quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O Último Natal e Passagem de Ano Novo de Ayrton Senna

Trecho retirado do livro “Caminho das Borboletas” de Adriane Galisteu

O GP da Austrália foi no dia 7 de novembro. Demos a nós dois dias de descanso em Sydney, para um passeio de lancha no lago e uma bateria de fotos que eu guardo com amor. E já aquela aflição de encher as malas com presentes para o Natal. Adivinha que tipo de restaurante ele procurou, até cansar, para me levar? Um italiano, é claro. Adivinha para onde eu escapei, um dia, na hora do almoço? Bem, nem preciso falar, para não ficar parecendo um comercial.


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O primeiro encontro secreto Ayrton-Williams, no inverno horroroso da Inglaterra, a mais nítida impressão que ficou na minha cabeça, porém, foi uma frase meio banal, solta ao vento, que ele me disse tão logo tomamos o caminho de Londres e, de lá, para a temporada tropical de férias e fim de ano no Brasil:

- Sei lá, Dri. Achei esse carro meio esquisito: mais fino e mais baixo.

No primeiro teste público, aí já em 1994, ele repetiria um sentimento ruim:

- Sinto que cheguei aqui com dois anos de atraso. O carro está virando o fio.

Tradução: aquela história do super-piloto com a super-máquina não seria bem assim como estavam falando. Mas, enfim, adeus à fria Londres. O avião embicou para o sul, o sol matinal do Rio veio nos receber, o Natal se aproximava e Angra estava à espera, para uma longa temporada em que eu tinha planos de arrombar o zíper do macacão do piloto Senna, arrancar-lhe a carranca do cenho franzido e testa enrugada, para lhe fazer uns afagos nos pés e mergulhar nas marés do amor do Big Coke, do Becão, do meu garotão de praia - com a devida licença da ciumenta Quinda (cadelinha de Ayrton), tenho de admitir.



Natal, para mim, é um convite à tristeza. Desde que meu pai morreu, em 1989, era como se a festa não existisse. Ele faleceu em outubro, como eu já contei, numa  situação inesperada, de repente - e nossa casa nunca mais foi a mesma. Minha avó materna, Agnes, que morava ao lado, tipo da mulher determinada, uma fortaleza, ainda tentava levantar nosso astral, naquele dia de má memória, recorrendo a velhas receitas de rabanadas e pães húngaros rabiscadas em cadernos antiquíssimos - e, num ano do qual não me lembro, mamãe, que sempre foi mais desanimada que vovó, bem que preparou um peru recheado com farofa e ameixas. Mas a gente não cultivava o ritual da ceia. Era um jantar comum, quem quisesse se servir que se servisse e nada de árvore enfeitada, os presentes ficando esparramados por aqui e por ali. Cada um de nós buscava, no Natal, um certo recolhimento para cicatrizar a nossa grande ferida na alma que era a ausência prematura de papai.

Agora, porém, era diferente. Béco e eu voltamos da Europa, vivíamos sob o mesmo teto no apartamento da Rua Paraguai, compartilhávamos os mesmos amigos, saíamos para jantar invariavelmente juntos, éramos dois namorados na plena acepção da palavra - se não havia aliança de noivado, sobravam intimidades do tipo dormir na mesma cama na casa da mãe e do pai dele, no Pacaembu. Sentia, no íntimo, que ele até gostava de me mostrar um pouquinho. Meu Natal, portanto, seria com ele. Zaza, pessoalmente, reiterou o convite.

Quatro ou cinco dias antes,  toda a família se deslocaria para a fazenda de Tatuí, e a festa teria o duplo sentido de celebrar a ceia com filhos, sobrinhos, genros, noras e de inaugurar o casarão novo, todo restaurado.

Árvore de Natal, presentes que se acumulavam ao pé do pinheiro, a expectativa da criançada, os passeios a cavalo por aquele paraíso, as nossas pescarias, as competições de kart na pista particular construída segundo o traçado de quem começara sua carreira ali, a torcida pelo sobrinho Bruno, filho da Viviane e promessa de campeão - naquela preguiça dos compridos cafés da manhã, de almoços deliciosos e cheios de falatório e de tardes iluminadas como aquela em que um fotógrafo italiano, conhecido do Ayrton, fez nosso ensaio amoroso que correu o mundo, resgatei um  pouco da alegria da data do nascimento de Cristo.

