A chegada do Ayrton foi engraçada. A casa dele é comprada na mesa 8 do Gigi, veio um banqueiro brasileiro, o Braguinha, com o pai e com a mãe do Ayrton que era quem mandava nos negócios dele.
Recorda-se do que dia em que o Ayrton morreu?
Sim. Estava a Adriane Galisteu cá a dormir na casa dele da Quinta do Lago, eu fui lá a casa. No dia da morte dele quando lá fui, a Adriane estava deitada triste para caramba porque já sabia. Ele morreu na hora, a barra da direção tirou-lhe metade da massa encefálica. As pessoas ainda diziam que era mentira porque a corrida tinha continuado e tudo. O fax dele tinha aqueles rolinhos, o gabinete estava cheio de rolinhos espalhados pelo gabinete. É a imagem que tenho do 1º. de maio daquele ano.
FONTE PESQUISADA
MADRINHA, Mariana; RAINHO, Vítor. Gigi: “As melhores redes sociais são as dos pescadores da Quarteira”. Disponível em: <https://sol.sapo.pt/2016/09/21/gigi-as-melhores-redes-sociais-sao-as-dos-pescadores-da-quarteira/>. Acesso em: 07 de agosto de 2025.
Tetracampeão mundial Alain Prost, da França, à esquerda, gerente geral britânico da equipe Williams Frank Williams, centro, e Neide Senna, mãe do herói brasileiro da F1 Ayrton Senna, que morreu em um acidente durante o GP de San Marino no ano passado em Imola , posam juntos após coletiva de imprensa para ilustrar as iniciativas da "Fundação Ayrton Senna" em Milão na quinta-feira, 7 de setembro de 1995. Segundo relatos impressos, Prost está considerando um retorno à F1 e recentemente testou um carro da McLaren-Mercedes em Silverstone . (Foto Ap/Domenico Stinellis)
ID: 9509070638
Data de envio: 7 de setembro de 1995 12h22
Data de criação: 7 de setembro de 1995 9h34
Direitos autorais: Direitos autorais 1995 AP. Todos os direitos reservados. Este material não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído.
Crédito: ASSOCIATED PRESS
Referência de transmissão: MIL106
Escritor de Legendas: AP
Pessoas indicadas: ALAIN PROST; FRANK WILLIAMS; NEIDE SENNA
Local: MILÃO, ITÁLIA
Four-time World Champion Alain Prost, of France, left, British general manager of the Williams team Frank Williams, center, and Neide Senna, mother of Brazilian F1 hero Ayrton Senna, who died in a crash during San Marino Gp last year in Imola, pose together after a press conference to illustrate the initiatives of the "Ayrton Senna Foundation" in Milan Thursday, Sept. 7, 1995. According to printed reports Prost is considering a comeback to F1 and has recently tested a McLaren-Mercedes car at Silverstone. (Ap Photo/Domenico Stinellis)
ID:9509070638
Submission Date:Sep 7, 1995 12:22 PM
Creation Date:Sep 7, 1995 9:34 AM
Copyright:Copyright 1995 AP. All rights reserved. This material may not be published, broadcast, rewritten or redistributed.
Credit:ASSOCIATED PRESS
Transmission Reference:MIL106
Caption Writer:AP
People Shown:ALAIN PROST; FRANK WILLIAMS; NEIDE SENNA
Location:MILAN, ITALY
Four-time World Champion Alain Prost, of France, kisses Neide Senna, mother of F1 hero Ayrton Senna, who died in a crash during San Marino GP last year in Imola, as they arrive for a press conference to illustrate the initiatives of the "Ayrton Senna Foundation" in Milan Thursday, Sept. 7, 1995. According to printed reports Prost is considering a comeback and has recently tested a McLaren-Mercedes car at Silverstone. (Ap Photo/Domenico Stinellis)
O tetracampeão mundial Alain Prost, da França, beija Neide Senna, mãe do herói da F1 Ayrton Senna, que morreu em um acidente durante o GP de San Marino do ano passado em Imola, ao chegarem para uma entrevista coletiva para ilustrar as iniciativas da " Fundação Ayrton Senna" em Milão na quinta-feira, 7 de setembro de 1995. De acordo com relatórios impressos, Prost está considerando um retorno e recentemente testou um carro da McLaren-Mercedes em Silverstone. (Foto Ap/Domenico Stinellis)
25/10/2019 Site ayrtonsenna.com.br, gerido pela família do piloto. Bom nas pistas e também bom de garfo. Tricampeão mundial de F1, Ayrton Senna, como um brasileiro de origem, sempre teve gosto bem tradicional para a alimentação. Segundo Dona Neyde, mãe do piloto, um dos pratos preferidos do filho era mesmo um arroz, feijão, bife e batata frita. Mas um dos pratos que a mãe do piloto mais preparava para o filho era o macarrão ao sugo. E já que hoje é o Dia Mundial do Macarrão, o site oficial do piloto “fuçou” e conseguiu com exclusividade a receita do macarrão que Ayrton adorava comer. Quem nos passou a receita foi ninguém menos que a própria Dona Neyde. “Ele sempre gostou de um talharim ou espaguete, principalmente quando a massa era feita em casa. O molho de tomate era à moda italiana, com azeite, cebola e tomate. Eu coloco o azeite cobrindo o fundo da panela no início, refogo a cebola picada, coloco os tomates pelados cortados em quatro e depois é só deixar cozinhar. Quando surgirem as bolinhas de azeite boiando é porque o macarrão está pronto”, contou Dona Neyde. Antes do macarrão, sempre que podia, Ayrton também não dispensava uma boa salada de alface. Senna realmente tinha orgulho das tradições de sua família no Brasil.
26
de abril de 1994, 16h00. Um helicóptero levanta do Aeródromo de Tires. A bordo,
Ayrton Senna acena simpaticamente para a câmara de filmar. José Pinto,
jornalista da RTP requisitara um helicóptero a um amigo para filmar a
participação de Senna na gravação de um spot publicitário para a Sega.
«Mantínhamos uma boa relação e disse-me porque é que eu não aproveitava e ia
com ele no seu avião para Imola. Já tinha tudo tratado com as viagens da RTP e
acabei por recusar», recorda o comentador de F1 e autor dos programas
«Rotações» e «Máquinas».
O
helicóptero de Ayrton Senna levava-o de volta ao Algarve, à sua Casa da Quinta
do Lago, condomínio de luxo que André Jordan criara uns anos antes e onde
Ayrton podia gozar da privacidade, do contacto com a natureza e do clima ameno
para fazer o seu escrupuloso jogging. A casa da Quinta do Lago, avaliada
atualmente em dez milhões de euros, era uma espécie de réplica europeia da sua
casa em Angra dos Reis.
