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quinta-feira, 4 de março de 2021

OS ENIGMAS DE IMOLA

 


No horário da Itália, eram 13h27 do dia 1º de maio de 1994, quando Ayrton surgiu dos fundos do boxe da Williams, macacão amarrado à cintura, pronto para entrar no carro e seguir para o grid de largada. Como fazia em todas as corridas, o cinegrafista Armand Deus, da TV Globo, apertou o botão de sua câmera Betacam e começou a captar as imagens.

 

Procedimento de rotina. Não era uma transmissão ao vivo.

 

As imagens seriam usadas para ilustrar a reportagem sobre a corrida que o correspondente Roberto Cabrini editaria no final do dia, a tempo de ser gerada para o Rio de Janeiro e exibida no programa Fantástico.

 

Não era um dia de sorrisos para ninguém no autódromo de Imola.


Menos ainda para Ayrton, que havia anos já assombrava mecânicos, engenheiros, jornalistas e namoradas com sua capacidade de se concentrar nos momentos que antecediam à largada, tornando todos à sua volta rigorosamente invisíveis e inaudíveis. Seu olhar, naqueles momentos, parecia estar em outra dimensão. Sua seriedade formava uma muralha da qual poucos ousavam se aproximar, não importando a patente familiar ou a relação contratual.

 

Para alguns, naqueles momentos ele antecipava curvas e movimentos dos adversários. Para outros, rezava. Outros ainda achavam que aquela era uma travessia sensorial para um mundo cheio de fúria que só cabia e existia no cockpit. Uma travessia sem volta até que a corrida, a dele, terminasse.

 

A câmera de Armand Deus continuava gravando quando Ayrton se aproximou da parte traseira de sua Williams e pousou as mãos sobre o aerofólio.

 

Teve uma rápida conversa sobre a suspensão traseira com o engenheiro David Brown. Depois, seu olhar passou a se alternar entre o nada e a Williams, ainda suspensa nos cavaletes, sem as rodas, recebendo os últimos ajustes dos mecânicos.

 

Era mais do que a concentração de sempre. Havia uma contida inquietação. E também uma tristeza solene e impotente. Estavam ausentes, no seu semblante, como desde o início daquele ano, a intensidade e aquele olhar de predador dos tempos da Lotus e da McLaren. Nem mesmo o rápido comentário de Patrick Head, o diretor da Williams, pareceu diminuir a distância que ele mantinha de tudo que o rodeava.

 

Algum pensamento finalmente o resgatou daquela estranha dispersão para o ritual do cockpit: balaclava, capacete, macacão fechado até o pescoço e uma espera disciplinada, de pé, com as mãos cruzadas sobre a cintura, pela ordem de entrar no carro e ajustar o cinto de segurança.

 

As imagens gravadas por Armand Deus no boxe da Williams e, minutos depois, as que foram feitas no grid de largada, quando Ayrton mudou a rotina e tirou o capacete, se tornaram históricas. Deflagraram o sofrido exercício ao qual milhões de pessoas, especialmente os brasileiros, se entregaram nos dias seguintes: o que estava por trás daqueles últimos olhares, gestos e silêncios?

 

Havia muitas respostas possíveis, sozinhas ou combinadas. Dentro e fora da pista.

Schumacher estava ali, quase ao lado, mais do que nunca disposto a destroná-lo. Roland Ratzenberger morrera depois de uma batida centenas de metros à sua frente, no dia anterior, e o fizera, pelo menos por algumas horas, desistir de correr. Rubens Barrichello, que ele vinha tratando como uma espécie de irmão mais novo das pistas, sobrevivera a um acidente assustador, na sexta-feira. Aquela Williams que ele chamava de "cadeira elétrica", um carro arisco e difícil de guiar, estava consumindo pneus com preocupante rapidez.

 

A placa de um minuto foi erguida.

 

Vinte e cinco motores de Fórmula 1 começaram a rugir.

 

Ayrton, na hora de acelerar, costumava deixar todas as preocupações de lado. Não trocava as emoções do cockpit por nada da vida. Em mais alguns segundos, ele se entregaria de novo à aventura que tinha começado aos quatro anos de idade, ao soar de um motor de picadeira de cana, com três cavalos de potência.