Eu me sentia absolutamente em família, com a primazia do lugar de honra ao lado do príncipe da casa. Nem mesmo àquelas eventuais alfinetadas que cheguei a ouvir, em relação a antigas namoradas de Ayrton, especialmente a mais famosa delas, eu quis atribuir alguma intenção malévola. Iludia-me com a idéia de que, no fundo, o que eles - elas, seria mais correto dizer - queriam era me agradar.

O casarão tinha cheiro de novo, entulho das últimas obras e um quarto feito sob medida para nós. Nosso quarto tinha espaço suficiente para resguardar a intimidade recíproca tanto quanto para atulhar os armários de creminhos, loções e lavandas. Como sempre, não estranhei cama ou ambiente, mas fui despertada de madrugada por uma algazarra monumental e pela ausência dele, a meu lado, na cama. Corri para a janela e assisti a uma cena que faria a delícia daquelas câmeras indiscretas de programas como o do Faustão - que, todo domingo, era também, de uma certa maneira, um bem-vindo hóspede nosso.

Resumo rápido: de pijama, o piloto mais carismático e mais circunspecto do mundo perseguia um bando de pavões alvoroçados que, aparentemente (meu sono profundo não me deixou ouvir nada), tinham transferido seu footing e seus papos noturnos para debaixo de nossa janela. Botando fogo pelas narinas, Ayrton os atacava, arremessando-lhes seus chinelos. Em seguida, armou-se de uma vassoura. De um golpe, conseguiu derrubar um bicho, que se refugiara numa árvore. Os outros, pressentindo a arremetida, trataram de bater em retirada. Não sei, sinceramente, se a zoologia me confirma isso, mas a impressão que me ficou, vendo tudo da janela, às gargalhadas, é de que o QI das citadas aves não é dos mais privilegiados. Elas ficavam rodeando a piscina e Ayrton, cada vez mais nervoso, perseguindo-as. Agora, de moto. Ligou o motor e partiu para cima delas, mas os bichos espaventados só produziam ainda maior berreiro. Quando o dia clareou, o surpreendeu naquela inútil e frustrante batalha.

- Vou matar esses desgraçados! - prometeu, voltando para a cama.

Ele tinha o sono leve, levíssimo, e muitas vezes me olhava com o olhar suplicante como o daqueles penitentes que vão a Fátima ou a Aparecida do Norte:

- Me conta sua fórmula. Me empresta um pouquinho de seu sono.

- Se pudesse, eu trocava com você - dizia eu, e olha que a instabilidade das noites mal dormidas dele me preocupava tanto, de fato, que eu faria de verdade a troca. Ele, sim, precisava de descanso. Foi tê-lo, quem sabe, em outro lugar por mim desconhecido.

Ninguém é idiota de imaginar, porém, que um homem cujo trabalho é um risco pior do que o de um trapezista e que trafega pela vida a mais de 300 quilômetros por hora seria do tipo de recostar na cama, fechar os olhos e em dois segundos já estar embalado pelos anjinhos.

Podre de sono, ele implorou ao seu Milton, no café da manhã do dia seguinte, véspera de Natal:

- Pai, dá um jeito nesses pavões. Sei lá: dá de presente, manda embora.

O senhor Milton me dava a impressão de um homem seco, muito discreto, às vezes impenetrável, mas que não se deixava convencer com muita facilidade. Assim como foi ele quem fez de Ayrton um automobilista, era ele agora quem tentava manter a tradição dinástica da família, depositando todas as esperanças no neto Bruno. Aos 12 anos, Bruno corria de kart e já tinha alguns títulos no seu currículo. Assim como tinha também - e me confidenciou, a meia voz, naqueles dias por lá - certas dúvidas se sua vocação era de fato aquela. Mas, se for o avô a decidir que ele vai ser piloto ou, digamos, jogador de squash, eu não teria dúvidas em apostar que daqui a alguns anos Bruno Senna estará percorrendo, com seu nome poderoso, as pistas ou competindo nas quadras.

Fiquei com peninha dos pavões, mas, salvo um casal, que sobrou para contar a história, foram todos despachados para outra freguesia, especialmente depois que o Ayrton descobriu mais uma deles. Ficava num galpão uma motinha normal, 250 cilindradas. Os bichos entravam lá, viam-se refletidos no reservatório de gasolina e, de tão assustados, passavam a atacar. Resultado: as bicadas furaram o reservatório. Até o senhor Milton se deixou convencer. Hoje eu sou capaz de imaginar que, se não fosse por sua  beleza, os pavões teriam ficado do lado de fora da arca do bom Noé.

