A temida Quinda nos esperava no píer, abanando o rabo.
Aproximou-se de mim, quase rebolando, e lambeu minha mão, carinhosa. Foi a
primeira a entender.
Sabe quando ele arriscava tudo, numa daquelas ultrapassagens
impossíveis? Pois foi assim comigo:
- Você está num quarto sozinha, com duas camas - começou. -
Vou ter de mudá-la.
Despistei:
- Tudo bem, durmo na sala.
- Probleminha: a sala também está ocupada - continuou. -
Aliás, não sei se é um problema ou uma solução.
- Onde é que eu fico? - me fiz de boba.
- Eu lhe mostro.
Subiu comigo até meu quarto - eu envergonhadíssima daquela
bagunça de praia, roupa jogada aqui e ali - e pegou as malas. Abriu uma porta e
apresentou:
- É o meu quarto. Agora também é o seu. Fique à vontade.
Tentei prestar atenção em alguma coisa, além da minha
própria estranheza, e me detive no closet, onde brilhavam, branquinhos, uns
quarenta, cinqüenta pares de tênis. Sapatos. Cintos - centenas. E roupa, muita
roupa. Arrumadinha, passadinha, dobradinha. Ele tinha o suficiente para morar
naquela casa o ano inteiro.
- Sou meio maníaco - disse ele, sem graça diante do meu
espanto.
Reparei até num duende, pousado numa mesinha. Eu o peguei e
observei. Fanático por arrumação, ele me tomou das mãos e o colocou no lugar
(tempos depois, a mãe dele me pediu para jogar fora o duende; joguei; sei lá,
talvez não devesse ter jogado).
- Também tenho minhas manias - disse eu.
- Quais?
- Cremes e perfumes.
- Pois então venha cá ver uma coisa - ele me puxou pela mão
até o seu banheiro.
Só em Angra, ele tinha mais creminhos e perfumes que eu
jamais tinha tido em toda a minha vida. Bom, pelo menos já havia entre nós
alguma coisa em comum, além do Genesis e da Quinda. Dali a poucas horas, estaríamos
repartindo algo muito mais importante.
O amor fluiu natural - sem pressa, gostoso e espontâneo. Sem
falso moralismo: dormir no quarto dele não significava, para mim,
obrigatoriamente, uma noite de sexo e intimidade. Havia um clima, uma
aproximação, um desejo. Mas eu teria pudor de embarcar numa aventura pela
aventura - e, no dia seguinte, literalmente, tchau e até mais. Dormir com um
mito, um ídolo, uma celebridade internacional. Um homem que produzia manchetes
no mundo inteiro. De mais a mais, eu tinha adorado aquele paraíso e queria
voltar lá, namorada ou amiga, o que fosse.
Televisão ligada. Eu, metida num pijamão quase blindado.
Cama king-size - chance de rolar para o lado, em fuga estratégica. Beijinhos,
carinhos, "até amanhã". Não tive tempo de contar até cinco - com
aquele meu sono juvenil, despenquei. Sei lá quanto tempo depois - a vaga
recordação de uma claridade me vem aos olhos -, levei um cutucão.
- Não estou entendendo nada - disse ele, acendendo a luz e
se apoiando no travesseiro. - O que você quer? Quer casar comigo? Tem uma
igrejinha aqui na praia da Jipóia, é só juntar as testemunhas e ir lá.
Continuou a falar: a dizer que era tudo muito especial, que
existia uma magia entre nós, que isso não era sentimento que ele tivesse assim,
assim, em qualquer momento, que ele, por muitas razões, tinha sido uma muralha
emocional, mas que eu, em apenas dois dias, tinha feito um furo nessa muralha.
Falava e acariciava o meu pé.
- Ah, o pé não! - eu pensava. Chegou ao ponto fraco, ao
calcanhar-de-aquiles.
De repente, me beijou os pés, com enorme delicadeza.
- Você é a primeira mulher, de três anos pra cá, que me
provoca esse desejo. De beijar os pés, não só. De beijar o corpo inteiro.
Queria guardar esse momento só para mim - e para ele. As
estrelas piscavam, em quente cumplicidade. Quando acordei, já sol alto, depois
que tudo aconteceu, eu estiquei meu braço para o lado, tateando onde ele
deveria estar, e não havia ninguém. Pânico. Paranóia do tipo "tá vendo?
Ele já se encheu". Corri à procura dele. Descobri-o no píer, sem camisa,
descalço, olhando para o infinito, assobiando uns acordezinhos que nem chegavam
a compor uma música. Um tralalá, só isso. Ele parecia feliz. Eu estava
feliz, imensamente feliz.

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