FONTE PESQUISADA

RODRIGUES, Ernesto. Ayrton, o herói revelado. Edição 1. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2004.

 









segunda-feira, 21 de maio de 2018

Senna Pensou em Não Correr, Diz Namorada

São Paulo, terça-feira, 3 de maio de 1994

JAIR RATTNER 

DE LISBOA, ESPECIAL PARA A FOLHA



Adriane, namorada de Senna, chora com amiga na casa onde se hospedou em Portugal

Depois do acidente que matou o piloto Roland Ratzenberger, Ayrton Senna disse à sua namorada, Adriane Galisteu, que não queria correr em Ímola.

"Eu falei com ele pelo telefone. Perguntei se estava tudo bem e ele disse que não estava nada bem, que não ia mais correr, que estava muito impressionado", conta Adriane.

À noite do mesmo dia, Senna já estava mais calmo. "Falei com ele de novo e ele me disse para não me preocupar. Disse: `Não se esqueça de uma coisa, eu sou forte, muito forte'."

Adriane contou isso numa entrevista coletiva realizada em Sintra, a 20 quilômetros de Lisboa.

Ela afirmou que Senna não sofreu nenhuma pressão da equipe para correr. "Ele queria correr com o carro. Ele só conseguia fazer a pole, mas não conseguia correr com ele."

Adriane assistiu à corrida numa casa do seu namorado que fica em Algarve, sul de Portugal. "Fiquei apavorada na hora que vi o acidente. Aquele minuto e meio até ele ser atendido foram horas", comentou.

Bastante emocionada, avaliou: "Foi uma tremenda perda para mim, para o esporte e o mundo".


A primeira reação de Adriane foi pegar um avião e ir para a Itália. Quando o avião estava para decolar, recebeu a notícia da morte de Senna.

Ontem, ele ainda não tinha se recuperado do choque. "Eu ainda não acordei."

Com 21 anos feitos há duas semanas, ela namorava o piloto havia pouco mais de um ano. Conheceu Senna na festa da vitória do GP do Brasil do ano passado.

Adriane vem amanhã ao Brasil. "Pretendo chegar ao Brasil junto com ele. Vou tentar chegar o mais em cima da hora possível e voltar o mais rápido que der", para evitar o assédio.

Pretende ficar em Portugal até decidir o que fazer. "Vai sair uma capa minha numa revista, mas nem tenho vontade de ver as fotos."

Nesta semana, os dois deveriam se encontrar na Inglaterra, onde Senna faria testes com vistas ao GP de Mônaco. 





FONTE PESQUISADA

RATTNER, Jair. Senna pensou em não correr, diz namorada. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/5/03/esporte/4.html>. Acesso em: 21 de maio 2018.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Reginaldo Leme Relata Momentos Dramáticos Após Acidente Fatal de Ayrton Senna na Itália

Trecho do livro Ayrton Senna: As time goes by escrito pelo jornalista britânico Christopher Hilton



TRADUÇÃO LIVRE

Reginaldo Leme trabalhou para o canal brasileiro TV Globo ao longo da carreira de Senna. "Eu estava [no dia do acidente de Ayrton] comentando junto com Galvão Bueno. Fiz a análise. No Brasil é diferente da Inglaterra: chamamos o comentarista de analista, e você chama o comentarista de pessoa que lhe conta o que está acontecendo. Bueno fez isso e eu era o analista "

"Galvão era o melhor amigo de Senna e, é uma incrível coincidência, mas naquele momento do acidente em Ímola - naquele exato momento - Galvão não estava olhando o monitor. A antiga cabine de transmissão em Ímola era muito pequena, não podíamos ver os carros e os pits, e Galvão estava tentando ver alguma coisa nos boxes. Eu empurrei-o com muita força para prestar atenção no monitor. Quando ele se virou e viu o monitor foi terrível.O rosto dele mudou.

*Pits: a parada dos pilotos nos boxes.
*Box: Local que fica alojado tudo de uma equipe: carros, peças...

