quinta-feira, 6 de junho de 2013

CAMINHO DAS BORBOLETAS - Ayrton Senna dedica todas as atenções a Adriane Galisteu


Senti, é claro, que ele me dedicou, desde nossa chegada, as suas melhores atenções. Eu o observava. Vi que ele também me observava. Nem bem tínhamos chegado, mal refeitos de um almoço principesco - a portuguesa Maria é uma cozinheira de mão cheia -, ele foi me buscar na praia onde eu tinha esticado minha canga para tomar sol, a uma estratégica distância da indócil e ainda rancorosa Quinda - uma schnauzer preta fanática por calcanhares e que, soube depois, deixara uma irmã, a Mouse, na casa em que nasceu, no Algarve, em Portugal. Ayrton tomou-me pelas mãos e me convidou para o mar.
- Acabei de comer - hesitei.
Sempre ouvi histórias tétricas de congestão, essas coisas. Ele me gozou:
- Está com medo de morrer, é?
- Sei lá.
Sem prestar muita atenção, foi lá dentro buscar um enorme colchão de ar, tão grande que cabiam nele as duas Danielas, ele, eu - e a Quinda. Todos para o mar. Mas, desconfiada de ter como companheira de viagem a melindrada cachorrinha, eu não tirei os olhos dela. De repente, sinto um safanão e caio n'água, tchbum. Meus olhos abrem-se, após o mergulho sem querer, sobre duas expressões de genuína felicidade: a da Quinda, que abana o rabo, radiante em sua silenciosa vingança, e a do meu anfitrião, que gargalha:
- Morreu? Não morreu.
E, de repente, também se joga:
- Vou morrer com você!


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