Ao
contrário do que era habitual, Ayrton passava cada vez mais tempo no Algarve,
sob os cuidados da fiel Juracy, que lhe preparava as lendárias canjas de
galinha, cuidava da casa e do jardim e ainda lhe servia de competente
motorista. Tudo aquilo que Ayrton chamava de «dieta espiritual» e que lhe
permitia descomprimir como em nenhum outro lugar.
Ayrton
parecia fugir da pressão familiar, que aumentava à medida que a sua relação com
Adriane Galisteu parecia evoluir para coisa mais séria. Apenas a mãe, Neyde,
parecia aceitar a relação com a plebeia de São Paulo.
Já
que Ayrton se refugiava na Europa, a pressão familiar decidiu vir ter com ele,
sob a forma do seu irmão Leonardo, que iria acompanhá-lo ao GP de São Marino –
talvez uma das razões pelas quais Ayrton preferiu que Adriane fosse esperar por
ele ao Algarve, evitando conflitos e a exposição da sua vida privada no paddock
de línguas afiadas.
Ayrton
estava certo. A missão do seu irmão Leonardo era convencê-lo de que aquela
relação com Adriane era um erro. Naquela noite, durante o jantar preparado por
Juracy, os dois irmãos discutiram, o que deixou Ayrton perturbado e irritado –
ele não conseguia entender a animosidade da sua família com Adriane. O que
fizera soar os alarmes fora um Fiat Uno prateado que Ayrton oferecera a Adriane
e que despoletou no pai Milton uma preocupação explicada por António Almeida
Braga, o Braguinha: «O Miltão achava que todo o mundo que se aproximava do
Ayrton tinha interesses, queria tirar vantagens. Bastava um relacionamento
durar mais para ele não gostar.» Agora sabemos de quem Ayrton herdou o seu
caráter desconfiado.
No
dia seguinte, 27 de abril, uma quarta-feira, Ayrton acordou mais bem disposto,
apesar da hora madrugadora. Senna gostava de dormir 10 a 12 horas quando não
estava nas corridas – aí não dormia mais de quatro horas.
Na
sua espaçosa suíte no Algarve não podia entrar nem um ponto de luz. Ayrton
sofria de fotofobia e tivera de ser a própria Juracy a isolar milimetricamente
todas as fontes de luz que pudessem perturbar o sono do seu patrão. Ayrton não
ficou totalmente satisfeito, porque descortinou um minúsculo ponto de luz pelas
frestas do armário. Em entrevista a Monica Bergamo da revista Playboy, Ayrton
confessou que costumava ser assaltado por um sonho: «Por vezes sonho que tenho
um acidente, outras que estou oferecendo um bouquet de flores para a minha namorada».
Naquela
manhã solarenga, Senna acordou bem disposto e disse a Juracy: «Já viu como a
vida é bela quando a gente se sente bem?». Depois de tomarem o pequeno-almoço
no terraço junto à piscina, ele e o seu irmão foram conduzidos por Juracy até
ao Aeroporto de Faro. Na pista, o comandante Owen O ´ Mahoney esperava por ele
com o seu BAe HS125 jet, o jato particular que naquele dia o iria a levar a
cruzar os céus de meia europa num autêntico air show de compromissos
comerciais. Primeira escala em Munique para uma reunião com executivos da Audi,
para discutir os pormenores do negócio que pretendia tornar a empresa de Senna
a representante da marca alemã no Brasil. Depois do almoço, o comandante acionou
os motores do jato e levantou voo. Próxima escala, Aeroporto de Forli, próximo
de Bolonha. Owen O ´ Mahoney, que achara o seu patrão particularmente sorumbático
naquele dia, despediu-se com o a habitual saudação antes de cada Grande Prémio:
«Eu fiz o meu trabalho agora é a sua vez». Seria a última vez que faria aquele
cumprimento.
Dali,
Ayrton partia num helicóptero para Pádua, onde estaria presente no lançamento
de uma nova bicicleta em fibra de carbono da marca Carraro com o logótipo do
duplo esse de Senna.
Na
conferência de imprensa que se seguiu à apresentação da bicicleta foi instado a
comentar a vantagem da Benetton e de Michael Schumacher naquele início de
campeonato, que Ayrton Senna desconfiava ser fruto de uma ilegalidade com o
sistema de tração do Benetton:« É difícil falar de algo que não podemos provar.»
As
desconfianças públicas de Ayrton Senna deviam-se ao péssimo arranque de
temporada da Williams, contrastando com a eficácia da Benetton. Cumpridas que
estavam duas provas do mundial – Brasil e GP do Pacífico em Aida –, Ayrton
ainda não havia somado qualquer ponto, abandonando nas duas corridas, enquanto
Schumacher somara duas surpreendentes vitórias.
Neste
momento, e como noticiava o Autosport inglês, o campeonato estava «Michael 20 –
Ayrton 0».
Senna,
que tanto lutara para chegar à Williams, estava agora no centro da panela de
pressão e afirmava que o campeonato iria começar em Imola, palco da terceira
prova daquele mundial de 1994.
Os
problemas da Williams manifestaram-se logo desde os testes de inverno no Paul
Ricard e no Estoril, que levaram Ayrton a confessar aos seus amigos mais
próximos: «Este carro é uma merda».
Com
efeito, a Williams perdera a sua vantagem baseada na eletrónica, porque a FIA
havia banido todos os dispositivos que haviam dado a ponta do pelotão
tecnológico à equipa de Didcot – suspensão ativa, controlo de tração, ABS, etc.
Numa tentativa de travar a escalada tecnológica e devolver ao piloto o papel
principal na F1, a FIA acabara de criar sérios problemas às equipas e aos
pilotos. As primeiras foram obrigadas a um retrocesso tecnológico que, em
última análise, comprometia a segurança. Os segundos tiveram de adaptar de novo
a sua técnica pilotagem a carros que dispensavam ajuda eletrónica.
Mas
mesmo um piloto com as extraordinárias qualidades e capacidade de adaptação de
Ayrton se via a braços com um carro «mal nascido». O chassis do Williams FW16, supervisionado
por Patrick Head, era instável e difícil de controlar e o pacote aerodinâmico,
desenvolvido por Adrian Newey, estava longe de poder disfarçar as imperfeições
do conjunto.