"Senna bateu, bateu forte e Galvão ficou em silêncio. Durante os 15, 20, 30 minutos seguintes, estimadamente, eu tive que falar e as imagens estavam ficando cada vez piores. Normalmente ele fala e eu fico esperando a minha vez. Eu não achava que Senna estivesse morto, mas eu tinha a sensação de que ele estava muito, muito mal e eu tinha o sentimento preciso do que o povo brasileiro estava sentindo naqueles momentos. Senti que era necessário dizer que não sabia exatamente qual era a situação, mas sabia que era crítica. Eu não poderia dizer que ele provavelmente morreria. Ninguém sabia - e era especialmente importante porque a TV Globo e toda a sua família e amigos estariam assistindo."

Leonardo saiu em rapidamente ao ver acidente de Ayrton Senna


O irmão de Senna, Leonardo, no entanto, estava em Ímola, na cabine de transmissão. Reginaldo Leme viu o rosto de Leonardo e "Leonardo imediatamente saiu da cabine". Um dos parceiros de negócios de Senna também estava lá, mas ele ficou. Leme olhou para ele e ele olhou para Leme. "Estávamos em apuros, mas não falámos uma só palavra - sabíamos que era um problema [grave]". Nem a transmissão se dissolveu em abandono emocional, com a histeria voltando da conexão do Brasil com Leme. As pessoas que lidavam com isso eram experientes e, como Leme relata, propriamente profissionais. É invariavelmente assim: você faz o seu trabalho e derrama suas lágrimas depois, em particular.


IDIOMA ORIGINAL

Reginaldo Leme worked for the Brazilian channel TV Globo throughout Senna's carrer. "I was commentating together with Galvao Bueno. I did the analysis. In Brazil it's different to England: we call a commentator the analyst, and you call the commentator the person who tells you what is happening. Bueno did that and I was the analyst."

"Galvao was the very best friend of Senna and, it's an incredible coincidence, but that moment of the crash at Imola - at that exact moment - Galvao was not watching the monitor. The old commentary booth at Imola was very small, we couldn't see the cars and the pits, and Galvao was trying to see something in the pits. I pushed him very strongly to pay attention to the monitor. When he turned and saw the monitor it was terrible. His face changed.

"Senna crashed, crashed hard and Galvao was quite silent. During the next 15, 20, 30 minutes probably I had to speak and the pictures were getting worse and worse and worse. Normally he speaks and I am waiting for my turn. He couldn't speak. I didn't think Senna was dead but I had a feeling that he was very, very bad and I had the precise feeling of what Brazilian people were feeling in those moments. I felt it was necessary to say I don't know exactly what the situation is but I do know it is critical. I could not say he would probably die. Nobody knew - and it was specially important because it was TV Globo and all his family and friends would be watching."

Senna's brother Leonardo, however, was at Imola and in a commentary booth. Leme saw Leonardo's face and "Leonardo immediately left the booth." One of Senna's business partners was in the too, but he stayed. Leme looked at him and he looked at Leme. "We were in trouble but we did not speak one word - we knew it was trouble." Nor did the broadcast dissolve into emotional abandon, with hysteria coming back down the line from Brasil to Leme. The people handling it were experienced and, as Leme recounts it, properly professional. It is invatiably so: you do your job and shed your tears afterwards, privately.



FONTE PESQUISADA

HILTON, Christopher. Ayrton Senna: As time goes by. 1º Edição. Sparkford: Haynes Publishing, 1999.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Ayrton Senna o Fim de uma Era 1960 - 1994





O vídeo tenta passar o que Ayrton pensou ao ver, pela primeira vez na vida, uma morte na F1 a do piloto Roland Ratzenberger, morreu na sua frente, no GP de San Marino, onde ele próprio viria a falecer também no dia seguinte. Sua carreira, suas vitórias, passaram como um filme em sua mente. É o que o vídeo mostra.

Os chefes da FIA deveriam ter cancelado a Prova, quando Roland faleceu, mas por ter que devolver o dinheiro dos ingressos e de patrocinadores, continuaram, e Senna veio sofrer um Acidente e também falecer.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

3 Memórias de Ayrton Senna

Por Sérgio Veiga
F1 Flash - f1flash.com
01/05/2015

(Parte I): A Vitória no Estoril-85


Ayrton Senna da Silva comemoraria hoje o seu 55.º aniversário, se não tivesse sido aquele fim-de-semana maldito de Imola-94, em que todos os deuses se zangaram com a Fórmula 1… Tive a sorte de poder privar, em termos profissionais, com o enorme piloto brasileiro e aqui recupero, em jeito de homenagem, os três episódios que imediatamente me vêm à cabeça de cada vez que ouço o seu nome.

