. Eu o observava. Vi que ele também me observava. Nem bem
tínhamos chegado, mal refeitos de um almoço principesco - a portuguesa Maria é
uma cozinheira de mão cheia -, ele foi me buscar na praia onde eu tinha
esticado minha canga para tomar sol, a uma estratégica distância da indócil
e ainda rancorosa Quinda - uma schnauzer preta fanática por calcanhares e que,
soube depois, deixara uma irmã, a Mouse, na casa em que nasceu, no
Algarve, em Portugal. Ayrton tomou-me pelas mãos e me convidou para o mar.
- Acabei de comer - hesitei.
Sempre ouvi histórias tétricas de congestão, essas coisas.
Ele me gozou:
- Está com medo de morrer, é?
- Sei lá.
Sem prestar muita atenção, foi lá dentro buscar um enorme
colchão de ar, tão grande que cabiam nele as duas Danielas, ele, eu - e a
Quinda. Todos para o mar. Mas, desconfiada de ter como companheira de viagem a
melindrada cachorrinha, eu não tirei os olhos dela. De repente, sinto um
safanão e caio n'água, tchbum. Meus olhos abrem-se, após o mergulho sem querer,
sobre duas expressões de genuína felicidade: a da Quinda, que abana o rabo,
radiante em sua silenciosa vingança, e a do meu anfitrião, que gargalha:
- Morreu? Não morreu.
E, de repente, também se joga:
- Vou morrer com você!

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