Nem
mesmo o poderoso motor V10 da Renault, o mais potente de todos os carros da F1,
conseguia dar ao FW16 um temperamento vencedor. A Williams estava consciente
das deficiências do seu monolugar e na fábrica testavam-se afincadamente novas
evoluções que permitissem a Ayrton Senna diminuir o fosso que o separava do
Benetton de Michael Schumacher. Além da fraca competitividade do seu carro,
Ayrton estava seriamente desconfiado da legalidade do Benetton.
No
paddock circulava o rumor de que a equipa italiana estava a utilizar um sistema
de controlo de tração no motor, que ficava à margem das regras impostas pela
FIA no início daquele ano. Ayrton ligava várias vezes ao seu antigo rival Alain
Prost, fazendo queixas da Williams e manifestando a sua desconfiança com a
superioridade do Benetton: «Naqueles dois ou três meses antes de Imola, o
comportamento do Ayrton comigo mudou radicalmente. Eu deixara de ser uma
ameaça, agora era seu confidente. Ligava-me várias vezes e ficávamos falando
imenso tempo. Ele estava preocupado com o Williams e com a segurança na F1,
queria que eu integrasse uma comissão de pilotos para as questões de
segurança», explicou o francês, em entrevista a uma série da BBC dedicada a
lendas da competição automóvel.
Às
17h30 daquele dia 27 de abril, depois de terminar os seus compromissos
comerciais em Pádua, Ayrton Senna apanhou de novo o helicóptero, agora com
destino ao circuito de Imola, onde aterrou por volta das 18h00. Foi de imediato
às boxes da equipa Williams, onde cumprimentou, como sempre, todos os membros
da equipa.
Esteve
alguns minutos à conversa, desta vez não com Giorgio Ascanelli, o seu
engenheiro de pista da McLaren, mas com David Brown, que tinha as mesmas
funções na Williams. Ayrton queria inteirar-se das evoluções que a equipa
trazia para Imola e que testara no início da semana em Nogaro com o seu
companheiro de equipa, Damon Hill.
Além
de novos acertos aerodinâmicos, os engenheiro da Williams elevaram a posição do
volante, o que obrigava os pilotos a expor mais os seus ombros, conforme depois
notaria Emerson Fittipaldi.
Ayrton
estava preocupado e sabia que apesar de o campeonato ainda estar na sua fase
inicial, a vantagem de Schumacher era já preocupante. Senna queria acreditar
que Imola iria marcar o ponto de viragem daquele campeonato, mas não estava
muito confiante: «O carro é muito difícil de guiar, é tão duro que qualquer
ondulação do piso faz ele saltar.»
O
Autódromo Enzo e Dino Ferrari, perto da cidade de Imola, a quatro quilómetros
da cidade de Bolonha e a 80 quilómetros da sede da Ferrari, em Maranello, era
justamente considerado a «casa» da Ferrari e um dos mais perigosos e
traiçoeiros circuitos do mundial. Ao contrário da maioria dos circuitos, este
corria-se em sentido inverso aos ponteiros do relógio. Era um circuito de
média-alta velocidade, com um ponto muito perigoso: a curva Tamburello.
Era
uma curva de alta velocidade, normalmente feita de acelerador a fundo, com o
ponteiro dos conta-quilómetros a passar dos 300 km/ h. As pequenas ondulações e
ressaltos aconselhavam a que a suspensão fosse regulada com maior distância ao
solo e que o apoio aerodinâmico fosse mais incisivo. O problema é que essa
afinação mais segura para Tamburello iria penalizar o comportamento do
monolugar nas zonas mais rápidas do circuito, fazendo-o perder velocidade de
ponta e, logo, tempo, o bem mais precioso da Fórmula 1. Mas o principal
problema da curva era a sua exígua escapatória, tendo em conta a velocidade que
os carros atingiam naquela zona.
As
dezenas de metros de brita não eram suficientes para travar embates com o muro
de betão, conforme tão amargamente experimentara Gerhard Berger em 1989, quando
o seu Ferrari embateu no muro e se incendiou. O austríaco foi retirado do carro
em chamas e sobreviveu ao terrível acidente. No ano seguinte, ele e Ayrton
Senna fizeram uma vistoria a pé à fatídica curva, na tentativa de identificar
uma solução que permitisse torná-la mais segura. Quando espreitaram para lá do
muro de betão, viram que por ali passava um ribeiro. Não havia nada a fazer e
os dois amigos conformaram-se com a inevitabilidade daquele perigo que
continuariam a desafiar todos os anos.
Depois de partilhar uma
macarronada com alguns jornalistas brasileiros na motorhome da Williams, Ayrton
Senna dirigiu-se ao Castello, o hotel onde habitualmente se hospedava desde os
tempos da McLaren na pequena estância termal de Castel San Pietro. À sua
espera, atempadamente reservado, o quarto número 200. Ayrton era um animal de
hábitos e gostava de jantar nos mesmos restaurantes de sempre e ficava quase
sempre nos mesmos hotéis. Gostava desta familiaridade, ainda que fictícia.
Naquela noite, depois de jantar com o irmão Leonardo, com o seu empresário
Julian Jakobi, com o seu amigo e preparador físico Josef Leberer, com o seu
compagnon de route António Almeida Braga e com outros amigos brasileiros,
igualmente hospedados no hotel, Ayrton Senna retirou-se, cansado de um dia de
frenéticas viagens. Ligou para Adriane, no Brasil, que preparava as malas para
embarcar no dia seguinte para Lisboa.
FONTE PESQUISADA
PELEJÃO, Rui. A paixão de Senna. Edição 1. Editora Leya Portugal. S.A., julho de 2014.
Como vivem os irmãos e pais de Ayrton Senna sete
meses após a morte do piloto
Nos sonhos que perseguem Leonado Senna da Silva, o
irmão Ayrton bate seu Williams a mais de 200 quilômetros por hora num muro de
concreto, o carro rodopia e para. Segundos depois, ao contrário do desastre de
1° de maio em Ímola, na Itália, o tricampeão mundial destrava o cinto de
segurança e deixa rapidamente o cockpit destroçado, tentando se livrar do
possível impacto de outros carros que participam do Grande Prêmio de San
Marino. O sonho – na verdade um grande pesadelo – é a única ligação que o
empresário Leonardo e toda a família Senna da Silva dizem manter com as
corridas de automóveis nesses sete meses que se seguiram à morte do maior e
mais conhecido ídolo do esporte nacional depois de Pelé.