Abril de 1985, uma manhã de quarta-feira no aeroporto da Portela, espero a saída do brasileiro, passageiro do voo Varig 762. Naquela altura, em que a F1 ainda era novidade em Portugal (era o 2.º Grande Prémio da «era moderna» ainda era hábito ir esperar os pilotos mais importantes ao aeroporto para ter logo umas primeiras palavras. Para mais, o trissemanário «A Bola» saía à 5.ª feira, era bom arrancar com a reportagem da F1 logo com declarações da nova estrela em ascensão! Mas com tantos jornalistas à espera, era quase impossível ter uma conversa mais prolongada e consegui combinar com Senna um encontro para a tarde, já no autódromo do Estoril.

Despachados os cumprimentos a engenheiros, mecânicos e demais elementos da equipa Lotus, sentámo-nos junto do muro das «boxes» e, durante largos minutos, sem pressas, Senna foi respondendo a tudo o que lhe perguntava. Sentia o olhar desconfiado do brasileiro, ao ver que apenas tomava notas num daqueles grandes blocos «Castelo», mas falámos tranquilamente o tempo que foi necessário. Outros tempos, sem a pressão mediática actual…

No dia seguinte, reencontrámo-nos no autódromo logo pela manhã e ele, sorridente, agradeceu «o bom trabalho». Já tinha visto, obviamente, a página inteira de «A Bola» (ainda no formato… gigante!), encimada pelo título «Quando vou a 300 km/h só penso em ir mais e mais rápido!» e com tudo o que ele tinha dito, direitinho, por muito estranho que lhe tivesse parecido o esquema das notas no bloco «Castelo»… Desde esse dia que se criou uma relação de respeito mútuo, óbvio do meu lado pelo piloto que ele era, mas também da parte dele que sempre me «atendeu» com a máxima paciência e atenção.

Depois, viria a «pole» e a sua primeira vitória na Fórmula 1 (fará 30 anos a 21 de Abril), sob um dilúvio imenso, em que demonstrou um controlo superior do Lotus, numa prova com metade dos 16 abandonos por piões ou acidentes. E em que Senna deixou o 2.º a mais de um minuto, os 3.º e 4.º a 1 volta e o 5.º (Nigel Mansell num Williams/Honda) a 2 voltas! Apesar de muitas vezes ter pedido para que a corrida fosse parada, Senna nunca «tirou pé» e, sob condições dantescas, levou o Lotus/Renault à vitória e a crença popular ao ponto de perceber que estávamos perante alguém muito especial.



Entrou totalmente encharcado na sala das conferências de imprensa, trocámos sorrisos quase cúmplices pela entrevista que, agora, parecia um talismã e, durante um ror de tempo, ali o vi literalmente a bater o queixo e a tiritar de frio, mas a explicar com toda a tranquilidade como fora a sua primeira vitória. Porque muitas mais se seguiriam…

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(Parte II): da raiva… às desculpas


Embora todos tenhamos cultivado a imagem de um Ayrton Senna sereno, simpático, uma pessoa suave, o genial piloto brasileiro também tinha os seus momentos irascíveis, em que conseguia raiar o desagradável. Na sexta-feira dos treinos livres do G.P. da Alemanha de 1988 as coisas não lhe estavam a correr de feição e o McLaren/Honda não estava ao seu gosto, perdendo para o rival Alain Prost.

Naqueles tempos, jornalistas a entrar nas «boxes» das equipas era algo mais ou menos normal e, para reportar para «A Bola», costumava aproveitar a «boleia» dos jornalistas brasileiros para falar também com Senna, agradando à enorme legião de fãs que ele sempre teve em Portugal. Naquele dia, contudo, algo me atrasou e perdi o «comboio brasileiro», descendo mais tarde à «boxe» da McLaren onde encontrei Senna a falar com o seu engenheiro, ar de poucos amigos. Esperei que a conversa acabasse e, quando lhe perguntei «o que se passa Ayrton?», ele olhou através de mim e disse-me com uma rudeza que não lhe conhecia: «Porque só vem agora e não veio com os outros?! Agora não falo com você!» e quase me expulsou da «boxe»… «Está o caldo entornado», pensei, «este agora nunca mais me vai falar por causa disto».

