Foi exatamente na terça-feira
dia 10 de setembro de 1985 que Ayrton me recebeu na sua casa em Esher, nos
arredores de Londres, para conversarmos sobre a temporada e o seu futuro na
Lotus Racing Team.
Logo que entrei, ele me fez sinal para acompanhá-lo até a lavanderia. Lá, abriu
um pacote que acabara de chegar da tinturaria, retirou o macacão preto-dourado
JPS da Lotus, cheirou-o, fez cara de nojo e embrulhou de novo. Em seguida
apanhou um outro macacão de um cesto e mergulhou-o na máquina de lavar roupas.
Regulou o aparelho e fomos conversar no escritório.
Mais dez minutos de papo e voltamos à lavanderia. Ayrton mexeu nos botões do
lava-roupas, enquanto comentávamos a sua visita à Ferrari e a sua impressão ao dirigir
o último modelo do Testarossa, mas não deu mais detalhes sobre o colóquio com
dom Enzo Ferrari.
Embora Ayrton me contasse que estava negociando a ida dos motores
turbocomprimidos da Honda para a Lotus em 1986, parecia mais interessado na
lavagem do macacão. Voltamos à lavanderia pela terceira vez. Ayrton retirou o
macacão de dentro da máquina, cheirou, sacudiu e pendurou a peça no varal.
Depois de ajeitar a gola, os bolsos e o velcro do cinto, deu dois passos para
trás e examinou a roupa com certo encantamento.
Fiquei intrigado. Por que um piloto rico fazia questão de lavar o macacão?
Seria superstição?, perguntei-lhe. Ele não respondeu; só disse que aquele era
especial.
Naquelas semanas, Ayrton se
aprofundou no método que Nuno Cobra batizara de ABC e no qual são fundamentais
o sono, a alimentação e a atividade física, três prioridades que afastaram
Senna definitivamente do estereótipo clássico dos pilotos da geração que o
precedera na Fórmula 1: mulherengos entregues à noite, ao sexo, ao álcool e às
orgias gastronômicas entre uma e outra corrida. Para Nuno Cobra, não adiantava
nada o piloto, cada vez mais um atleta, fazer exercícios e depois cair na noite
ou se alimentar mal.
Senna criou, sob orientação de Nuno, um ritual que seguiria com uma certa
regularidade: antes de cada prova, ele se isolava por um certo tempo e, para
diminuir a freqüência cardíaca, respirava aceleradamente, expelindo todo o ar
dos pulmões. Depois, repetia o mesmo exercício mais relaxadamente. Pegava então
o capacete e começava a limpar a viseira. Nuno aposta: "Nessa hora, ele
não pensava em nada, apenas economizava energia.”
Piloto brasileiro durante o Fuji TV Japanese GP, no Japão
(1991)
Foto: Norio Koike
Limpando Capacete na Estreia na F1 no GP do Brasil em 25
de Março de 1984
Foto: Reprodução
FONTE PESQUISADA
RODRIGUES, Ernesto. Ayrton, o herói revelado. Edição 1. Rio de Janeiro: Editora
Objetiva, 2004.