Apesar da tragédia de Ímola, não se pode dizer que
os Senna da Silva abdicaram da emoção da velocidade. Aproveitando a
oportunidade oferecida pelo Salão do Automóvel, na última semana de outubro,
Leonardo arrematou para os momentos de lazer, numa opção aos videogames que
mantém em seu amplo apartamento dos Jardins, um Lamborghini Diablo VT, um
bólido equipado com motor de 12 cilindros e que vai da imobilidade aos 100
quilômetros por hora em pouco mais de quatro segundos. O brinquedo, recomendado
apenas para os iniciados, custa US$ 391 mil, o preço de um bom apartamento na
Zona Sul de São Paulo. "É quase um carro de pista, como eu sempre
quis", afirmou Leonardo, radiante e ao mesmo tempo incomodado com a
descoberta de sua compra.
A irmã Viviane optou por abandonar temporariamente
os clientes de seu consultório de psicologia para se dedicar exclusivamente a
organizar a Fundação Ayrton Senna. Por conta desses compromissos, tem passado a
maior parte do tempo no exterior, representado a família nas centenas de
homenagens que pipocaram em memória do piloto. Quando está em São Paulo, ela é
protegida por uma secretária fiel e pouco humorada, responsável pela triagem da
correspondência e das ligações que chegam ao escritório no bairro de Santana.
Ao fax enviado pelo Jornal do Brasil com um pedido formal de entrevista, Viviane
respondeu tão gentil quanto negativamente. "Devido ao próprio
estabelecimento da Fundação, estou dedicando todo o meu tempo disponível para
isso, não sendo possível atendê-lo no momento."
A família Senna continua vivendo em função de Ayrton
não somente em razão dos inúmeros negócios iniciados pelo piloto, como a venda
dos automóvies alemães Audi e dos eletrodomésticos italianos DeLonghi. Tudo o
que cerca os Senna da Silva continua sendo notícia. Coincidência ou não, a
velocidade permanece como o principal mote. A revista inglesa Autosport trouxe
na edição de duas semanas atrás a informação de que o Grupo Ayrton Senna estaria
estudando a viabilidade econômica de montar sua própria equipe de Fórmula-1. A
família, porém, mantém silêncio sobre o caso – que agita a Europa e desperta a
cobiça de muitos pilotos endinheirados e desempregados pelo mundo.
Os símbolos de status e riqueza que se tornaram
marcas registradas do piloto quando vivo continuam ativos, embora de forma bem
menos cinematográfica. O helicóptero Esquilo utilizado pelo piloto para as
fugas à mansão de Angra dos Reis hoje transporta a família para os fins de
semana na fazenda de Tatuí. O Lear Jet 35, que durante muito tempo serviu como
opção aos aborrecidos vôos comerciais que Ayrton era obrigado a frequentar é o
meio mais prático de levar os executivos da Senna Import em inauguração de
concessionárias Audi pelo país.
A mansão de US$ 4 milhões em Angra ainda serve como
refúgio para Leonardo e amigos nos fins de semana prolongados e de muito calor.
A vida social da família Senna da Silva também mudou, mas não radicalmente. Milton e Neyde, os pais de Ayrton, continuam tão
arredios quanto antes do acidente. Eles se preocupam com assaltos e sequestros,
motivos que levaram o casal a se mudar, há dois anos, da ampla casa da Avenida
Cantareira, Zona Norte, para um apartamento duplex no Pacaembu.
O casal cumpre poucos compromissos, geralmente em
família, e se refugia na fazenda de Tatuí nos fins de semana – foi lá, por
sinal, que Milton da Silva fraturou o fêmur numa queda na sauna, semanas antes
da tragédia de Ímola. Ele não recobrou totalmente os movimentos da perna, mas
já não usa bengala.
Dona Neide continua se dedicando aos assuntos
familiares. A mãe do Senna e a irmã dele sempre andam acompanhadas de motoristas
e seguranças. Milton da Silva voltou a trabalhar na semana seguinte à tragédia
que se abateu sobre a família. Do alto da torre de vidro de 16 andares que
Ayrton construiu no bairro de Santana há três anos, ele continua atuando como
"conselheiro" nos negócios tocados por Leonardo, pelo genro Flávio
Lalli e pelo sobrinho Fábio Machado.
Às saídas noturnas de Leonardo Senna continuam sendo
frequentes. Leonardo frequenta semanalmente a boate Gallery e é uma das figuras
mais requisitadas da casa. Ultimamente, tem requisitado também os bons
restaurantes para divulgar os resultados dos negócios da família, que vão muito
bem, obrigado.
Uma das tarefas mais penosas que se seguiram à morte
de Ayrton foi localizar a modelo e mais famosa namorada do tricampeão. Ela
andava nesses meses todos totalmente reclusa. Portugal? Campinas? São Paulo?
Onde esteve Adriane?
Nos últimos sete meses, Adriane praticamente não
teve contato com a família do ex-namorado, em especial com dona Zaza (como
trata dona Neyde, mãe de Ayrton), mas nega que senha sido simplesmente ignorada
pelos Senna da Silva. Diplomaticamente, justifica a distância com o argumentos
que "perdeu Ayrton depois de um ano e meio, enquanto os pais e a família o
perderam depois de 34 anos". Adriane também não gosta de falar no episódio
do cancelamento, por parte de Leonardo Senna, da conta conjunta que mantinha com
o namorado. "Isso tudo é abobrinha. E ponto final", encerra,
irritada.
FONTE PESQUISADA
BASCCHERA,
Roberto. No vácuo do campeão. Jornal do Brasil, dezembro de 1994, páginas
35 - 38.
Dona Neyde revelou histórias do jovem Ayrton Senna (da
adolescência até os 23 anos) a ator que o interpreta no teatro
Ayrton Senna gostava de ouvir histórias de pessoas
menos favorecidas como moradores de rua, contou a mãe dona Neyde
Os atores Hugo Bonemer e João Vitor Silva,
interpretes respectivamente de Ayrton Senna ídolo e jovem em "Ayrton
Senna, O Musical", pediram para conversar com Dona Neyde Senna, mãe do
tricampeão mundial de Fórmula 1. João Vitor (Beco, o Senna jovem), contou a
história que mais lhe deixou surpreso.
João Vitor Silva faz Beco (pronuncia-se Béco), o
Senna quando jovem, no período que abandonou o automobilismo e foi cuidar de
uma loja de materiais de construção da família. Enquanto Hugo Bonemer
interpreta Ayrton piloto e já como ídolo da Fórmula 1.