Horas mais tarde, dia de treinos arrumado, estava no «paddock» em amena cavaqueira com o Domingos Piedade e outras pessoas, a caminho do carro para sair do circuito, quando sinto alguém bater-me nas costas. Virei-me e era Senna. «Você me desculpe aquilo de há pouco, eu estava meio chateado e você apareceu na altura errada. Me desculpe, agora está tudo bem, ok?». Nem sei se cheguei a balbuciar algo, era a última coisa que esperava de um piloto de F1 com os seus gigantescos egos…

O grande Ayrton Senna, a caminho do seu primeiro título, estava ali humildemente a pedir-me desculpa? Quantos dos outros trinta pilotos presentes em Hockenheim teriam tido semelhante atitude? Aí confirmei não só o respeito mútuo que já levava alguns anos, mas a grandeza humana de Senna que, tendo tido um ataque de irascibilidade (talvez até compreensível…), tivera a humildade de desviar o seu caminho para vir pedir desculpas pela sua atitude. E lá continuámos a nossa relação profissional como se nada se tivesse passado.




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(Parte III): o fim-de-semana que nunca devia ter existido


É inevitável… Quando ouço o nome Senna viajo imediatamente no tempo para 1 de Maio de 1994, o ponto mais fundo do fim-de-semana em que os deuses abateram toda a sua raiva sobre a F1. Tudo começara na 6.ª feira, com um acidente feito de Rubens Barrichello, com quem tinha grande afinidade por ter seguido a sua carreira na Fórmula Opel-Lotus (que corria juntamente com a F1) e pela ligação com Pedro Lamy. O susto foi enorme e lembro-me de Senna correr ao hospital do circuito para se inteirar do estado do seu benjamim.

No dia seguinte foi a tragédia da morte de Roland Ratzenberger que abanou todos quantos seguiam a F1. Recordo-me de Senna se meter no carro médico, com o seu amigo Syd Watkins, o médico da F1, e ir ao local do acidente perceber como tinha sido possível. Mais tarde, Watkins revelou que, nessa altura, disse a Senna para parar de correr…

Ainda mal refeito de dois violentos dias, nada me preparava para a tragédia de 1 de Maio… Primeiro o acidente no arranque em que só por milagre Pedro Lamy não se magoou seriamente, ao abalroar o Benetton parado de JJ Lehto. Mas muitas peças tinham voado para a bancada, provocando diversos feridos… Retomada a corrida, Senna despista-se na temível Tamburello, tem de estar tudo bem, pensamos todos, já muitos ali bateram e safaram-se com maiores ou menores mazelas. Olhos colados nos ecrãs, o capacete amarelo move-se, há um breve momento de alegria, está tudo bem ele mexe-se!, seguido por uma queda abrupta nas profundezas da tragédia quando assistimos aos meios médicos envolvidos no seu socorro.



Aproveito para descer à «box» da Lotus para saber como está Lamy que me despacha rapidamente com um «eu estou bem, mas como está o Ayrton?». Não há respostas, parece grave, mas, bolas, o capacete mexeu-se ele há-de estar razoavelmente bem, talvez algumas fracturas… Na altura apenas os socorristas sabiam a verdade e os momentos de desespero por que passava o brasileiro, já inconsciente, já em coma, de onde não mais sairia.

Numa sala de imprensa com muitas centenas de jornalistas, o silêncio era sepulcral, havia quem não contivesse as lágrimas, era demais num só fim-de-semana. Porque a corrida prosseguira e ainda houvera mais quatro feridos nas «boxes», por uma roda que se saltara do Minardi de Alboreto. «Morte» foi coisa que só se começou a ouvir muito mais tarde, já a corrida estava a terminar. Os rumores foram-se avolumando, até à confirmação do «press officer» da FIA que varreu a sala de imprensa com uma violenta onda de choque. Não, o Ayrton não!...