Aquele agito todo na casa, dia 24, Zaza animadíssima com o jantar, que, por causa das crianças, seria mais cedo, mas o Béco teve a sutil percepção de que a nuvem negra voltava a se formar em cima da minha cabeça:

- Dri, você não prefere passar a meia-noite com sua mãe?

Meu coração balançava entre estar ali, ao lado do meu amado, e estar em São Paulo, junto ao leito de minha avó. Pedi um tempo para pensar. De repente, me deu um estalo:

- Vou sim. Acho que devo ir.

Troquei de roupa, Zazá me emprestou seu carro, uma Quantum, e, de uma gentileza que só vendo, ainda mandou umas lembrancinhas para minha família. Ayrton me acompanhou, preocupado, até o carro. Pediu para eu ligar tão logo chegasse. Corri para o quarto de minha avó. Eu a amava intensamente. Vivia me cobrando casamento. "Quero ver tudo preto no branco", divertia-se. Vizinha de parede, sempre soube muito de minha vida e de meus amores - que foram poucos, diga-se. Encontrei-a inerte, no leito, incapaz de dizer palavras com os lábios, mas apta a expressar grandes sentimentos com os olhos. Foi assim meu Natal de 1993, na cabeceira de minha vó, nos seus 80 anos de idade. Não me arrependo. No dia 26 de janeiro, um mês e dois dias depois, vovó descansou  para sempre.

Perdi em 1994 duas pessoas que amo muito. O que reforça minha tristeza de Natal. Vou passar o próximo com a cabeça enfiada num travesseiro.

Nunca fui a terreiro de babalaô, não conheço meus orixás, não fiz despacho em encruzilhada e jamais sobrecarreguei Iemanjá, a mãe das águas, com muitos pedidos de fim de ano, mas, brasileira que sou, gosto de usar branco no réveillon, deposito uma rosa no mar, faço um desejo de coração e adoro aquela hora dos beijos, abraços e espoucar de fogos. A tristeza que me invade no Natal explode em pura euforia na virada do ano e, de 1993 para 1994, em especial, eu tinha tudo o que comemorar.  Tudo quer dizer: estava com o Ayrton em Angra. O resto era acessório.

Até mesmo o tempo, oscilando entre a chuva e o céu estrelado, não me importava. Sentia-me, mais do que em qualquer outro lugar, em casa. Viviane, o Lalli (Flávio é o primeiro nome do marido dela) e os filhos foram. O Leonardo. Os amigos da velha-guarda e de sempre: Israel Klabin, Luiza e o Braga, muitos outros. O Clube dos Amigos do Béco: Criminoso, com sua namorada, Magali, Júnior, Gordinho e a mulher, Gisela, Alfredo... Angra era um social só: muita gente se conhecia, os convites se entrecruzavam, as lanchas circulavam entre aquelas ilhas como as pessoas circulam entre as mesas dos bares da moda. O Ayrton sugeriu que fôssemos à festa do Alexandre (a gente o chamava de Xande Campineiro), depois que me viu arrumada. Queimada do sol dos dias anteriores, eu carreguei no branco: minissaia, meia, blusa tipo rede de pescador, tênis. O contraste, sem pretensão, me deixou bonita. Béco foi generoso:

- É um desperdício deixá-la em casa assim. Agarrei-me no pescoço dele, naquele horário da Cinderela. Lembrei-me de um casal amigo dele que nos visitou em casa, muitos meses atrás, com uma filhinha que devia ter seus 5, 6 anos no máximo. Na hora de se despedir do seu ídolo, ela cobriu-lhe o pescoço de beijos, mil, milhares - a menininha. Ainda desconcertado, Béco comentou tão logo eles partiram:

- Tanto beijo que eu casava com ela, agora, no ato. Meia-noite, e a beijoqueira agora era uma meninona de 20 anos; mil, milhares de beijos no pescoço, sem medo de repetir "eu te amo, eu te amo..." Uma rosa branca ao mar e um pedido em segredo. Segredo, já não é mais. Pedia que meu amor por ele não morresse, que ele continuasse sempre a meu lado. Quem sou eu para dizer que o pedido não se cumpriu?


FONTE PESQUISADA

GALISTEU, Adriane. Caminho das Borboletas. Edição 1. São Paulo: Editora Caras S.A., novembro de 1994. 





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