Pai (Milton da Silva), irmã (Viviane Senna) e
irmão (Leonardo Senna) de Ayrton Senna tramaram para separá-lo da mulher que
amava, Adriane Galisteu
O que aconteceu na suíte 200: as últimas horas de
Ayrton Senna?
Revista Play Ground Magazine, 22 de março de 2018
TRADUÇÃO LIVRE DO ESPANHOL
Entre a frase "não corra amanhã" e um
movimento da cabeça que nos confundiu a todos: este foi o fim de um campeão
irrepetível
Macarrão com tomate, presunto, salada, água e um
copo excepcional de vinho. Esse foi o último jantar de Ayrton Senna na
Trattoria Romagnola em Castel San Pietro Terme, não muito longe de Bolonha e
muito perto do circuito onde ele perderia a vida, o de Ímola. Era sábado,
30 de abril de 1994.
Dois fatos das horas que antecederam aquele jantar
marcariam os últimos momentos do tricampeão mundial brasileiro , conforme
relato da reconstrução do jornalista italiano Giorgio Terruzzi, A Última
Noite de Ayrton Senna , publicado agora por Contra . No treino de
qualificação daquele dia, o austríaco Roland Ratzenbergerperdeu a vida
quando saiu da pista e bateu de frente numa parede. O choque adicional foi
que a Fórmula 1, o espetáculo de risco permanente, se tornara desacostumada à
morte. Pelo menos durante um final de semana do Grande Prêmio: não houve
nenhum acidente fatal por 12 anos.
Assim que descobriu, Senna sentiu que precisava
fazer alguma coisa. Ele entrou no carro de segurança e chegou ao local
onde os médicos tentaram impedir a morte do austríaco. O que Senna fez foi
proibido e a federação sancionou-o por isso. Mas além do maior defensor
público da segurança dos pilotos, o brasileiro sabia que era um líder . Eu
só tinha que estar lá, com Ratzenberger.
Sid Watkins, o anjo da guarda neurocirurgião da F1,
disse-lhe: "Ayrton, não corra amanhã, vamos pescar, eu me
aposentado com você". De fato, o brasileiro pediu que a
organização suspendesse a corrida no dia seguinte. A resposta: “não”.
Do circuito, Ayrton telefonou para sua namorada,
Adriane Galisteu. Eles estavam juntos há um ano. Ele lhe disse
que não queria correr [a prova de Ímola no dia seguinte]. Ele foi
para o hotel onde sempre ficava antes do Grande Prêmio de Ímola, sempre no
mesmo quarto, Suite 200 .
Hall da suite
200 do Hotel Castello
O quarto está idêntico, apenas o que mudou foi o televisor.
suite 200
Lá seu irmão Leonardo apareceu, pouco antes do
jantar, Leonardo lhe trouxe uma fita com uma gravação telefônica na qual Adriane falava com um ex-parceiro. Não era segredo para o piloto que sua família -
uma família de bons e maus - não aprovava o relacionamento com a garota que
trabalhava como modelo e grid girl.
A sétima volta o esperava na manhã seguinte [Senna bateu e morreu na 7ª volta]. A
curva de Tamburello. Ele era líder [saíra na pole position]. O
planeta prendeu a respiração diante da televisão. Um aceno de cabeça que
todos nós queríamos acreditar como prova de que Ayrton estava bem. [Ayrton mexeu a cabeça mas foi apenas um espasmo muscular - movimentos involuntários]
****************
O membro da família que dona Neyde Senna tinha
afinidade era com seu filho do meio, Ayrton
Diferente dos outros três da família – Milton,
Viviane e Leonardo – Neyde e o filho Ayrton
sempre tiveram atitudes de compaixão com o próximo. Ela diz que o ex-piloto era
o único de seus filhos que seguiu seus ensinamentos (mas ela frisa que na verdade isso já era dele mesmo).
"...eu
sou suspeita, viu? (emocionando-se muito). Ele tinha um sentimento muito
pronunciado, muito forte (...) na escola, quando ele brigava, geralmente era
(...) para defender o que estava apanhando. Então, ele se metia no meio
das brigas. Acho que isso é uma coisa nata na pessoa e foi colocado para os
três (filhos) igual. Eu criei os três iguais, mas ele tinha essa coisa, assim,
mais forte."
Dona Neyde Senna falando sobre o filho Ayrton Senna em entrevista concedida em 1998.
****
Adriane Galisteu foi vitíma de um complô de pai e irmãos do homem que amava, mas mãe de Ayrton teve uma bela e muito digna atitude com a modelo nos últimos encontros que as duas tiveram.
No portão (do prédio
de Senna), enquanto Adriane entrava no carro, Neyde agradeceu Antônio Braga (ex-banqueiro, melhor amigo de Ayrton) e Luiza (esposa do ex-banqueiro) por cuidarem dela e a pediu desculpas pela forma como o restante de sua
família havia se comportado. Quando Neyde se foi, Braga virou-se para sua
esposa e disse-lhe: "É daí que Beco [Ayrton] saiu (Braga quis dizer que
Ayrton puxou a mãe)." Luiza assentiu (concordou). Ela não precisava perguntar
o que seu marido quis dizer; ela soube instintivamente.
Retirado do artigo "A despedida de Neyde Senna e Adriane Galisteu", leia na íntegra.
****
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERNARDO, A.A., 1998. Efeito Tamburello: um estudo antropológico sobre as imagens de Ayrton Senna. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. Santa Catarina. Brasil.
19/03/18 | Equipe Online - online@jcruzeiro.com.br
Cruzeiro do Sul - jornalcruzeiro.com.br
Por MARCO MERGUIZZO
(*) Siga também no Instagram o conteúdo exclusivo do
@blog1gole1garfada1viagem
Se ainda estivesse entre nós, Ayrton Senna da Silva
(1960-1994) completaria nesta quarta-feira, 21/3, 58 anos de vida. Se não
tivesse ocorrido o trágico acidente do GP da Itália, há exatos 24 anos, um dos
maiores mitos do automobilismo mundial seria um senhor quase sessentão.
Tricampeão de F-1 por três vezes - aos 28 de idade, depois aos 30 e 31,
respectivamente nos anos de 1988, 1990 e 1991, Ayrton era um monstro nas pistas
de corrida, sobretudo quando o céu desabava e São Pedro resolvia firmar com ele
uma afinada e "celestial" parceria. Que Prost e Piquet, seus
principais adversários dentro e fora das pistas, que o digam.