Na altura senti-me totalmente vazio e exausto, totalmente exausto de três dias de tragédias permanentes… Lembro-me de ligar para Lisboa e pedir ao chefe de redacção d’ «A Bola», Santos Neves, que me dispensasse do trabalho, não tinha condições para escrever uma única linha. Mas os leitores não têm nada a ver com os estados de alma do jornalista e foi o que percebi quando, do outro lado, ouvi um seco (e sei que muito difícil de dizer!) «está bem, vê se te acalmas e depois tens duas páginas para escrever».

Às vezes, «enfiarmo-nos» num teclado serve quase de terapia, de exorcismo dos fantasmas que nos esmagam. E foi assim que apareceram os textos para as tais duas páginas (ainda das grandes…), as mais difíceis de toda a minha vida! Já passava da uma da manhã quando saí de Imola, um sentimento de tremendo vazio, as lágrimas a quererem saltar. Acabara de viver o maior pesadelo de sempre… E a Fórmula 1 acabara de perder milhões de adeptos. Ainda hoje há quem me diga que deixou de seguir a F1 no dia em que Senna morreu. Compreendo mas não aceito. Porque tenho a certeza de que o próprio Ayrton não o aprovaria!

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SÉRGIO VEIGA

Enviado-especial do jornal «A Bola» a largas dezenas de Grandes Prémios, nunca deixou de reportar sobre o Mundial, tendo nos últimos anos alargado a sua experiência aos comentários televisivos.

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FONTES PESQUISADAS

VEIGA, Sérgio. 3 memórias de Ayrton Senna (parte I): a vitória no Estoril-85. Disponível em: <http://www.f1flash.com/Artigos/Historias/Senna-a-vitoria-no-Estoril-85>. Acesso em: 25 de janeiro 2018.

VEIGA, Sérgio. 3 memórias de Ayrton Senna (parte II): da raiva… às desculpas. Disponível em: <http://www.f1flash.com/Artigos/Historias/Senna-da-raiva-as-desculpas>. Acesso em: 25 de janeiro 2018.

VEIGA, Sérgio. 3 memórias de Ayrton Senna (parte III): o fim-de-semana que nunca devia ter existido. Disponível em: <http://www.f1flash.com/Artigos/Historias/Senna-o-fim-de-semana-terrivel>. Acesso em: 25 de janeiro 2018.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

23 Anos Sem Senna. E a Matéria Que um Japonês Não Teve Coragem de Escrever


Julianne Cerasoli
Do UOL, em Londres (ING)
01/05/201704h00
Jean-Loup Gautreau/AFP

A não ser que você seja um jornalista de guerra e vá para sua cobertura sabendo o que vem pela frente, ninguém gosta de fazer a cobertura de uma morte. Ainda mais quando é seu ídolo que perde a vida - e você acaba chegando muito mais perto da realidade até do que gostaria. Mas essa é a história do jornalista japonês Masahiro Owari, que ainda era um iniciante quando viveu uma situação que o perturbou durante anos.

Owari seguia de perto o 'circo' da Fórmula 1 desde 1993 quando viajou ao GP de San Marino de 1994 decidido a encerrar sua breve carreira.

"Antes de voar para Imola, tinha decidido deixar a Fórmula 1. Aí o acidente aconteceu. Seria minha última corrida, mas fiquei muito pensativo depois de tudo o que tinha acontecido. Muita gente teve a mesma reação", contou em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

Aquele final de semana foi o mais trágico da história da categoria, que não via uma morte em provas oficiais desde 1982: primeiro, na sexta-feira, Rubens Barrichello sofreu um acidente forte e ficou de fora da prova. No sábado, Roland Ratzenberger perdeu a vida no treino classificatório. A corrida começou sob muita tensão, pois havia na época muitas reclamações acerca da falta de segurança dos carros depois de uma mudança de regulamento que retirou várias ajudas eletrônicas e deixou os carros muito nervosos. Na quinta volta, Ayrton Senna teve um problema mecânico em sua Williams e bateu forte na curva Tamburello, tendo sua morte confirmada horas depois.

Para o jornalista japonês, isso significava que uma de suas últimas corridas - ele ainda ficaria na Europa para o GP de Mônaco, duas semanas depois - seria a mais dolorosa delas, pois teria que escrever sobre a morte do próprio ídolo.

