Ele era uma usina de carinhos. Não troco seus toques
afetivos nem por uma vitrine inteira do Amor Aos Pedaços. Seus beijos deixam na
boca o sabor de mil queijadinhas de Sintra, um milhão de toicinhos do céu, um
milhão de cheese-cakes como os da Bebel, de Portugal. Mas quem é capaz de se
derreter de doçura às vésperas de entrar no asfalto esfolando uma máquina a 350 quilômetros por
hora e tendo na sua cola um francês rabugento e um chatíssimo alemão?
Tensão, concentração, reflexão - mas nunca, e eu passo
declaração em cartório, com firma reconhecida, nunca senti naqueles momentos o
mais remoto sinal de estrelismo. Naquele sábado que antecedeu o GP de Mônaco,
23 de maio de 1993, ele vestiu o pijama - dormia de pijama, curto ou longo,
dependendo da estação -, recolheu-se cedo, abriu a Bíblia que carregava na
pasta de mão - ler a Bíblia era outro de seus hábitos pré-corrida -, botou a
mão sobre um determinado capítulo, fechou os olhos. Orava em silêncio. Olhou-me
com uma expressão estranha:
- Preciso ganhar... Tenho de ganhar...
Freud de novo me denunciou. Eu também estava tensa. Tive um
tal acesso de tosse, escandaloso, incontrolável, que me refugiei na sala, para
dar um tempo, mas esse tempo foi, sei lá, meia hora, parecia uma eternidade, e
quando voltei ele me esperava, carinhoso, querendo saber como eu estava -
e novo acesso explodiu, sintomaticamente. Quando me refiz, ele me deu um terno
"boa-noite" e apagou a luz.
Tive o ímpeto de rezar. Do meu jeito, com as falas de meu
próprio catecismo - eu que nunca fui de freqüentar muito igreja, já que meu pai
não ligava, minha mãe tinha sido batizada numa igreja protestante húngara,
minha avó paterna era católica e eu, no máximo, ia a uma igreja batista da
Lapa, para as farras da escola dominical. Mas, naquela noite, eu me apeguei a
todos os santos e expressei um desejo, do fundo do coração. Pedi muito
para que ele ganhasse. E, para mim, um desejo especial:
- Por favor, não tirem esse homem da minha vida, jamais!
Nem ali nem nunca eu cogitei que a morte pudesse buscá-lo.
Tinha medo de perdê-lo para a vida.

Lindo esse livro...Le depois que achei esse blog na internet...Como Adriane fala dele com carinho e respeito é lindo de ver...
ResponderExcluirMuito legal seu blog...Ela Adriane já viu esse blog??? Não acompanhei a carreira de Senna quando ele morreu eu era uma criança não me lembro...Que historia linda com Adriane Galisteu...
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