Mas enumerar os feitos de Senna a 300 km por hora,
sob chuva ou em tempo seco em bólidos que hoje, passados 24 anos de sua morte
ocorrida no dia 1º de maio de 1994, um domingo lúgubre, no circuito italiano de
Ímola, no GP de San Marino, é coisa de especialistas. Caso dos colegas
blogueiros do Cruzeiro do Sul, os craques Adalberto Vieira do "Vou de
Carro" e Guto Mauad do "Nas Pistas". De todo modo, aí vão
algumas estatísticas que ilustram a carreira fenomenal e a sua genialidade ao
volante: da primeira temporada, em 1985, à sua última, em 1994, foram 3
títulos, 41 vitórias, 65 pole positions, 80 pódiuns, 2.982 voltas na liderança
e 19 voltas mais rápidas.
O fato é que Ayrton era um piloto cujos predicados
se sobrepunham. De um talento inegável, tinha técnica e habilidade apurados e
era um perfeccionista demolidor de pole positions e de voltas mais rápidas em
quaisquer condições. Um extraclasse, um Pelé sobre quatro rodas. Ou, trazendo
para os dias atuais para a galera mais jovem, o Messi da velocidade na
categoria máxima do automobilismo. Depois dele nenhum outro brasileiro
desafortunadamente assumiu o posto de número um do mundo - e lá se vão 24
longos anos. E para mim, que me perdoem os piquetistas mais fiéis e fervorosos,
os schumackeristas de plantão e os vettelistas e hamiltonlistas de hoje, o
melhor de todos os tempos.
Foto: Arquivo
(Dá uma olhada no final deste post na performance de
Senna na memorável primeira volta em Donington Park, na Inglaterra, considerada
a mais extraordinária da F-1 em todos os tempos, e tire as suas próprias
conclusões).
De todo modo, esta é a opinião de um fã de
carteirinha, claro, porém, insuspeito, já que presenciei ao vivo e em cores em
Interlagos e nas centenas de vezes defronte à telinha nas inesquecíveis manhãs
e madrugadas de domingo, toda a destreza de Senna diante de outras feras, como
Prost e Schumacher, em manobras ultraarriscadas e quase impossíveis de se fazer
mesmo para pilotos experientes e de igual habilidade. Seja a bordo da Toleman
branca, da Lotus negra (que consagrou nos anos 1970 Emerson Fittipaldi), da
McLaren vermelha e branca e da Williams branca e azul - as quatro que Ayrton
defendeu ao longo de dez anos de glórias na F-1 -, ele as pilotava com incrível
maestria. Melhor: dava show.
Foto: Arquivo
Mas se Senna era um bambambã no cokpit e um piloto
genial e requintado ao volante, à mesa, confraternizando com familiares,
namoradas e amigos com os quais conviveu mais proximamente, ele era um sujeito
extremamente simples que se rendia à boa e reconfortante comida caseira
preparada pela mãe, dona Neyde, e às suas melhores memórias gustativas vividas
nos bairros de Santana e Jardim São Paulo, zona norte da capital paulista, onde
nasceu e passou a infância e a sua adolescência.
Longe de ser um "piloto de fogão" ou
cozinheiro curioso, muito pelo contrário, Ayrton tinha fama de ser "bom de
garfo" mas que não se arriscava a preparar um ovo frito ou sequer um prato
de macarrão instantâneo. Magro como um bebedor de chá, além de atleta
ultradisciplinado já preocupado à época com sua condição física e psicológica,
ele gostava de comer não só bem mas em quantidade, servindo-se de porções
invariavelmente "fartas e generosas", segundo relatos tanto da mãe quanto
de familiares e amigos próximos.
E como todo brasileiro, sua comida predileta no dia
a dia era um bom e sempre bem-vindo prato de arroz, feijão, bife e batata
frita, o chamado PF (prato feito), campeão da preferência nacional (confira no
final do post a origem desta festejada combinação tipicamente brasileira).
Também gostava de acompanhar as refeições com "baldes" de Guaraná
Antarctica, de longe o seu refrigerante predileto e que não encontrava nas
cidades do Velho Continente, por onde o circo da F-1 passava durante as dez
temporadas que participou.
À MESA, UM CAMPEÃO DA SIMPLICIDADE
O jovenzinho Senna à mesa com o mano Leonardo e a
mãe, Dona Neyde: o primeiro a chegar e o último a sair - Arquivo
Ou seja, de gostos particulares ou exigências
gastronômicas difíceis de serem atendidas, Senna tinha muito pouco ou quase
nada. Ao contrário: discreto e de paladar simples, preferia o ambiente
doméstico aos holofotes e a agitação dos restaurantes nas raras vezes que ia.
Sabe-se que como bom paulistano e fã da cozinha cantineira, o tricampeão tinha
uma queda pela cozinha italiana e procurava em todo o mundo onde o circo da F-1
perambulava por endereços do país da Bota.
Senna amava massas, devorando-as sem restrições toda
vez que poderia. Porém, era exigente e não abria mão de dois preceitos
culinários quase que sagrados no país da Bota: as pastas tinham que ser cozidas
sempre al dente, no seu ponto exato, nem muito mole, nem muito dura, além de o
molho de tomate pelato (sem pele) e vero (o verdadeiro italiano), ser do tipo
artesanal, fresquinho, como se faz em casa - e não o industrializado. Tal menu,
por sinal, rico em carboidratos, era recomendado por seu preparador físico,
amigo e espécie de guru Nuno Cobra, buscando recuperar as energias e os 4 kg
que todo piloto de alto nível costuma perder em uma prova automobilística de
quase 2h de duração.
Assim, um substancioso prato de macarrão ao sugo
(cuja pasta podia ser o taglierini ou clássico spaghetti) era capaz de
arrancar-lhe um enorme sorriso. No livro autobiográfico de Adriane Galisteu,
"Caminho das Borboletas" (1994, Editora Caras), a ex-namorada de
Ayrton à época e hoje apresentadora registrou as predileções do piloto à mesa:
"Quando estávamos juntos, quase não frequentávamos restaurantes. Mas
quando saíamos para comer, Ayrton escolhia sempre os restaurantes italianos,
independentemente do país em que estivéssemos."
Com a jovem modelo, a "furacão" Adriane
Galisteu: o mais polêmico relacionamento do homem Senna - Arquivo
Dentre as preparações que levam a talvez mais famosa
pasta seca peninsular - o spaghetti - a versão "al torchio" preparada
na Trattoria Romagnola, endereço frequentado nos anos 80 e 90 pelos pilotos de
F-1 nos arredores de Ímola, entre Bolonha e San Marino, era a que encantava o
paladar do tricampeão, que pedia sempre o mesmo prato todo santa temporada.