"Na segunda-feira, eu tinha que escrever uma matéria. A maioria dos jornalistas tinha voo para ir embora, mas eu ficaria lá alguns dias. Fui para o circuito e fiquei imaginando 'onde será que o corpo dele está agora?' Falaram que ele estava no hospital ainda, mas fui ao IML e tinha muita gente lá, então imaginei que ele estaria ali".

Durante a entrevista, Owari tentou evitar o assunto, mostrando-se claramente ainda abalado em relembrar aqueles momentos que se seguiram à morte do tricampeão. "Não gostaria de falar sobre isso, mas entendo que você queira saber", disse o japonês, que até hoje tem como tela de fundo de seu notebook fotos de Senna.

Owari seguia o instinto jornalístico, não sabia muito bem o que estava procurando para sua matéria. E muito menos poderia prever o que iria acontecer em seguida. "Havia um esquema forte de segurança. Queria saber se haveria alguma entrevista coletiva, algum comunicado, e fui perguntar ao policial. Ele não falava inglês, acho que não me entendeu direito, e disse para eu entrar", contou.

"Ele foi me levando para dentro. Eu estava com muito medo. Eu não queria ver o corpo, mas não podia parar. Aí ele abriu a porta: a sala estava cheia de corpos e eu reconheci o Ayrton. Até hoje não sei por que ele me levou lá, não tinha mais ninguém."

Abalado pelo que tinha visto, Owari acabou não conseguindo publicar a história. "Hoje em dia, eu consigo falar sobre isso. Naquela época, não podia e não escrevi a matéria. Foi então que deixei mesmo a Fórmula 1 e fui fazer algo completamente diferente. Queria estar perto da minha família, minha filha nasceu no mesmo ano em que tudo isso aconteceu", lembra.

"Mas mesmo tendo deixado o jornalismo, fiquei me perguntando: 'por que você não escreveu sobre aquilo? Como ser humano, como jornalista, você deveria escrever'. Dois anos depois, contei o que tinha acontecido para um amigo jornalista e ele disse que era meu dever escrever. Então eu decidi voltar a este mundo da F-1, em 1997, e fiz a matéria, que acabou sendo muito bem recebida no Japão. Às vezes é difícil entender, mas é nosso dever como jornalistas relatar o que vemos."

Desde 1997, Owari segue cobrindo a F-1, mas nunca mais viu um piloto como Senna. Nem ele, nem os japoneses, como faz questão de contar. "Hoje em dia é comum ver muitos rapazes com 20 e poucos anos com o nome Senna no Japão. Ele era realmente muito popular. Inclusive, nosso esporte mais popular é o beisebol e estava vendo a final do torneio universitário recentemente e o pitcher se chamava Senna Sato."


FONTE PESQUISADA

CERASOLI, Julianne. 23 anos sem Senna. E a matéria que um japonês não teve coragem de escrever. Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/f1/ultimas-noticias/2017/05/01/23-anos-sem-senna-e-a-materia-que-o-japones-nao-teve-coragem-de-escrever.htm>. Acesso em: 01 de maio 2017.

terça-feira, 14 de março de 2017

Alguns Fatos Que Você Ainda Não Sabe Sobre a Morte de Ayrton Senna

POR FABRÍZIA RIBEIRO   EM ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS    01 MAI 2014 — 17H56   
Mega Curioso - megacurioso.com.br


No dia 1º de maio de 1994, Ayrton Senna da Silva sofria um acidente fatal. Naquela manhã de domingo, o tricampeão mundial deixaria uma falta irreparável nos milhares de fãs que tinha no Brasil e no mundo. O acidente, que aconteceu na curva Tamburello do GP de San Marino, hoje é lembrado por muitos com pesar.

Ayrton Senna era conhecido por seu carisma e sempre foi descrito como uma pessoa simpática e muito atenciosa por todos os fãs e jornalistas que tiveram a oportunidade de conhecê-lo. Uma dessas pessoas foi o jornalista Livio Oricchio, que acompanhou a carreira do piloto e estava presente nos últimos instantes da vida de um de nossos maiores heróis.