Foto: Arquivo
Acredita-se que este tenha sido, inclusive, o prato
de seu último jantar antes do fatídico acidente. De concepção simples, como é
por sinal a essência da culinária italiana, harmoniza a massa al dente com
tomates pelatti (sem pele) e basilico (manjericão) frescos, azeitonas pretas,
um lance de azeite de olivas italiano e lascas do legítimo queijo grana padano,
glória da gastronomia peninsular e mundial produzida na cidade de Parma, no
coração da província de Bologna.
Mas Senna também tinha obviamente suas antipatias
gastronômicas. O eterno campeão não comia, por exemplo, nem que fosse amarrado
ao pé da mesa, carne de porco, quiabo e jiló. De acordo com Adriane Galisteu,
em seu livro, também causava-lhe aversão quase que atávica a comida servida na
Inglaterra e no Reino Unido (cujas culinárias, de fato, jamais tiveram boa
fama), onde Ayrton passou vários anos correndo antes de ingressar na F-1, caso
da Fórmula Ford, onde iniciou a sua trajetória campeão inglês, europeu e,
depois, mundial.
"Em Londres, ficávamos no Hotel Barclay e
repetíamos invariavelmente o mesmo prato no restaurante Marcus, que é um
restaurante de alta cozinha, moderno e delicioso: a tradicional zuppa di
pomodoro (ou sopa de tomates). Também conhecida como pappa, este tradicional
caldo mediterrâneo, feito à base de tomates italianos perfumado com manjericão,
é uma receita popular muito apreciada durante o inverno, cujo ritual pede que
se mergulhe o pão na infusão para melhor apreciá-la".
Zuppa di pomodoro: substancioso caldo italiano
sorvido por Senna no hotel Barclay, em Londres - Arquivo
Ainda no departamento das sopas, outro clássico da
lista de preferências de Senna era uma singela e revigorante canja de galinha
preparada por dona Juracy, sua governanta na mansão que mantinha na região do
Argarve, no sul de Portugal. Qualquer "buraco" em sua concorrida
agenda, o piloto não hesitava em pegar o jatinho ou o carro rumo à Terrinha,
numa escapada providencial para satisfazer o paladar e ao mesmo tempo afagar a
alma, e assim matar as saudades do Brasil.
"Imaginem um tricampeão do mundo, reverenciado
como um semideus, descendo para o café da manhã com aquela cara amarfanhada de
sono, só de calção e chinelo, sem camisa, barba por fazer, brigando com o amigo
que lhe rouba a torrada com requeijão, ou, depois, no almoço, com o cotovelo
esquerdo apoiado na mesa enquanto a mão direita, armada de um garfo e operando
como se fosse uma pá, escavava um pratão de talharim com muito molho de tomate
- al dente, exigia ele. Ele era, também na hora de comer, o rei da massa".
"O Nuno manda comer pasta, para recuperar
energia - tentava desculpar o Béco (apelido familiar de Senna) a sua
voracidade, convocando o distante testemunho de seu histórico amigo e
preparador físico. (Fiquei sabendo que, de fato, um piloto como ele perde de
três a quatro quilos numa prova. Tagliatelle nele!)
(Trechos do livro "Caminho das Borboletas"
(de 1994), de Adriane Galisteu, em que a autora e ex-namorada de Senna revela a
paixão do piloto brasileiro pelas massas).
Senna com a equipe McLaren: massinha esperta para recuperar as energias
e os quilos perdidos durante a corrida - Arquivo
De paladar afetivo e quase infantil, Senna também
não se furtava aos doces portugueses, como os travesseiros de Sintra (massa
folhada recheado com creme de amêndoas), servidos no restaurante A Toca do
Júlio (Estrada do Rodízio, 12 2705-335), situado em Colares, próximo à Sintra,
que costumava frequentar durante os GPs de Estoril, e onde saboreava suas
famosas receitas. Mas o doce que ocupava, definitivamente, o lugar
mais alto do pódio das preferências do piloto brasileiro eram os profiteroles.
Travesseiros de Sintra: tentação lusitana feita de massa folhada e
recheio de creme de amêndoas - Arquivo
Hoje globalizada e amplamente conhecida, a receita
de origem francesa é bastante antiga. Data do século XVI. Foi criada pelo
italiano Popelini, chef-pâtissier de Catarina de Medici, que resolveu rechear a
massa choux, levíssima com creme de confeiteiro, derramando sobre ela calda de
chocolate quente. Touchée! Conquistou de cara a rainha e milhões de pessoas no
mundo todo, ao longo de mais quatro séculos, incluindo o campeão Ayrton Senna.
Profiteroles: no topo do podium das preferências do comilão Ayrton Senna - Arquivo
DO MAIS VELOZ NAS PISTAS AO RETARDÁRIO ZEN À MESA
Mas ao contrário da velocidade e do arrojo de Senna
nas pistas, seu comportamento à mesa era diametralmente zen e sereno. Calmo e
tranquilo, manejava os talheres "em primeira marcha", saboreando
parcimoniosamente os alimentos, garfada a garfada, com a fleuma de um mestre
budista. Fato impensável nas provas que disputou, a bandeira de retardatário
era agitada volta e meia para Ayrton por sua mãe, Dona Neyde, que o apressava
para terminar de comer, enquanto os irmãos já tinham devorado a sobremesa e
recebido a bandeirada final.
Tais encontros familiares aconteciam tanto na
residência dos pais em São Paulo como no interior paulista. Como é sabido a
família Senna até hoje mantém uma fazenda com um autódromo particular na região
de Sorocaba, mais precisamente no município de Tatuí, onde Ayrton vinha descansar
e se divertir - correndo, claro! - a bordo de seus karts. Já em Angra dos Reis,
outro reduto de repouso do piloto, a velocidade e adrenalina das pistas eram
trocadas pelos jet-skies e o mar cenográfico do litoral sul do Rio.
Na cidade vizinha, o ídolo brasileiro costumava
provar as massas caseiras preparadas pela tradicional Trattoria Della Nonna
(Rua 13 de Fevereiro, 565, Centro, Tatuí, tel. (15) 3305-3328), da família
Visciglia, na companhia dos pais, seu Milton e dona Neide Senna da Silva [e de Adriane Galisteu], habitualmente
nos jantares de sábado. Misto de cantina e rotisseria, o lugar ficava na
SP-127. Com mais de três décadas de existência, o local permanece aberto até
hoje em seu atual endereço no Centro da cidade.
Spaghetti ao sugo: simples e saboroso, era um dos
pratos prediletos de Ayrton em qualquer lugar do planeta - Arquivo
PF: A PROVÁVEL ORIGEM DE UM ENCONTRO CULINÁRIO
CELESTIAL
Para o escritor Luís Fernando Veríssimo, o prato da
unidade nacional atesta a malandragem do nosso povo. No bom sentido. O
feijão-com-arroz celebra uma poderosa parceria de aminoácidos que começou a ser
feita por simples intuição no Brasil a partir do século 16. A lisina do
primeiro precisa da metionina do segundo. Como em qualquer casamento, os
parceiros se complementam. No caso, o que demorou foi para serem apresentados.
A origem do feijão é americana. Há duas hipóteses.
Ele teria surgido 7 mil anos antes da era cristã, no México; ou ainda 3 mil
anos antes disso, no Peru. Na Grécia e no Egito antigo, o feijão era cultivado
como símbolo da vida. Os romanos antigos o usavam nas festas gastronômicas e
até para pagar apostas. As ruínas de Tróia revelam evidências de que o feijão
era o prato favorito dos guerreiros. E tudo indica que as guerras foram as
principais responsáveis por sua disseminação.
No Brasil, já existia feijão antes da chegada dos
portugueses, mas os índios não morriam de amores por essa leguminosa. Os negros
escravizados também não. Como os portugueses gostavam mais de favas, supõe-se
que foi o brasileiro que se tornou o grande consumidor de feijão. E por um
simples motivo – além de nutritivo, o plantio é fácil e rápido. O feijão foi
importante durante todo o Brasil colonial e imperial. A partir do século 17,
tornou-se a força promotora de energia e passou a fazer parte de toda refeição.
Arroz, feijão, bife, batata frita e salada: o eterno tricampeão não trocava um PF por nada - Arquivo
E o arroz? O cereal pode ter surgido surgiu 2.000
anos a.C., na Indochina. Ou em berço africano, no Vale do Níger, ao redor de
1000 antes da era cristã, como descreve o historiador Henrique Carneiro:
"Era uma gramínea de solo seco e foi a ação humana que a adaptou
artificialmente, após 2 mil anos de cultivo, como uma planta semi-aquática.
O arrozal aquático foi uma imensa conquista,
desenvolvida na China entre o quinto e o primeiro séculos anteriores à era
cristã, e que permitiu a ampliação da produção a ponto de transformá-lo na
cultura de mais alta rentabilidade por hectare até a época moderna", relata.
O cereal foi usado não só para alimentação. As variedades especiais eram usadas
como oferendas em cerimônias religiosas na Índia. Mas o árabe foi o grande
responsável por sua disseminação.
Nas Américas, ele chegou com os espanhóis. Não se
sabe ao certo se no Brasil já havia arroz cultivado antes da chegada dos
portugueses. Mas os índios brasileiros deram de ombros à novidade não o
incorporando na sua dieta diária. Como conta Câmara Cascudo, "sozinho, ele
não fartava ninguém, como a farinha seca ou o milho cozido. A forma típica era
o arroz cozido na água e sal, úmido, compacto, quase um pirão espesso. O arroz
solto, seco, aparecendo nos hotéis e residências abastadas foi resultado de
fórmula posterior, urbana, chegando ao "arroz de branco", elementar
mas exigindo cuidados na fervura e atenções no ponto".
Primeiro, veio a aproximação por afinidade – ambos,
sozinhos, passavam a sensação de que faltava alguma coisa. Com o passar dos
anos, descobriu-se que, associado aos cereais, o feijão fornece um suprimento
ideal de carboidratos, fibras e, sobretudo, de proteínas. Segundo
nutricionistas e especialistas em alimentação, a mistura potencializa a síntese
de proteínas essenciais para a reparação e construção de tecidos e para a
produção de hormônios. Ou seja, com o tempo, descobriu-se que havia uma
"química" poderosa nessa união.
Mais modernamente, entre o final do século XIX e o
início do XX, com a urbanização do país, a esses protagonistas se juntariam o
bife, o ovo e a batata frita. Batizado de "prato feito" ou
simplesmente PF, o prato se popularizou a partir dos registros dos primeiros
restaurantes do Brasil, durante esse período. Tais lugares surgem a partir da
necessidade de se oferecer pouso e comida aos trabalhadores e estudantes que
vinham de longe. A partir da década de 1950, com a explosão populacional nos
grandes centros urbanos, o PF se populariza.
Hoje, as opções na hora de comer são bem maiores,
com o avanço cada vez mais forte dos restaurantes a quilo dos dias atuais.
Porém, o tradicional PF ainda mantém espaço cativo no paladar da maioria dos
brasileiros. Como também era no do quase sessentão - caso ainda estivesse vivo
- Ayrton Senna. Que, por sinal, como todo campeão, continuará vivo e eterno na
memória de milhões de brasileiros e de fãs espalhados pelo todo o mundo.
Grazie mille, Ayrton. Manjamo che ci fa molto bene.
[Na verdade é Mangiamo. Grazie mille, Ayrton. Mangiamo che ci fa molto bene. Tradução do italiano: Muito obrigado, Ayrton. Nós comemos, isso é muito bom para nós. / Acho que eles [equipe da reportagem] quiseram dizer que provaram/comeram todos os pratos favoritos de Ayrton em sua homenagem.]
(*) Marco Merguizzo é jornalista profissional
especializado em gastronomia, vinhos, turismo e estilo de vida. Confira outras
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A MELHOR PRIMEIRA VOLTA DE TODOS OS TEMPOS DA F-1
(DONINGTON PARK 1993)
A
RECEITA PAPPA POMODORO ETERNIZADA NA VOZ DA CANTORA ITALIANA RITA PAVONE
FEIJÃO COM ARROZ (DANIELA MERCURY)
FONTE PESQUISADA
MERGUIZZO , Marco. Piloto de fogão ou ás do garfo?
Descubra os pratos campeões, restaurantes e predileções à mesa de Ayrton Senna,
que nesta quinta, 21, faria 58 anos. Disponível em: <https://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/869922/piloto-de-fogao-ou-as-do-garfo-descubra-os-pratos-campeoes-restaurantes-e-predilecoes-a-mesa-de-ayrton-senna-que-nesta-quinta-21-faria-58-anos>.
Acesso em: 19 de março 2018.