Depois de presenciar as vitórias e, infelizmente, relatar a partida do grande piloto, Oricchio preparou um especial para o UOL em que revela maiores detalhes sobre os últimos dias da carreira de Senna. Abaixo você confere alguns dos fatos retirados do especial:

Ayrton Senna no GP de San Marino.
Reprodução/Pascal Rondeau – ALLSPORT

*O carro que Senna pilotava naquela temporada era o Willians FW16, cujo projeto era de responsabilidade do engenheiro Adrian Newey. O brasileiro já havia tido dificuldades em pilotar o carro por conta da instabilidade do veículo ao passar sobre qualquer irregularidade no asfalto. Senna chegou a solicitar a Frank Williams, dirigente da escuderia, que pudesse treinar com o FW15C;

*Uma das dificuldades de Senna era que ele machucava as mãos enquanto pilotava. Ao virar o volante, o piloto esbarrava com as mãos na parte superior do cockpit e se feria. A configuração do volante foi alterada para evitar o problema e muitos acreditam que isso foi determinante para o acidente;

*Tudo indica que a pressão psicológica também influenciou diretamente o piloto. Senna estava indo para a terceira etapa do mundial sem ter marcado nenhum ponto, enquanto Michael Schumacher – seu principal adversário – havia vencido as duas corridas do campeonato e estava na liderança com 20 pontos;

Foto: Norio Koike

*Na sexta-feira (29 de abril de 1994), logo no início do treino, Rubens Barrichello – com 21 anos na época – sofreu um acidente que também deixou Senna preocupado. Barrichello bateu contra um muro a cerca de 200 km/h e capotou. O jovem piloto ficou desacordado por alguns instantes e Senna, que foi conferir a cena de perto, saiu de lá visivelmente abalado;

*No sábado (30 de abril), a situação ficou ainda pior. O piloto austríaco Roland Ratzenberger morreu ao colidir a 300 km/h na curva Villeneuve do circuito de Ímola. Senna, que já estava abalado pelo acidente de Barrichello no dia anterior, ficou ainda mais entristecido. O piloto chegou a ir até o local da pista onde havia ocorrido o acidente e depois chorou compulsivamente pela perda do colega. Para agravar a situação, o brasileiro ainda recebeu uma advertência do belga Roland Bruynseraede, delegado de segurança da F1 e diretor de prova, por ter ido até o local do acidente;


Foto: Lemyr Martins

*Sid Watkins, médico da Fórmula 1 e amigo do piloto brasileiro, chegou a aconselhá-lo a não disputar o GP de San Marino no sábado à noite, poucas horas do acidente. “Ele me disse: ‘O que é que eu vou alegar para a equipe, nessa situação em que estamos, 20 pontos atrás de Schumacher na classificação? Apenas que não estou bem?’”, revelou o médico anos depois;

*No domingo (1º de maio), logo na largada da prova, um acidente com o carro da Benetton fez com que o safety car entrasse na pista. Nesse momento, Senna estava em primeiro lugar, seguido de Schumacher. Como naquela época o safety car era um veículo de série, a velocidade percorrida no circuito era menor do que o necessário para manter a temperatura dos pneus e dos freios, o que facilitaria a retomada da competição. A baixa velocidade fez com que a pressão dos pneus da Williams caísse e isso também pode ter contribuído para o acidente;

*Depois de passar pela tangente da curva Tamburello e se chocar gravemente, Senna recebeu pronto atendimento. Os comissários de prova do circuito de Ímola revelaram que foi encontrada uma bandeira da Áustria em meio aos destroços do carro do brasileiro. Provavelmente, Senna havia planejado fazer uma homenagem a Roland Ratzenberger, que havia falecido no dia anterior;


O corpo de Ayrton Senna foi trazido ao Brasil na classe executiva em um voo que partiu de Paris para São Paulo. Com as cortinas fechadas, apenas a tripulação sabia que o caixão do piloto estava na aeronave e nenhum dos passageiros foi informado para que não houvesse tumulto. Demais aeronaves que estavam no ar naquele momento e foram avisadas que o corpo do piloto estava sendo transportado passaram pelo avião fazendo sinal de luzes e algumas tripulações enviaram mensagens;



FONTE PESQUISADA


RIBEIRO, Fabrízia.  Alguns fatos que você ainda não sabe sobre a morte de Ayrton Senna. Disponível em: <http://www.megacurioso.com.br/acontecimentos-historicos/43070-alguns-fatos-que-voce-ainda-nao-sabe-sobre-a-morte-de-ayrton-senna.htm>. Acesso em: 14 de março 2017.